MORTES QUE NOS ABALAM
Tem pessoas que não morrem, simplesmente vão embora, deixando sempre a sensação de que estão presentes em nossos gestos, ações e omissões. Essa ausência nós reverenciamos até no empunhar de um telefone porque é para elas que gostaríamos de ligar para falar de nossas questiúnculas da saúde, das angústias, da comunidade, das lideranças que conduzem o bem estar comunitário, da família, para festejar a vida, seja lá para o que for.
ITACYR
Itacyr Giacomello é uma dessas pessoas. Quando fomos buscá-lo para ser colunista do Semanário, ele estava lá no alto do telhado da casa, sim, difícil de imaginar, lá no telhado, não foi preciso nem segurar a longa escada para ele descer, só paciência e angústia; da parte dele só assovios. Quanto à proposta, veio um “tudo bem, vamos lá”, esse era o seu “grito de guerra” quando solicitado para ações comunitárias, para a Igreja Cristo Rei, para a Igreja São Bento, para a Fenavinho, para o CIC, venha de onde vier o pedido de colaboração. Para mim Itacyr era o maior ícone de superação em toda história de SUPERAÇÃO, na verdadeira acepção do termo. Somos até meio parentes, minha avó materna era Giacomello, meu padrinho de batismo é um Giacomello. Depois de “um longo e tenebroso inverno”, que significa relações não cultivadas presencialmente, um dia uma voz ocupou a minha mente e ordenou “vá conviver com o Itacyr”. Então agreguei telefonemas e encontros, jantares no Di Paolo, onde nos embriagávamos com o ambiente romântico da casa e curávamos a ressaca do trabalho, nas conduções dos assuntos comunitários, das famílias, encontros que eram encorpados com a presença de Dolmires Lunardi, o Menin, que sabe tudo sobre Bento, tudo mesmo, tolerando o “até a pé nós iremos”, do Antônio Frizzo. Os encontros eram divertidos e traziam lazer, cultura do espírito e diversão. Itacyr brincava dizendo sempre que trazia uma “carta de alforria” que o autorizava a tomar, na janta, “dois copos de vinho”, mas a autorização não dizia se era dois copos no jantar ou por hora. Então apostávamos na segunda hipótese “dois copos por hora”. Encontros alegres, memoráveis, quando questionado ele respondia: “tecnicamente tudo perfeito”. Apaixonado pela Fenavinho que assim como eu, ele viu nascer, Itacyr de vez em quando vinha com o tema “onde está a urna da Fenavinho” que foi colocada onde “deveria” ser construído o pavilhão da primeira festa, ali onde era o estádio municipal e hoje é pista de atletismo. Vai saber onde foi parar esta urna Itacyr, prometo que vou continuar investigando, a menos que ela tenha sido soterrada pelo suntuoso prédio da nova sede da Câmara Municipal.
ESPIRÍTO DE VEREADOR
Como Vereador eleito Itacyr foi autor de inúmeras proposições e conquistas comunitárias, nas nossas conversas ele deixava transparecer que o espírito de legislador ainda o acompanhava, diante de tanta informação e conhecimento propus a ele um programa de rádio, onde os temas da imigração também estariam presentes, assim falaríamos em “italianês” ou “dialeto” e tínhamos até um nome “RIQUINHO e ITACYRZINHO” pois o programa teria veia humorística. Nossos ensaios eram muito bons. Eu tinha no Itacyr um consultor, do tipo “disque Itacyr para saber”, na dúvida ele consultava os seus arábicos, com base neles participou como co-autor do LIVRO DA FENAVINHO e outras obras culturais, tudo que vinha dele era saber e conhecimento. Quando ele tinha contrariedade sua arma era o “recolhimento”, para a sustentação das boas relações. Assim como eu, ele gostava de vinho, gostava do TITTON, “tecnicamente perfeito PARA O BOLSO e paladar”, dizia. Quando eu perguntava “tomou teu vinho hoje” ele respondia humoristicamente “a FABI (Fabiana Filha) escondeu” e eu falava “está no refrigerador na prateleira do alto, pega a escada e apanha” ou falava “esconde embaixo da cama”.
