O avanço da inteligência artificial tem transformado a forma como estudantes, professores e instituições de ensino lidam com a aprendizagem. Ferramentas capazes de responder perguntas, resumir conteúdos, criar exercícios e auxiliar na produção de textos passaram a fazer parte da rotina escolar e acadêmica, abrindo espaço para novos métodos de ensino e também para debates sobre limites, ética e desenvolvimento do pensamento crítico.
Cada vez mais presente em salas de aula, plataformas digitais e ambientes de estudo, a inteligência artificial vem sendo utilizada como apoio no aprendizado em diferentes níveis de ensino. Enquanto especialistas apontam benefícios como personalização do ensino, agilidade na busca por informações e estímulo à autonomia dos estudantes, educadores também alertam para a necessidade de uso consciente da tecnologia, evitando dependência e desinformação.
De acordo com Fabiano Larentis, Sub-reitor da Universidade de Caxias do Sul (UCS), Campus Bento Gonçalves, professor universitário e pesquisador da área, é importante lembrar que a aprendizagem não é apenas um fenômeno cognitivo, mas também social, emocional e cultural. “Temos que entender a diferença da IA sendo utilizada para fins de aprendizagem ou para fins de cumprimento de trabalho”, observa.

Fabiano Larentis, Sub-reitor da UCS Bento


Utilização correta
Segundo ele, o uso de inteligências artificiais generativas, como o OpenAI ChatGPT e o Google Gemini, pode ser extremamente positivo quando aplicado como ferramenta de apoio à aprendizagem. No entanto, alerta que, quando utilizadas apenas para cumprir tarefas prontas, parte importante do processo de construção do conhecimento acaba sendo perdida, especialmente a conexão do estudante com o conteúdo, a capacidade de reflexão e a troca de ideias. “Por exemplo, trabalhar na elaboração de um mapa conceitual/esquema, ou mapa mental, sobre imigração italiana no Rio Grande do Sul e seus efeitos na atualidade com o auxílio da IA (ex: dando dicas e ideias, melhorando o texto e indicando formatos de desenho), é diferente de pedir para a IA elaborar esse mapa conceitual. Em um, o aprendizado é grande, exige que mobilizem os muitos mecanismos mentais e até mesmo sociais. A IA, nesse sentido, vai agregar. No outro, é um simples cumprimento de trabalho. Mesmo que leiamos e avaliemos o que a IA elaborou no esquema, nossa apropriação será muito menor de quando colocamos a nossa mão na massa. Minha filha, por exemplo, pede para a IA gerar perguntas para ela testar seus conhecimentos para uma prova. É um belo uso da IA, nos faz aprender”, observa.
De acordo com Renan Alexandre, bacharel em Ciências Contábeis pela UCS e professor de turmas de IA na prática em uma escola de tecnologia e informática de Bento Gonçalves, a inteligência artificial está agindo como um nivelador. “Ela permite que o aluno que tem dificuldade em um ponto específico receba uma explicação personalizada, enquanto o professor ganha fôlego para focar na mediação e no debate, delegando à máquina a parte repetitiva da transmissão de dados”, aponta.

Renan Alexandre, professor na área de IA

Riscos
Larentis destaca que alguns autores utilizam os termos “atrofia cognitiva” e “sedentarismo cognitivo” para descrever os impactos do uso excessivo e passivo da inteligência artificial. Segundo ele, pesquisas recentes já apontam sinais de redução do esforço mental em usuários frequentes dessas ferramentas. “Um experimento recente do Massachusetts Institute of Technology (MIT), identificou que usuários de IA tiveram queda de 47% no engajamento neural. Não é apenas uma dependência, mas uma atrofia cognitiva, como um músculo que se esqueceu de como trabalhar, pois ele não foi exercitado. O que é espetacular do cérebro é a sua constituição orgânica, considerando como ocorrem as sinapses, como nossos saberes se estabelecem”, menciona o sub-reitor.
Para ele, a utilização da tecnologia de forma excessivamente reativa, quando a pessoa apenas recebe respostas prontas em vez de construir raciocínios, pode comprometer habilidades importantes. “Estamos a uma maior dependência da tecnologia, sendo mais reativos que propositivos, mesmo que fiquemos perguntando a IA sobre uma tarefa, nos leva a um menor uso das nossas capacidades cognitivas, que por sua vez mexem no nosso senso crítico, na nossa capacidade de análise e de questionamento, na nossa condição de julgamento, na criatividade, na nossa proatividade. Ao invés de maior autonomia, teremos maior passividade. Pesquisas já identificam isso”, afirma.
Já Alexandre menciona que o maior risco é a confiança cega que muitas pessoas têm sobre a inteligência artificial. “É um excelente suporte, mas ela não ‘pensa’, ela processa padrões. Por isso, o cuidado essencial é nunca aceitar uma resposta sem antes questioná-la. Professores e alunos devem usá-la como uma base para o rascunho, mas a validação técnica e o senso crítico precisam ser sempre do humano que está no comando”, aponta.
Larentis menciona que estudos realizados em cerca de 50 países apontam que o uso frequente da inteligência artificial para resolver dúvidas, conflitos e tomadas de decisão pode reduzir o exercício de habilidades humanas fundamentais. Segundo ele, ao recorrer constantemente à IA, as pessoas deixam de desenvolver competências como negociação, empatia e tolerância ao desconforto nas relações interpessoais. “A terceirização de tarefas cognitivas para a inteligência artificial terá um custo”, alerta.

Uso na sala
O sub-reitor menciona o chamado letramento digital, que consiste na alfabetização em relação às ferramentas digitais. “Assim como aprendemos a fazer cálculos, a ler e a interpretar, também precisamos aprender a lidar com as tecnologias, como ferramentas, de forma responsável. Quando lidamos com um conteúdo gerado por IA, necessitamos avaliar se ele está de acordo, se não há uma pegadinha ou uma alucinação, é necessária essa curadoria. Temos também que aprender a perguntar para a IA de forma que as respostas sejam mais efetivas. Ela aprende a partir do volume de conhecimento disponível na internet. No entanto, precisamos ter em mente que nossas demandas de conhecimento costumam ser contextualizadas”, afirma.
O professor de IA aponta que o risco não está na tecnologia, mas na resistência em atualizar os métodos de avaliação. “Se uma IA consegue resolver uma prova inteira, talvez essa prova estivesse cobrando apenas memorização, e não conhecimento real. A oportunidade aqui é elevar a régua do que exigimos dos estudantes, focando menos na repetição de dados e mais na capacidade de resolver problemas complexos”, observa Alexandre.
Ele afirma que o uso responsável da ferramenta serve para abrir portas. “Explicar um conceito difícil, estruturar um cronograma ou oferecer exemplos. Para usar bem a IA, o aluno precisa analisar criticamente o que ela entrega, comparar com outras fontes e decidir o que é realmente útil. Isso é um exercício constante de julgamento e criatividade, já que a máquina oferece as peças, mas é o aluno quem decide como montar o quebra-cabeça”, pontua.