Neste ano, a escola celebra 70 anos de trajetória em Bento Gonçalves, marcando não apenas o tempo de sua presença no município, mas também o legado construído com fé, dedicação e amor ao longo de gerações. Uma história que se mantém viva no orgulho e na gratidão de tantas famílias que reconhecem na instituição muito mais do que excelência no ensino: um espaço onde se educa com valores, acolhimento e coração.
Ao longo de sete décadas, a escola acompanhou as transformações da sociedade e da educação, mantendo o compromisso com a formação humana e acadêmica de gerações de estudantes. Mais do que um espaço de ensino, a instituição tornou-se parte da história de muitas famílias do município, construindo vínculos que atravessam o tempo.

Atualmente, o colégio está sob a direção administrativa da Irmã Solange Menegazzo e a direção pedagógica de Giovana Giusti Premaor, que atuam em conjunto com um corpo formado por 136 educadores e colaboradores, além de cinco irmãs. A instituição atende cerca de 1.400 educandos, desde a Educação Infantil até o Ensino Médio, além das atividades de turno complementar, mantendo como foco uma formação integral que une desenvolvimento humano, valores e excelência pedagógica.

História
A trajetória do Colégio Sagrado Coração de Jesus está diretamente ligada ao desenvolvimento de Bento Gonçalves, município reconhecido pela forte influência da imigração italiana e pelo protagonismo na produção vitivinícola nacional. Originada da antiga colônia de Vila Isabel, a cidade consolidou-se ao longo do tempo como um polo econômico e cultural, reunindo atualmente mais de 120 mil habitantes. Conhecida como a Capital Nacional do Vinho, também se destaca pela indústria moveleira e pela preservação de suas tradições.
Foi nesse contexto de crescimento e de demanda por formação educacional que, há 70 anos, teve início a atuação das Irmãs Apóstolas do Sagrado Coração de Jesus no município. A vinda do grupo religioso foi articulada pelo então vigário da Paróquia Cristo Rei, Luiz Rui Lorenzi, com o apoio do bispo diocesano Dom Benedito Zorzi.
As primeiras religiosas, Irmã Angélica Mazzarotto, Irmã Domingas Brotto, Irmã Elizabeth Keller Vedovix e Irmã Irene Placo, chegaram a Bento Gonçalves em 24 de janeiro de 1956. A missão inicial era clara: contribuir com a educação e a formação humana da comunidade local.
As atividades escolares tiveram início em março daquele ano, em um antigo moinho de trigo desativado e adaptado. No local, cerca de 280 educandos passaram a frequentar as primeiras turmas, que iam a partir do Jardim de Infância. As aulas aconteciam de forma improvisada: o andar térreo do antigo moinho abrigava parte dos estudantes, enquanto a sacristia da paróquia era utilizada como espaço complementar para atender à demanda.
A organização da rotina refletia a simplicidade da época. A troca de períodos era sinalizada pelo toque de um sino no corredor. O recreio acontecia na praça da matriz, com a separação entre meninos e meninas, prática comum naquele período. Em dias de chuva, as turmas permaneciam no primeiro piso do prédio, que ainda possuía chão batido. Como forma de preservar a limpeza, era hábito deixar os calçados na entrada e utilizar chinelos dentro da escola.
Com o passar do tempo, o antigo moinho já não conseguia suprir as necessidades crescentes. Diante dessa realidade, em 1961, realizou-se uma reunião com representantes dos setores industrial e comercial do município para discutir a construção de um ginásio em um terreno já adquirido pela mantenedora. Dois anos depois, ocorreu o lançamento da pedra fundamental da nova edificação.
A obra mobilizou a comunidade bento-gonçalvense, que participou ativamente da iniciativa. Entre as ações realizadas, destacou-se a chamada “campanha da uva”, promovida junto aos agricultores para arrecadar recursos e viabilizar a construção. “As próprias famílias aqui do Vale dos Vinhedos, da Cidade Alta e arredores ajudaram a construir esse prédio”, afirma a diretora administrativa da escola.
A inauguração do Ginásio Sagrado Coração de Jesus ocorreu em 8 de dezembro de 1966, em cerimônia solene. A obra foi iniciada pela Irmã Luciana Viçozo e teve continuidade sob a coordenação da Irmã Isabel Nichel.
