Entre as décadas de 1980, 1990 e início dos anos 2000, um objeto simples fazia parte da rotina escolar de muitas meninas: os cadernos de recordação. Coloridos, personalizados com adesivos, desenhos, recortes de revistas e letras caprichadas, eles circulavam entre colegas de classe como uma forma de registrar amizades, preferências e pequenos segredos da infância e da adolescência. Em cada página, amigas respondiam perguntas sobre gostos pessoais, sonhos, músicas favoritas e deixavam mensagens de carinho, criando um retrato coletivo daquele período da vida. Muito antes das redes sociais, esses cadernos funcionavam como uma espécie de “perfil” compartilhado no papel, preservando memórias afetivas e fortalecendo laços entre colegas de escola.
Para Rosane dos Santos Giacomin, os cadernos de recordação eram, na época, como uma rede social, onde se matava a curiosidade sobre os colegas. “O que a pessoa gostava, o que deixava de gostar, se tinha namoradinho, se não tinha, quem gostava de quem. Era uma fofoca”, recorda.
Veranilce Bublitz, moradora de Getúlio Vargas, lembra que tinha cerca de 13 anos, quando cursava o sexto ano do ensino fundamental, momento em que a prática começou a se espalhar entre as colegas de escola. Segundo ela, tudo começou de forma simples, com recados escritas em cadernos comuns, mas rapidamente virou uma febre entre as meninas. “Eram mensagens em caderno simples mesmo. Todo mundo queria ter um”, relembra.
Veranilce conta que demorou um pouco para aderir à brincadeira, pois tinha certa dificuldade em se enturmar com as colegas. A situação mudou quando uma amiga lhe entregou um caderno para que escrevesse uma mensagem ou até mesmo um pequeno poema. “Foi assim que comecei. Em maio de 1992 escrevi pela primeira vez em um deles”, relembra.
Patrícia Ramon da Rosa recorda que começou a usar a caderneta aos 14 anos. “Lembro que, para iniciar, tinha que pensar em deixar o caderno bem bonito, enfeitado, além de inúmeras perguntas para colocar nele”, salienta.
Rosana destaca que os cadernos de recordação eram mais comuns entre meninas que estavam entrando ou vivendo a adolescência. Segundo ela, a prática costumava acontecer principalmente durante os anos de escola. “A gente tinha entre 10 e 12 anos, chegando até uns 15 ou 16. No máximo 20 anos as pessoas ainda participavam. Depois disso, já se achavam adultas demais para continuar”, explica.
Principais perguntas
As mulheres lembram que, entre as perguntas mais comuns da época, muitas envolviam curiosidades sobre amizades e afinidades entre as colegas. Segundo Rosana, algumas questões buscavam revelar quem gostava ou não de determinada pessoa, o que muitas vezes gerava respostas indiretas. “Às vezes apareciam perguntas para saber quem não gostava de quem. A pessoa não colocava o nome diretamente, mas deixava uma indireta para que a gente entendesse. Não podia escrever coisas de conteúdo pornográfico e também não era permitido falar mal de alguém citando o nome diretamente, como ‘eu não gosto da Maria’, por exemplo”, relata.
Patrícia recorda que em seus cadernos havia perguntas como nome completo, data de nascimento e comida preferida. “Também tinham algumas mais íntimas, que alguns corajosos respondiam, como com quem foi seu primeiro beijo, se estava apaixonado por alguém no momento e aquelas para levantar a autoestima da dona do caderno e das amigas, como qual era a menina mais bonita da escola”, esclarece.
Veranilce menciona que, entre suas amigas, não havia regras para a escrita. “O importante era transmitir uma mensagem, versos, poemas e declarações de carinho. E não podia faltar um desenho, tinha que caprichar no enfeite”, declara.
Rosane lembra que, além das perguntas, o caderno também era utilizado para deixar mensagens, como Veranilce destacou. “Tinha muita declaração de amizade, alguns conselhos. Não tinha muita coisa de religião, mas tinha muito, muito poema”, frisa.
