A gestora da Vitaseg destaca que, enquanto em 2024 eram registrados apenas dois a três casos por ano, em 2025 esse número saltou para cerca de dois a três casos por mês
O assédio moral no ambiente de trabalho voltou a registrar crescimento expressivo em 2025, apontando para um desafio crescente nas relações laborais no Brasil. Dados do Tribunal Superior do Trabalho (TST) indicam que foram abertos cerca de 142.814 novos processos relacionados ao tema, um aumento de 22,3% em comparação a 2024. As denúncias junto ao Ministério Público do Trabalho (MPT) também subiram significativamente, passando de 14.343 relatos em 2024 para 18.207 em 2025, alta de 26,9%. O cenário evidencia a necessidade de atenção das empresas, profissionais de recursos humanos e trabalhadores para identificar, prevenir e relatar práticas de assédio moral, garantindo ambientes de trabalho mais seguros e respeitosos.
De acordo com Aline Zan, engenheira de Segurança do Trabalho e gestora da Vitaseg, empresa que atua na área de Engenharia e Medicina do Trabalho em Bento Gonçalves e região, houve um aumento significativo nas denúncias de assédio moral em comparação com 2024. Segundo ela, esse crescimento pode ser observado no número de reclamações que chegam à empresa e que incluem o assédio como um dos pontos centrais do processo. “Conseguimos acompanhar pelo aumento no número de reclamatórias trabalhistas que recebemos e que tem na sua inicial a questão do assédio como sendo um dos objetos do processo. Até 2024 não víamos a questão assédio em processos trabalhistas, eram raros. Em torno de dois a três casos no ano todo. Em 2025 esse número aumentou em torno de dois a três casos por mês. Outro indicador são as ligações que recebemos em busca de orientação do que fazer com os relatos de assédios recebidas nos canais das empresas”, pontua.

Canal de denúncias
Outro ponto importante é que, segundo Aline, em 2024 poucas empresas disponibilizavam um canal de manifestações anônimas. “Quando este passou a fazer parte do cotidiano, elas começaram a aparecer. Em 2024 de maneira mais tímida, mas em 2025 de forma mais corriqueira, infelizmente”, destaca.
Quando as empresas possuem canais formais de denúncia, os relatos precisam passar por um processo estruturado de análise. De acordo com ela, a apuração geralmente envolve um comitê interno ou profissionais responsáveis por avaliar a situação e garantir que os fatos sejam investigados de forma adequada. “Em alguns casos, o jurídico da empresa abre processo de análise da situação relatada para verificar a veracidade dos fatos e, posteriormente, dar o andamento cabível a cada situação”, explica a gestora.
Queixas mais recorrentes
A gestora menciona que o relato predominante é a falta de respeito por parte da chefia. “Na sua maioria, trata-se do uso de palavras pejorativas para cobrar resultados, apelidos que degradam a imagem do funcionário e exposição ao ridículo diante de outros colaboradores”, afirma.
Segundo ela, não há uma função específica em que as denúncias de assédio moral sejam mais recorrentes. No entanto, observa que os casos aparecem com maior frequência entre trabalhadores que atuam diretamente na operação das empresas. “Vimos surgir alguns em áreas gerenciais, mas nada expressivo, ainda”, menciona.
Segundo ela, muitas dessas situações estão relacionadas a falhas de comunicação ou à forma como as cobranças são realizadas no ambiente de trabalho. “No meu ponto de vista ocorre por conta de falha de comunicação, tato no momento de fazer cobranças. Por outro lado, não podemos deixar de ter uma análise crítica também acerca dessas denúncias, pois já temos casos em que, ao abrir investigação, as mesmas não foram comprovadas, o que acende um alerta de até que ponto todas são reais. Com a facilidade de acesso a conteúdos, alguns casos são de funcionários que se aproveitam de determinadas situações para criar a situação assediadora”, relata.
Recomendações
Ela orienta que treinem as lideranças quanto a relações pessoais, forma de liderar e comunicação, para que sejam mais assertivas ao cobrar metas, produtividade e fazer os alinhamentos necessários com suas equipes. “É importante que as pessoas sejam tratadas com respeito, mas que também respeitem as regras da empresa. Treinar as pessoas para lidarem melhor com suas emoções e assim ter posturas e comportamentos mais assertivos nos ambientes de trabalho. Treinem os funcionários sobre o que é, e o que não é assédio também, vejo que falta discernimento sobre este assunto entre as pessoas”, destaca Aline.
Ela frisa que ainda há poucos dados consolidados sobre os impactos do assédio moral na saúde ocupacional, principalmente porque muitos casos acabam sendo discutidos apenas na Justiça do Trabalho, quando o profissional já não está mais inserido no ambiente considerado assediador.