A expansão da demanda levou a uma ampla reforma em 1988, com o objetivo de qualificar a estrutura física. Anos depois, em 1996, um novo projeto começou a ganhar forma com o lançamento e a bênção da pedra fundamental do Complexo Esportivo Cultural. O espaço foi idealizado para abrigar atividades voltadas ao esporte, à cultura, à pesquisa e à convivência, ampliando as possibilidades de desenvolvimento.
No início dos anos 2000, a instituição deu mais um passo importante ao implantar o Ensino Médio. A primeira turma, formada naquele ano, contou com 45 estudantes matriculados, marcando uma nova etapa na trajetória do colégio.
Em 10 de março de 2011, a instituição passou a integrar o SAGRADO – Rede de Educação, expandindo sua atuação e fortalecendo a proposta pedagógica em conexão com outras unidades no Brasil e na Argentina. A integração consolidou uma rede pautada por valores comuns e pelo compromisso com a formação integral.
Anos mais tarde, em 2020, a instituição enfrentou um dos períodos mais desafiadores de sua trajetória em meio à pandemia de COVID-19. Diante do cenário de incertezas, o colégio adotou rapidamente o modelo de aulas síncronas, utilizando recursos tecnológicos para garantir a continuidade do ensino e manter o vínculo com as famílias. O período foi marcado por intensas adaptações, mas também por estratégias que priorizaram a qualidade do aprendizado.
Com a retomada gradual das atividades presenciais, novos investimentos em estrutura e inovação pedagógica foram implementados. Em 2024, foi inaugurado o Bloco Clélia Merloni, qualificando ainda mais o ambiente educacional. No mesmo período, a Educação Infantil passou por uma reestruturação, com a modernização dos ambientes e o fortalecimento da proposta pedagógica, focada na valorização das interações, do brincar e das experiências práticas.
De acordo com a diretora administrativa, a trajetória da instituição é marcada por um processo contínuo de transformações estruturais e organizacionais. “É um movimento que vem de longa data. A consolidação da rede, por exemplo, começou a se intensificar a partir de 2011, mas antes disso já existiam iniciativas importantes de integração”, explica.
Segundo ela, ainda na década de 1990, setores como contabilidade, recursos humanos, tecnologia da informação e laboratórios de informática passaram por mudanças significativas. “Em 1998, houve a unificação das escolas sob o mesmo nome e identidade. No entanto, naquele momento, as unidades ainda não possuíam autonomia. Então, a partir de 2011, o Centro Integrado de Educação Sagrado Coração (CIESC), não é vendido, ele é transformado em Sagrado Rede de Educação”, destaca.
Princípios
A proposta educacional do Sagrado Rede de Educação prioriza a formação integral do ser humano, compreendendo a educação como um processo para toda a vida. Alinhada aos desafios do mundo contemporâneo e às necessidades da sociedade, a instituição busca estimular competências essenciais para o presente e o futuro, promovendo o desenvolvimento intelectual, humano e espiritual dos educandos. Esses princípios seguem os ensinamentos da Bem-Aventurada Clélia Merloni, fundadora das Apóstolas do Sagrado Coração de Jesus, cuja missão inspira a formação baseada em valores, fé e compromisso com a educação.

Diferenciais
- O Programa Bilíngue, presente em todas as unidades educacionais, acompanha os estudantes desde a Educação Infantil até o Ensino Médio, promovendo um processo de ensino e aprendizagem voltado ao equilíbrio linguístico entre os idiomas. A proposta busca ampliar o desenvolvimento comunicativo, cultural e cognitivo dos educandos, preparando-os para as demandas de um mundo conectado globalmente.
- O Ensino Híbrido integra práticas pedagógicas on-line e off-line, proporcionando um aprendizado mais dinâmico e conectado às necessidades atuais da educação. A metodologia estimula o protagonismo dos educandos, incentivando a autonomia e a participação ativa.
- A Cultura Maker valoriza o aprendizado por meio da prática, permitindo que as turmas desenvolvam conhecimentos teóricos de forma criativa e participativa. Inspirada no conceito “Do It Yourself” (Faça Você Mesmo), a proposta incentiva os educandos a atuarem como sujeitos ativos no processo de aprendizagem, estimulando a inovação e a resolução de problemas.
- A Educação Digital favorece práticas pedagógicas inovadoras que tornam o processo de ensino mais dinâmico, motivador e estimulante. Por meio da tecnologia, as competências digitais são ampliadas, preparando a comunidade estudantil para os desafios sociais contemporâneos.
