À frente da entidade, Orildes Maria Lottici afirma que negociação coletiva continua sendo o principal instrumento de proteção da categoria, critica a desinformação sobre os sindicatos e avalia os desafios do mercado de trabalho na região
O fortalecimento da representação sindical, a valorização da negociação coletiva e a melhoria das condições de trabalho estão entre as principais bandeiras do Sindicato dos Empregados no Comércio de Bento Gonçalves (SEC-BG). No comando da entidade, a presidente Orildes Maria Lottici avalia que, apesar das mudanças no mercado de trabalho e das dificuldades enfrentadas pelas organizações sindicais nos últimos anos, o sindicato mantém um papel essencial na defesa dos trabalhadores e busca ampliar a conscientização da categoria sobre a importância da participação nas decisões coletivas.
Às vésperas da entidade completar cinco décadas de atuação, a dirigente ressalta que o sindicato procura manter uma estrutura voltada não apenas ao atendimento dos comerciários, mas também à orientação de empresas e escritórios de contabilidade, buscando construir relações institucionais baseadas no diálogo. “O número um aqui sempre vai ser o empregado no comércio. Mas a gente também orienta quem nos procura. Nós entendemos que precisamos buscar parceria com todos”, afirma Orildes.
A expectativa da dirigente é que a entidade continue exercendo papel relevante para o desenvolvimento das relações de trabalho no comércio da região. “Nós vamos completar quase meio século de vida da instituição e espero que a gente siga sendo importante como é hoje para a categoria comerciária e para tudo aquilo que envolve o setor do comércio em Bento Gonçalves”, ressalta.
Convenção coletiva é o principal patrimônio
Embora o sindicato ofereça uma ampla rede de convênios nas áreas da saúde, educação e assistência, Orildes enfatiza que o maior benefício conquistado pelos trabalhadores continua sendo a convenção coletiva de trabalho.
Para ela, é por meio das negociações que são assegurados direitos que vão muito além dos benefícios assistenciais. “O maior patrimônio que o empregado no comércio tem é a convenção coletiva e os acordos coletivos. Sem isso não haveria nada de benefícios maiores para a categoria, como reajuste salarial, regras de horário e outras garantias”, afirma.
Entidade busca combater desinformação

No seu entender, um dos maiores desafios enfrentados atualmente pelas entidades sindicais não está apenas na negociação com o setor patronal mas também, na necessidade de combater a desinformação em relação ao papel desempenhado pelos sindicatos.
Ela argumenta que parte da sociedade passou a enxergar essas organizações de forma equivocada, resultado de um discurso que enfraquece a representação dos trabalhadores. “Fazem um trabalho muito forte para desacreditar os sindicatos. Dizem que sindicato não trabalha, que dirigente sindical não trabalha, que são todos ‘esquerdistas’. Nós precisamos desmistificar isso. Sem sindicato não existe representação nenhuma para o trabalhador”, afirma.
Segundo Orildes, boa parte dos direitos existentes hoje resulta justamente das negociações conduzidas pelas entidades representativas. “Quem negocia salário, hora extra, horário de trabalho, bônus e benefícios é o sindicato”, ressalta.
Por isso, uma das metas da gestão é ampliar a participação dos trabalhadores e incentivar a sindicalização. “O sindicato tem força para garantir cada vez mais benefícios desde que os trabalhadores apoiem sua entidade. Quanto mais fortalecido estiver a entidade, maior será sua capacidade de negociação”, avalia.
Mais de 14 convenções coletivas
O SEC-BG representa trabalhadores de Bento Gonçalves, Garibaldi, Carlos Barbosa, Veranópolis, Nova Prata, Paraí, Nova Araçá e Nova Bassano, mantendo escritórios regionais para atender parte dessa base territorial. Ao todo, a entidade participa de negociações com mais de 14 sindicatos patronais, responsáveis por diferentes segmentos do comércio.
Mesmo reconhecendo que empregados e empresários possuem interesses distintos durante as negociações, Orildes afirma que o objetivo sempre é construir acordos equilibrados. “Nós defendemos os empregados e os patronais defendem as empresas. Buscamos uma negociação de diálogo, de tranquilidade, para que o empregado esteja valorizado e tenha as melhores condições possíveis de trabalho”, afirma.
Ela também rebate críticas de que os sindicatos seriam excessivamente próximos das entidades patronais. “Nós não nos vendemos para nada. Estamos aqui para representar quem realmente faz o comércio acontecer”, ressalta.
Falta de mão de obra exige debate mais amplo
Ao comentar a dificuldade enfrentada pelas empresas para contratar trabalhadores, Orildes afirma que a discussão não pode ser reduzida apenas à falta de qualificação profissional.
Conforme a dirigente, a escassez de mão de obra resulta de um conjunto de fatores, entre eles jornadas extensas, baixos salários, envelhecimento da população, mudanças no perfil dos trabalhadores e condições oferecidas pelas empresas.
Antes disso, porém, ela lembra que o próprio sindicato investe em capacitação através de parcerias com o Senac e da realização de cursos e eventos voltados à atualização profissional e ao desenvolvimento humano. “Já realizamos diversos treinamentos para qualificar os trabalhadores e abrir mais espaços no mercado de trabalho”, afirma.
Em sua avaliação, apenas oferecer cursos não resolve o problema da escassez de profissionais. “A falta de mão de obra hoje também se dá pela carga horária extensa do comércio, pela baixa remuneração e pela forma como muitos trabalhadores ainda são tratados dentro das empresas”, argumenta.
