O Rio Grande do Sul vive um cenário de alerta na saúde pública diante do avanço das doenças respiratórias. No início do mês de maio, o governo do Estado decretou emergência em saúde pública após registrar aumento de 533% nas internações por influenza.
O crescimento dos casos de Síndrome Respiratória Aguda Grave (SRAG) também foi apontado no mais recente boletim InfoGripe, da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), divulgado na última semana, que indica tendência de alta nas hospitalizações provocadas, principalmente, pelos vírus Influenza A e Vírus Sincicial Respiratório (VSR).
Em Bento Gonçalves, o cenário também acende um sinal de alerta. De acordo com a secretária municipal de Saúde, Daiane Piuco, apesar de os dados de SRAG apresentarem redução em comparação ao ano passado, o município registra aumento na procura por atendimentos relacionados a síndromes respiratórias, especialmente nas unidades de urgência e emergência. “O cenário é característico do período sazonal de maior circulação viral, com predominância de quadros respiratórios em crianças”, menciona.
Casos
No município, a secretária afirma que os vírus mais identificados até o momento são adenovírus/rinovírus, responsáveis por 46,4% dos casos notificados. Também há circulação de influenza sazonal, representando 30,4% dos casos, e coronavírus, com 17,4%. Até o presente momento, não houve detecção de casos de H1N1 no município.
Conforme Daiane, os dados atuais apontam uma diminuição significativa nos casos de SRAG em comparação ao mesmo período do ano passado. Entre janeiro e maio de 2025, o município registrou 230 casos, enquanto, no mesmo intervalo de 2026, foram contabilizados 69. “Apesar da redução dos casos graves, observa-se aumento expressivo na demanda por atendimentos ambulatoriais e de urgência relacionados a quadros respiratórios”, frisa.
Cenário atual
No momento, a secretária afirma que a situação é considerada controlável em relação aos atendimentos realizados na Unidade de Pronto Atendimento (UPA) de Bento Gonçalves. “Entretanto, o município mantém monitoramento constante da situação epidemiológica, especialmente diante da aproximação do inverno e do aumento sazonal das doenças respiratórias”, ressalta.
Ela revela que os atendimentos relacionados a sintomas respiratórios registraram aumento expressivo. “Comparando os primeiros sete dias de abril e maio de 2026, houve crescimento de 2.328 para 2.834 atendimentos, representando 506 atendimentos a mais no período analisado”, aponta Daiane.
Ela afirma que, até então, Bento Gonçalves não registra aumento significativo de casos graves em adultos com insuficiência respiratória. “Contudo, os atendimentos pediátricos têm apresentado maior agravamento dos quadros respiratórios, exigindo atenção permanente das equipes de saúde. Os casos de SRAG seguem sendo monitorados continuamente pela vigilância epidemiológica e pela rede assistencial”, aponta.
Conforme dados da Secretaria Municipal de Saúde, o público pediátrico é o que apresenta maior aumento nos atendimentos relacionados a doenças respiratórias. Nos primeiros sete dias de abril, foram registrados 650 atendimentos infantis, número que subiu para 939 no mesmo período de maio. Entre os idosos, também houve crescimento na procura por atendimento, passando de 228 casos em abril para 245 neste mês, refletindo o avanço sazonal das síndromes respiratórias no município.
Sistema de saúde
Em Bento Gonçalves, as equipes de saúde seguem mobilizadas e preparadas para atender uma possível ampliação da demanda durante o período de inverno. Conforme a secretária municipal de Saúde, as unidades mantêm os serviços. “As unidades de saúde seguem realizando monitoramento constante dos atendimentos, organização de fluxos assistenciais, vigilância epidemiológica ativa e fortalecimento das ações preventivas, especialmente da vacinação”, destaca.
Cobertura vacinal
A secretária aponta que o município segue intensificando ações de vacinação contra a influenza e reforçando a importância da imunização, especialmente entre os grupos prioritários. “A vacina é uma das principais estratégias para reduzir casos graves, internações e óbitos relacionados às doenças respiratórias”, reforça Daiane.
Quadro suspeito
De acordo com a infectologista Isabele Berti, do Tacchini Saúde, pessoas com sintomas gripais devem adotar medidas preventivas para evitar a transmissão do vírus, especialmente aos grupos mais vulneráveis. “Se o paciente estiver com algum quadro suspeito, o ideal é que prontamente utilize máscara, reforce a higienização das mãos e evite contato com pessoas que apresentam maior risco de complicações, como idosos, crianças, pacientes imunossuprimidos ou com doenças crônicas. Dessa forma, conseguimos reduzir a transmissão do vírus e prevenir possíveis agravamentos”, orienta a especialista.

