O assunto que abordaremos hoje incide sobre todos nós de formas diferentes. Principalmente porque vivemos uma época em que o conhecimento avança com grande velocidade e num ritmo acelerado que muitas vezes nem conseguimos acompanhar. Em 1950 se sabia, por exemplo, que o conhecimento médico levava cinquenta anos para duplicar enquanto em 2020 o conhecimento médico duplica a cada 73 dias.
Nessa mesma linha, nossa sociedade avançou rapidamente em conhecimento, porém tenho minhas dúvidas se em sabedoria (…). Vivemos tempos que avançaram muito na conquista de direitos das mais diversas minorias, o que é muito bom, mas não observamos esta preocupação com os idosos. Parece que ninguém quer se apropriar de seus direitos e lutar por eles e pela discriminação diária que ocorre com o idoso em nossa sociedade. O preconceito pode ir desde não notar a presença do idoso num ambiente, não ter tolerância com a frequente maior demora na solução de situações que envolvam novas tecnologias, para a qual o idoso passou maior parte de sua vida na era analógica, até mesmo pouca paciência no trânsito com manobras e forma mais precavida e cautelosa que os idosos em geral adotam ao dirigir.
Vamos situar uma situação corriqueira: baixar um novo aplicativo de banco, criar senha e palavra-chave, ter e-mail ou celular para receber a confirmação, abrir e inserir código, e depois de tudo isto utilizar o sistema, muitas vezes pouco intuitivo e cheio de janelinhas escritas em texto reduzido e com pouco contraste de cor. Para não falarmos de criar e utilizar a biometria facial, em geral uma corrida de obstáculos.
O ageísmo digital (também chamado de etarismo ou idadismo) ocorre quando a sociedade discrimina, exclui ou subestima pessoas — especialmente idosas — devido à falta de familiaridade com as tecnologias digitais. No Brasil, ele se manifesta através de barreiras de acesso, exclusão em serviços básicos, infantilização e solidão geracional.
O fenômeno ocorre de formas específicas:
- Exclusão em Serviços Essenciais (Institucional): A digitalização obrigatória de serviços bancários, emissão de documentos e agendamentos do SUS dificulta a vida de quem não é “nativo digital”. Muitos idosos enfrentam filas, taxas abusivas em atendimentos presenciais ou perdem a autonomia financeira por não conseguirem navegar em aplicativos complexos.
- Infantilização e Estereótipos (Interpessoal): É comum que pessoas mais jovens tratem a população idosa com condescendência ou impaciência ao ensinar o uso de smartphones e redes sociais. A ideia de que “idoso não aprende” gera exclusão digital e ansiedade tecnológica, muitas vezes levando-os a desistir de usar a internet.
- Falta de Acessibilidade no Design: Sites, aplicativos e formulários raramente são desenhados com a ergonomia necessária para a terceira idade (letras pequenas, cores sem contraste, navegação confusa), limitando severamente a usabilidade.
- Vulnerabilidade a Golpes: Pessoas mais velhas são frequentemente alvo de fraudes e golpes virtuais (como clonagem de WhatsApp e golpes de empréstimo), o que gera medo e aumenta o sentimento de exclusão. Por outro lado, essa exposição alimenta o mito de que são “incapazes” de usar a tecnologia com segurança.
- Preconceito Algorítmico e Cultural: Nas redes sociais, a velhice é frequentemente retratada de forma estereotipada. Os algoritmos também tendem a ignorar essa faixa etária, direcionando menos conteúdo e oportunidades relevantes a quem tem mais idade.
Quais as consequências para o idoso?
1 – Saúde Mental e Emocional: A exclusão e a infantilização geram sentimentos de inutilidade, angústia, isolamento social, solidão e depressão.
2 – Impacto Físico: Estudos apontam que o estresse crônico causado pela discriminação afeta a saúde física e pode acelerar o processo de envelhecimento.
3 – Exclusão Econômica: A falsa ideia de que idosos são “ultrapassados” contribui para a pobreza e para a exclusão do mercado de trabalho, empurrando muitos para a informalidade.
4 – Perda de Autonomia: Há uma tendência de tratar os idosos como incapazes, silenciando suas vontades e violando sua dignidade.
5 – Violência e Abusos: O preconceito abre portas para outras violações graves, como violência psicológica, negligência e abusos financeiros.
O ageísmo no Brasil é considerado um dos preconceitos mais universais e (tristemente) normalizados. Embora não exista um “número de casos” absoluto devido à grande subnotificação, as pesquisas mostram uma percepção avassaladora de sua existência e impacto: - Percepção Social: Pesquisas do Datafolha indicam que 9 em cada 10 brasileiros acreditam que existe discriminação por idade no país.
- Mercado de Trabalho: Quase 4 em cada 10 profissionais brasileiros (41%) já relataram ter sofrido algum tipo de preconceito relacionado à idade ao longo da carreira. Esse índice é superior à média global (36%) e à média da América Latina (35%).
- Prevalência Global: Em um estudo abrangente da Organização Mundial da Saúde (OMS), 6 em cada 10 pessoas com mais de 60 anos relataram ter sido vítimas de ageísmo.
Precisamos muito evoluir e melhorar como sociedade. Não é pena ou compaixão. É a inserção efetiva do idoso na sociedade, sua aceitação e entendimento que não são pessoas diferentes (exceto se com diagnósticos de doenças neurológicas, por exemplo), e sim pessoas que estão vivendo hoje o que possivelmente muitos de nós viverá no futuro, se sobreviver para ficar velho.