Sentimento
Patrícia menciona que as mensagens que mais a interessavam não eram exatamente as respostas sobre os outros, mas aquelas direcionadas a ela. “Perguntas como ‘o que você acha da minha personalidade’, ‘como sou como amiga’, ‘o que acha da minha aparência’. E o mais legal era na última folha, quando sempre se pedia para deixar uma dedicatória. Então tinha frases de carinho, motivação e às vezes até declaração de amor de algum menino da escola. Lembro da expectativa em pegar o caderno de volta e ler as respostas. A curiosidade era enorme para saber o que escreveram sobre mim”, conta.
Veranilce relembra que a ansiedade era algo notório quando o caderno retornava. “A maior emoção era quando te elogiavam, porque a gente tinha dificuldade de elogiar alguém, pois fomos criados assim”, relata.
Rosana destaca que uma mensagem que a marcou foi a de um garoto por quem era apaixonada na época. “Tem uma ali bem especial que foi do menino de quem eu gostava. Eu não sabia se ele sentia o mesmo por mim, então veio através do recado. Foi bem legal, bem emocionante”, afirma.
Representação
Para Veranilce, os cadernos de recordação não podem ser comparados com as redes sociais atuais. Segundo ela, a forma de demonstrar carinho naquela época tinha um significado diferente. “Não tem a mesma emoção. Naquele tempo era mais difícil receber demonstrações de carinho, e o caderno conseguia transmitir esse afeto”, afirma.
Ela observa que, atualmente, as mensagens se tornaram muito mais frequentes, mas nem sempre despertam o mesmo sentimento. “Hoje em dia recebemos mensagens de bom dia e reflexões todos os dias, mas não causam a mesma emoção. Não sei se é porque envelhecemos ou porque a emoção da adolescência ficou naquele tempo”, reflete.
Patrícia destaca que, na época, os cadernos de recordação também funcionavam como uma forma de autoconhecimento. Para ela, as mensagens e respostas deixadas pelas amigas ajudavam a perceber como era vista pelas pessoas ao seu redor. “Era uma maneira de me enxergar de outro ângulo, porque eu acabava descobrindo como era vista pelas pessoas mais próximas e, principalmente, pelas que eram mais importantes para mim”, enfatiza.
Para ela, os cadernos de recordação podem ser comparados, de certa forma, às redes sociais atuais. Segundo Patrícia, era nesses espaços que as meninas compartilhavam informações sobre seus gostos, sonhos, preferências e paixões. Como todas que respondiam tinham acesso às páginas preenchidas pelas outras, acabavam conhecendo um pouco da vida umas das outras.
Para Rosane, estes materiais também tinham um significado importante de inclusão entre as colegas. Segundo ela, possuir um caderno e participar das trocas de mensagens era uma forma de se sentir parte do grupo. “Quem não tinha ficava meio de fora da turminha. Então era uma maneira da gente se sentir incluída e fazer parte daquele grupo”, ressalta.
Ela destaca que, ao pegar o caderno para reler hoje, muitas lembranças das colegas e das amizades da época voltam à memória. Segundo ela, poucas dessas pessoas ainda fazem parte de sua convivência atualmente. “Na verdade, só tenho contato com uma delas, que é a Nair, minha prima, com quem ainda converso. As outras eu já nem sei que rumo tomaram na vida. Mesmo assim, é muito gostoso olhar eles, porque traz uma sensação bem nostálgica, faz lembrar de como eram aquelas épocas, das amizades e de tudo o que a gente vivia naquele tempo”, finaliza.
Patrícia menciona que conseguiu guardar apenas um caderno dessa fase, o último, de quando tinha 16 anos. “Vem uma nostalgia boa. Vejo como era tão leve o modo de ver a vida. Dá muita saudade dessa época, das amizades que ficaram no passado e dos sonhos que eu tinha. Hoje ele representa um pedaço da minha história que é guardado com carinho mesmo depois de muitos anos”, expõe.
Veranilce afirma que guarda seu caderno com muito carinho, pois nele estão registradas lembranças marcantes de uma fase importante da vida. Segundo ela, com o passar dos anos, o contato com a maioria das pessoas que escreveram no caderno se perdeu, já que cada uma seguiu caminhos diferentes. “Ali estão grandes lembranças. Hoje quase não tenho mais contato com ninguém, cada um seguiu seu caminho e muitos já não estão mais entre nós”, relata.