Ela orienta que a procura por atendimento médico deve ocorrer sempre que houver sinais de agravamento dos sintomas respiratórios. Segundo a especialista, a influenza e outras infecções respiratórias podem evoluir para complicações graves, incluindo síndromes respiratórias severas e infecções bacterianas secundárias. “É importante buscar atendimento quando a febre não cede, há dificuldade para respirar, sensação de cansaço intenso ou respiração muito pesada. Nas crianças, sinais como sonolência excessiva e esforço respiratório merecem atenção, assim como nos idosos, que podem apresentar confusão mental associada ao desconforto respiratório”, alerta a médica.
Sintomas
A especialista explica que os sinais respiratórios são os principais indicativos de agravamento dos quadros gripais. Segundo a médica, sintomas como dificuldade para respirar, cansaço intenso, coloração arroxeada nos lábios ou nas extremidades e esforço respiratório, especialmente em crianças, devem servir de alerta. “Nas crianças, é comum perceber um esforço maior para respirar, com movimentação das costelas. Esses sinais podem surgir logo no início da infecção ou aparecer ao longo da evolução do quadro, independentemente do vírus causador. Por isso, é fundamental monitorar pacientes gripados ou resfriados, porque nem sempre é possível prever quem irá evoluir para quadros graves e quem permanecerá com sintomas leves”, destaca.
Tratamentos
Isabele aponta que o tratamento da gripe e dos resfriados costuma ser realizado com medicamentos sintomáticos, voltados ao alívio da febre, do desconforto e de outros sintomas, além da recomendação de repouso. Ela explica que, nos casos de influenza com maior risco de complicações, também pode ser indicado o uso de antiviral específico. “Pacientes que necessitam de oxigênio, gestantes, crianças, asmáticos e outros grupos de risco estão entre os principais casos em que utilizamos o antiviral”, destaca.
Ela explica que, além da Covid-19 e da influenza, em casos específicos, a maioria dos vírus respiratórios ainda não possui tratamento antiviral direcionado, sendo o cuidado baseado principalmente no controle dos sintomas.
A médica destaca que a circulação de pessoas sintomáticas é um dos principais fatores de disseminação viral, reforçando a importância do uso de máscara e da higienização frequente das mãos. “O que deve orientar o afastamento e o uso da máscara são os sintomas. Mesmo quadros leves podem transmitir o vírus”, alerta.
Isabele também reforça que a vacinação segue sendo a principal forma de prevenção, já que cerca de 15 dias após a aplicação o organismo começa a desenvolver anticorpos contra os principais vírus respiratórios. A especialista ainda destaca a disponibilidade da vacina contra o Vírus Sincicial Respiratório (VSR) para gestantes, considerada uma importante proteção aos recém-nascidos. Com a chegada do frio, a expectativa é de aumento nos casos respiratórios devido à permanência em ambientes fechados e com pouca ventilação, fatores que favorecem a transmissão dos vírus.
Novos leitos
O Hospital Tacchini foi contemplado com leitos pediátricos por meio do programa do governo do Estado chamado Programa Inverno Gaúcho com Saúde. A coordenadora médica do processo materno-infantil do hospital em Bento Gonçalves, Simone Caldeira Silva, menciona que não se trata de novos leitos, mas sim da conversão de leitos já existentes para atendimento prioritário de quadros respiratórios pediátricos durante o inverno. “Terá três leitos de UTI Pediátrica e três leitos de internação pediátrica reservados para esses casos. Em Carlos Barbosa, será disponibilizado um leito adicional”, afirma.
Ela afirma que a notícia foi recebida de forma positiva pela instituição, que já participa anualmente de ações voltadas ao reforço da assistência durante o período de maior circulação de doenças respiratórias. Segundo a profissional, o hospital mantém planejamento prévio para enfrentar o aumento sazonal da demanda, especialmente entre o público infantil. “Sempre nos preparamos para o inverno, considerando a ampliação dos atendimentos pediátricos que ocorrem neste período, principalmente relacionados aos casos respiratórios”, destaca.
Ela afirma que, embora não haja ampliação física da estrutura, a conversão dos leitos garante maior disponibilidade imediata para crianças com quadros respiratórios, especialmente em situações de urgência e emergência atendidas pelo pronto-socorro. “A medida permite organizar melhor o fluxo assistencial durante os períodos de maior demanda e assegurar atendimento mais ágil para pacientes pediátricos de Bento Gonçalves e região”, declara.