Ela relata que o sindicato ainda recebe denúncias de estabelecimentos que descumprem regras básicas previstas na convenção coletiva. “Tem empresas que sequer fornecem papel higiênico ou água para os trabalhadores. Isso é espantoso, mas acontece”, afirma.
Para Orildes, a relação entre empregador e empregado também influencia diretamente a permanência das pessoas no mercado de trabalho. “As pessoas não querem mais ser tratadas como peões. Elas querem ser tratadas como seres humanos, ter diálogo com quem gerencia a empresa e participar das decisões que envolvem sua vida laboral”, ressalta.
Sindicato preparado para negociações
Entre as pautas defendidas pelo SEC-BG está a redução da jornada de trabalho sem diminuição salarial. Para Orildes, a discussão sobre o fim da escala 6×1 não é recente e representa uma reivindicação histórica do movimento sindical brasileiro.
Para ela, ter mais tempo para descanso e convivência familiar significa investir também na saúde física e mental dos trabalhadores, além de tornar o mercado de trabalho mais atrativo. “O trabalhador precisa ter tempo para descansar e conviver com a família. Isso é qualidade de vida e também faz bem para a saúde física e mental”, afirma.
A dirigente ressalta que o sindicato já está preparado para orientar empresas que desejem implementar jornadas de cinco dias de trabalho por dois de descanso, mediante negociação coletiva. “O sindicato está preparado para negociar com as empresas que quiserem experimentar uma jornada 5×2. Sabemos como construir as escalas e orientar esse processo”, explica.
Ela também contesta o argumento de que a mudança inviabilizaria o funcionamento das empresas. “Ninguém vai fechar supermercado, hospital, salão de beleza ou loja. O que precisa existir é organização nas escalas e diálogo entre empregados e empregadores”, argumenta.
Segundo Orildes, a adoção do modelo não exige, necessariamente, aumento no número de funcionários. “O funcionamento pode continuar normalmente. Basta organizar as escalas para garantir os dias de descanso sem interromper as atividades da empresa”, afirma.
Ainda assim, ela acredita que a mudança poderá estimular novas contratações. “Tomara que a jornada 5×2 também gere mais empregos. Será um ganho para os trabalhadores e para a sociedade”, ressalta.
“Precisamos discutir alternativas para fortalecer também o comércio presencial”

Outro tema abordado durante a entrevista foi a percepção de aumento do número de lojas fechadas na área central.
Para Orildes, a leitura precisa ser feita com cautela. Ela avalia que parte das empresas têm migrado para bairros populosos ou ampliado a atuação no comércio eletrônico, movimento que acompanha uma tendência nacional. “O e-commerce é um caminho sem volta e precisamos discutir alternativas para fortalecer também o comércio presencial”, afirma.
A presidente observa que muitos empresários deixam a região central principalmente em razão dos altos custos de aluguel. “Você vê uma loja fechada no centro e pensa que ela encerrou as atividades. Muitas vezes ela apenas mudou de endereço, foi para um bairro onde o aluguel é mais acessível”, explica.
Apesar das mudanças, ela não identifica um cenário generalizado de fechamento de empresas. “Não há uma quebradeira de empresas no nosso setor. O que existe é uma migração de endereço e uma reorganização do comércio”, avalia.
Qualificação permanente
O envelhecimento da população e seus impactos no mercado de trabalho também fazem parte das preocupações da dirigente.
Ao comentar iniciativas voltadas à empregabilidade de pessoas com mais de 50 anos, Orildes considera positiva a abertura de vagas para esse público, mas ressalta que apenas disponibilizar oportunidades não é suficiente.
Para a presidente, é preciso investir em qualificação, especialmente diante das transformações tecnológicas ocorridas nos últimos anos. “Não basta abrir vagas para o público 50+. Também é preciso preparar essas pessoas para voltar ao mercado de trabalho, principalmente na área digital”, afirma.
Ela ressalta que muitos profissionais passaram anos afastados do mercado e retornam a um ambiente bastante diferente daquele que conheceram anteriormente. “Hoje grande parte das vendas acontece pelo celular, pelas redes sociais e por ferramentas digitais. Quem ficou muito tempo fora do mercado precisa receber treinamento”, explica. Para Orildes, essa necessidade se estende a todas as faixas etárias. “A qualificação é necessária em todos os setores e para todas as idades”, ressalta.
Relações humanas também influenciam
A presidente chama atenção para mudanças no comportamento dos trabalhadores, especialmente entre os mais jovens. Ela observa que muitos profissionais passaram a valorizar ambientes de trabalho mais respeitosos, nos quais exista diálogo entre gestores e equipes, fator que, segundo ela, influencia diretamente a permanência nas empresas. “Hoje o jovem não aceita mais determinadas situações apenas para permanecer empregado. Se ele tem apoio da família, muitas vezes prefere sair do emprego a conviver diariamente com desrespeito ou falta de reconhecimento”, afirma.
Na visão da dirigente, programas voltados à empregabilidade precisam ir além da criação de vagas, promovendo condições para que trabalhadores de diferentes gerações consigam se adaptar às novas exigências do mercado. “Precisamos discutir o que queremos com esses projetos e qual o suporte será oferecido para que eles realmente beneficiem a sociedade”, conclui.





