Mesmo com reajuste médio de cerca de 15% autorizado, há relatos de cobranças muito acima da porcentagem prevista
Moradores de diferentes regiões do Rio Grande do Sul voltaram a relatar aumentos expressivos nas contas de energia elétrica referentes ao mês de julho. Embora a Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) tenha autorizado um reajuste médio de 14,97% para consumidores residenciais atendidos pela Rio Grande Energia (RGE), clientes afirmam que as faturas chegaram com valores muito superiores ao esperado, sem alteração significativa no padrão de consumo.
Em Bento Gonçalves, o morador Pedro Henrique Lima, que vive sozinho, percebeu um aumento de quase 200% na conta de energia. A fatura passou de R$ 139, em junho, para R$ 389, em julho. “É de se indignar. Eu moro sozinho e praticamente passo o dia inteiro no trabalho. Não faz muita lógica esses valores”, afirma.
Outro morador do município, que preferiu não se identificar, também registrou aumento expressivo. A conta passou de R$ 266, em junho, para R$ 548, em julho.
Os relatos não se restringem à Serra Gaúcha. Em Santa Maria, um estudante universitário afirma ter recebido uma cobrança superior a mil reais. Segundo ele, o apartamento é dividido com outra estudante, ambos passam grande parte do dia fora de casa e o imóvel possui placas solares. “Nunca tivemos uma cobrança parecida”, diz.
Também há relatos de cobranças consideradas incompatíveis com o consumo, ainda que por motivo diferente. Em Uruguaiana, uma moradora recebeu uma fatura de R$ 70, acompanhada de aviso de corte, sem explicar o motivo. Segundo ela, o valor não corresponde ao consumo da residência, que possui dois aparelhos de ar-condicionado e outros eletrodomésticos.
Além dos relatos enviados à reportagem, consumidores também vêm registrando reclamações na plataforma Reclame Aqui. Nos últimos dias, a RGE acumulou manifestações de clientes que afirmam ter recebido contas muito acima da média histórica de consumo e questionam os valores cobrados.
Reajuste da Aneel
O reajuste anual das tarifas da RGE entrou em vigor em 19 de junho, após aprovação da Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel). Para os consumidores residenciais, o aumento médio autorizado foi de 14,97%. Já os clientes de baixa tensão tiveram reajuste médio de 14,93%, enquanto os de alta tensão receberam aumento médio de 19,02%.
A Aneel explica que o índice aprovado considera, entre outros fatores, a recomposição tarifária iniciada após as enchentes de 2024, quando as tarifas foram mantidas sem reajuste para reduzir o impacto financeiro à população gaúcha. A recuperação desses valores vem sendo realizada gradualmente nos processos tarifários seguintes.
Segundo a agência, também influenciaram no reajuste deste ano o aumento dos encargos setoriais, dos custos de transmissão de energia e de componentes financeiros acumulados no último ciclo tarifário.
Procon registra alta
O coordenador de Políticas Públicas do Consumidor do Programa de Proteção e Defesa do Consumidor (Procon) de Bento Gonçalves, Alan de Moura, afirma que o órgão registrou aumento nas reclamações relacionadas às contas de energia elétrica nas últimas semanas.
Nas últimas 12 semanas, entre 11 de maio e 3 de agosto de 2026, foram registradas 36 reclamações contra a RGE, sendo 12 relacionadas ao aumento das contas. No mesmo período do ano passado, foram 16 reclamações contra a concessionária, das quais oito tratavam do aumento das faturas.
Segundo Moura, as principais queixas apresentadas pelos consumidores referem-se ao aumento significativo das contas, sem alteração relevante no consumo. Também aparecem reclamações relacionadas ao não cumprimento de solicitações feitas à concessionária, como desligamento e transferência de titularidade, além de oscilações no fornecimento de energia e corte do serviço sem aviso prévio.
Contestação
O coordenador orienta que, ao receber uma cobrança incompatível com o histórico de consumo, o consumidor procure inicialmente a RGE para solicitar a revisão da fatura e a comprovação do consumo registrado. Também recomenda que seja solicitado o número do protocolo de atendimento, documento que poderá ser utilizado para acompanhar a demanda e, se necessário, registrar reclamação junto ao Procon.
Moura explica que, diante de um aumento expressivo, o consumidor pode verificar se houve efetivamente maior consumo ou eventual fuga de energia, mas ressalta que não é obrigação do consumidor identificar a causa da cobrança. Segundo ele, cabe à concessionária comprovar o consumo e demonstrar que houve aumento na utilização de energia.
Caso a empresa não apresente resposta ou negue o pedido de revisão sem comprovação do consumo, o consumidor deve reunir as faturas e o protocolo de atendimento e procurar o Procon para análise do caso e registro da reclamação.
Em situações que envolvam um número significativo de consumidores na mesma situação, também poderá ser avaliada a adoção de medidas judiciais coletivas pelos órgãos legitimados.
O que diz a RGE
Questionada pela reportagem sobre o aumento no número de reclamações, os casos de consumidores que relatam cobranças muito acima do reajuste autorizado pela Aneel e possíveis alterações na medição ou faturamento, a RGE não respondeu diretamente aos questionamentos. Em nota, a concessionária afirmou que o aumento no valor das contas de energia durante o inverno pode ser influenciado pela combinação de maior consumo nas residências e pelo reajuste tarifário anual aprovado pela Aneel. Segundo a empresa, equipamentos como chuveiro elétrico, aquecedores, secadoras, ar-condicionado e até geladeiras tendem a consumir mais energia nesta época do ano.
A empresa orienta que os consumidores consultem o histórico de consumo disponível na própria fatura para comparar os últimos 12 meses e verificar possíveis variações. A RGE também recomenda medidas para reduzir o consumo, como diminuir o tempo de banho, utilizar eletrodomésticos de forma planejada, optar por equipamentos mais eficientes e aproveitar a iluminação natural sempre que possível.