A DESPEDIDA
Itacyr gostava de forma muito especial da família, seguidamente falava do amor que tinha por ela, da gratidão que tinha pelos filhos e netas. Ao falar sobre a companheira Neide, falecida, brotavam as lágrimas, “me adotou com meus defeitos e virtudes, enfrentou desafios” costumava falar, em nossos encontros. Ele gostava muito dos inúmeros “TOTIS” da casa, do gato de estimação, de seu lar, tinha uma cisma com a velocidade de motos e veículos na rua Olavo Billac, onde morava e eu falava “não te preocupa porque quando liberarem o habite-se de todos os edifícios que te circundam, tu vai reclamar dos carros que não andam e dos buzinaços”. Quando, seguidamente eu transitava pela avenida eu “fiscalizava” a presença do Itacyr, e vislumbrava três cenários: a porta da garagem estava aberta e lá estava o Itacyr sentado e, cercado pelos TOTIS ele via a “banda passar”; ou a porta da garagem estava fechada e lá estava o Itacyr no seu escritório; ou a casa estava toda fechada, com o ITA dando banda. Esses dias ao passar lá vi a garagem fechada, mas, observei um detalhe, “no escritório havia uma luz de abajur acessa” e logo pensei “tem problema ali”, Chegando na empresa liguei, atendeu a neta Brenda, “o vô tá hospitalizado”. Liguei para lá, no que ele atendeu fui logo falando “o que tu tá fazendo aí, dá o fora esse apartamento está em comodato da família Caprara, dá o fora”. Nos dois telefonemas que dei, demos boas risadas, ele não parava de elogiar o Tacchini, a comida, a hospedagem eu contraditava “não te acostuma, dá o fora daí” e “se a comida não tiver boa, mobilizo o Dalla Costa”. “Só estou aguardando a alta do médico, tecnicamente está tudo bem”, ele falou. No meu terceiro telefonema, no apartamento e na residência, silêncio total, sob a “influenza” que me deixou acamado 4 dias, veio a notícia da morte, ele dera alta do Apto para a UTI, foi embora em meio a um tempo triste, os espirros, a tosse, a despedida do amigo à distância, tudo vai virar lembrança e a indagação “como conviver com a ausência desse amigo dileto”? Ele fará parte da história de Bento e da minha história.
DEUS NÃO NOS QUIS
Outro amigo que eu tive, a partir de minha juventude, já falei sobre isso, foi o Beto Valduga, difícil não tê-lo em continuada lembrança. Tivemos um momento juntos, surreal. Um dia eu falei, “Beto, em Montenegro vai ter um KERB (festa popular alemã), nossos amigos estão esperando, vamos?”, “sim, sim, duas horas para ir até lá e como?”, “vamos de avião, sexta de tarde e voltamos domingo”, “tu acha?” ele falou, “vamos, sem problema”, “se tu garante, vamos” E fomos. Pousamos em Montenegro, amigos foram nos apanhar e fomos diretos para o hotel e para o clube, a festança era grande. Passadas umas duas horas, todas as nuvens se transformaram em temporal intenso. Olhei pela janela e bradei “Beto o avião, esquecemos de amarrar, vamos lá”. Pegamos um táxi e fomos, era longe, o avião não estava mais lá, combinamos, eu vou pela esquerda da pista, tu vai pela direita, a tempestade era apenas um detalhe, quando nos encontramos ele falou “não encontrei”, e eu falei “Beto há uma diferença entre procurar e querer encontrar, vamos juntos procurar, ele tá por aí, não voou sozinho, não roubaram”. E encontramos ele bem que procurou voar, mas caiu em meio às vegetações, só se via a cauda! “Temos que trazê-lo de volta e amarrar”, gritei em meio a raios e trovões. E botamos o bicho na lateral da pista e amarramos. Aí fomos para a estrada na espera de carona, não demorou passou um caminhão carregado de tanino, nos deixou na porta do hotel, a dona veio nos socorrer, contamos a história triste, não tínhamos outra roupa para vestir, só a do KERB. Aí ela falou, não tem problema não, tenho caldeira à lenha, vocês vão para o quarto, no máximo uma hora tá tudo limpo “inclusive o que sobrou dos sapatos”, ela brincou, e ficamos os dois peladões na cama a espera das roupas, sem saber que 1 hora em Bento, em Montenegro é 3 horas. Lá pelas 10h da noite, renovadinhos, voltamos ao KERB para espanto da galera que achava que a gente tinha ido embora, “mentes captas”. E foi assim “traz um chope pra nós e, outro chope pra nós”. No dia seguinte, sábado à tarde, no Clube, tinha uma reúna, preparatória da segunda noite do KERB. Eu usava sapato 40 com os dedos recolhidos e fumava cachimbo porque detestava cigarro, alinhado a premissa das meninas que não queriam saber de “pé grande” e de quem não fumasse. Eu tinha um kit de fumos e cachimbos importados. Em determinado momento em meio à galera de uns 16 amigos (as), fiz um “mise -em – scène” (encenação) e dei umas cachimbadas perfumadas. Como em Montenegro as meninas é que tiravam os rapazes para dançar, a Fanny me convidou. Ao chegar no meio da pista eu despenquei; fui acordar no pronto socorro, quanta vergonha eu passei, só voltei à vida no domingo pela manhã, na verdade ao meio dia, dia ainda chuvoso que nos impedia de voar, o que fizemos na segunda de manhã. O retorno à Bento foi pavoroso, fomos de encontro a Deus que não nos quis lá “por ora” disse São Pedro, mas isso eu conto na próxima coluna. Minha coleção de fumos e cachimbos? Joguei fora. Meu sapato nº40? Descartei, passei a usar o 41. E firmei convicção: podem as meninas me chamar de “pé grande”, ou de “bicha” por não fumar, “tô nem aí”. Porque eu desmaiei? Porque eu tragava, não se traga ao fumar cachimbo. Eu lá sabia disso?