- O Programa Socioambiental incentiva a conscientização e a construção de hábitos sustentáveis, promovendo uma relação mais responsável com o meio ambiente e a sociedade, despertando nos educandos o compromisso com a preservação do planeta.
A essência do Colégio Sagrado ao longo das sete décadas
A diretora administrativa Irmã Solange afirma que o colégio carrega a missão de educar com o coração, tendo um olhar atento e acolhedor para crianças e adolescentes, semelhante ao cuidado de uma mãe. “São os nossos valores. Um deles é ser presença. Por isso, faço questão de acolher os educandos no portão. Não é um trabalho ou um sacrifício. Faça frio, chuva ou sol, estou sempre ali. Tenho convicção de que a acolhida do Sagrado é uma característica própria da nossa instituição. E isso não acontece apenas comigo, mas também com todos os nossos professores e funcionários”, afirma.
A Irmã Solange ressalta que o aspecto emocional vem antes do educacional, pois uma criança que não se sente recepcionada dificilmente estará aberta ao aprendizado. “Ela aprende melhor quando se sente amada e acolhida no ambiente em que está inserida. Dessa forma, fica mais aberta para aprender, porque uma necessidade básica está sendo atendida. Quando a criança se sente esquecida ou mal acolhida, isso impacta diretamente no seu desenvolvimento. Ela precisa desse cuidado e atenção. E, quando essa necessidade é suprida, consegue se abrir para outras experiências, como a aprendizagem”, relata.
A religiosa frisa que a educação vai muito além da sala de aula e do papel desempenhado pelos professores. Segundo ela, todos os colaboradores contribuem para a formação dos estudantes no dia a dia da instituição. “Não é só o professor que educa. Aquele que limpa o banheiro, que limpa o pátio, que atende o telefone, que cobra o boleto, que faz o registro na secretaria… Todos educam na sua função”, afirma. Ela ressalta que esses valores fazem parte da identidade da escola e da maneira como a comunidade se relaciona. “Cada instituição tem os seus valores. Nós temos como carisma o Coração de Jesus”, completa.
Pais e Escola
A Irmã Solange também ressalta a importância da parceria entre escola e família no processo de formação. Segundo ela, ambas possuem papéis fundamentais e complementares na educação de crianças e adolescentes. “Sempre digo nas reuniões com os pais que precisamos ser parceiros. A escola tem uma função e a família tem a sua, nenhuma substitui a outra. Nós ensinamos e educamos, mas a formação que o pai e a mãe oferecem dentro de casa a escola não consegue dar. Elas se complementam”, afirma.

No ano de 1962, foi fundada a Associação de Pais e Mestres (APM), entidade que desempenhou papel fundamental no fortalecimento da relação entre a escola, as famílias e a comunidade. Ao longo das décadas, diversos presidentes passaram pela associação, contribuindo de forma significativa para o crescimento da instituição e para a construção de uma gestão participativa e colaborativa.
Posteriormente, foi criado o Conselho de Pais e Educadores (CPE), tendo como primeiro presidente Walter Ricardo Moro, que atuou até o final de 2023. Em 2024, a presidência passou a ser exercida por Robison Castro, que segue à frente da entidade atualmente. “A participação foi importante na tomada de decisões juntamente com as irmãs e demais colaboradores. As reuniões sempre iniciavam com um momento de oração e espiritualização. Participar de debates sobre decisões a serem tomadas em forma de conselho permite expor solicitações e sugestões de pais e educandos, além de dar suporte às ações propostas pelo colégio”, menciona Castro.
Adaptações
Ao longo de seus 70 anos de trajetória, o Colégio acompanhou as transformações da educação e da sociedade, mantendo-se atento às novas metodologias, tecnologias e demandas do ensino contemporâneo. Sem abrir mão de seus valores e de sua essência humanizada, a instituição buscou se adaptar às mudanças de cada época, incorporando inovações pedagógicas e ampliando as possibilidades de aprendizagem.
Ao celebrar sete décadas de atuação em Bento Gonçalves, a instituição consolida-se não apenas como uma referência histórica, mas como uma instituição viva, em constante movimento. Entre a preservação dos valores deixados pela Clélia Merloni e a adoção de tecnologias de ponta, o colégio reafirma, a cada novo ano letivo, o seu compromisso de acompanhar as transformações do mundo sem abrir mão da essência. Para a comunidade bento-gonçalvense, o legado de 70 anos é a certeza de que a excelência pedagógica e o afeto caminham juntos, preparando novas gerações de cidadãos prontos para construir o futuro.