Psicológico
Embora os dados apontem para o crescimento das denúncias e processos relacionados ao assédio moral, compreender o fenômeno vai além das estatísticas. Especialistas destacam que é fundamental entender como esse tipo de violência se manifesta no ambiente de trabalho, quais comportamentos caracterizam o assédio e de que forma essas situações impactam a saúde mental e emocional dos trabalhadores. Nesse contexto, profissionais da psicologia reforçam a importância de ampliar o debate sobre o tema, esclarecendo conceitos, identificando os diferentes tipos de violência psicológica e analisando os efeitos que essas práticas podem causar no bem-estar e na qualidade de vida das vítimas.
De acordo com a psicóloga Fernanda Krüger, esta conduta é caracterizada por ações repetitivas que expõem a pessoa a situações de humilhação, constrangimento ou desvalorização. “Diferente de um episódio isolado, trata-se de um padrão de comportamento que cria um ambiente hostil e prejudicial à saúde mental da vítima. Entre os exemplos mais comuns estão críticas constantes e desproporcionais, exposição ao ridículo, isolamento, retirada injustificada de tarefas, boatos ou tratamento desrespeitoso”, explica.
Sinais
A psicóloga menciona que nem sempre o assédio acontece de forma explícita. “Muitas vezes aparece em pequenas atitudes repetidas ao longo do tempo, como críticas constantes, exclusão de reuniões ou informações importantes, sobrecarga ou retirada de funções sem explicação e comentários irônicos ou depreciativos. Um sinal importante é quando essas situações passam a acontecer de forma frequente e direcionada sempre à mesma pessoa”, salienta.
Ela ressalta que é importante observar os sinais, sendo preciso diferenciar as divergências pontuais do assédio moral. “Conflitos fazem parte das relações de trabalho e, em geral, são situações mais pontuais e equilibradas, nas quais as divergências podem surgir de ambos os lados. Já a conduta abusiva envolve uma relação mais assimétrica, em que comportamentos de desqualificação, constrangimento ou humilhação partem repetidamente de uma mesma pessoa ou grupo em direção a um indivíduo específico. Além disso, o assédio se caracteriza pela repetição e persistência ao longo do tempo, criando um ambiente hostil para a vítima”, explica.
Ela menciona que o assédio não afeta apenas o ambiente de trabalho, mas também a saúde mental do profissional. Entre os impactos estão:
- Ansiedade;
- Estresse crônico;
- Sensação de humilhação;
- Insegurança;
- Perda de confiança nas próprias capacidades;
- Sintomas depressivos;
- Insônia;
- Dificuldade de concentração;
- Síndrome de burnout.
Ela explica que, quando uma pessoa é constantemente desvalorizada ou exposta a situações de constrangimento, sua autoestima tende a ser afetada. “Aos poucos, ela pode começar a duvidar de suas próprias competências. Isso impacta diretamente a saúde mental e também a produtividade, pois o ambiente de trabalho passa a ser associado a medo, tensão e insegurança”, menciona.

Problema em reconhecer a denúncia
Fernanda destaca que isso acontece por diversos fatores. “Muitas vezes o assédio começa de forma sutil e gradual, o que dificulta que a própria vítima reconheça a situação como uma forma de violência. Com o tempo, a pessoa pode passar a duvidar de si mesma, minimizar o que está acontecendo ou acreditar que o problema está em seu próprio desempenho. Além disso, em muitos ambientes de trabalho existe uma cultura organizacional mais hierárquica, em que se espera que o funcionário simplesmente acate as orientações e decisões de quem ocupa posições superiores”, observa.
Como resultado, comportamentos abusivos podem ser frequentemente interpretados como atitudes comuns do dia a dia. “Essa dinâmica também contribui para que muitas pessoas demorem a perceber que estão vivenciando uma situação de assédio moral e violência psicológica”, relata.
Orientação
A psicóloga afirma que o primeiro passo é reconhecer que esses abusos estão acontecendo e não devem ser naturalizados. “Também é importante registrar as situações vividas, anotando datas, episódios e possíveis testemunhas, buscar apoio, seja dentro da própria instituição ou fora dela. Conversar com pessoas de confiança, contar os fatos, ouvir os pontos de vista já é um momento importante para entender que o que está acontecendo é sério e real. Após, procurar orientação psicológica e/ou jurídica pode ajudar a lidar com a situação de forma mais segura”, recomenda Fernanda.
Além disso, ela destaca que a psicoterapia é importante nestes episódios. “Ela oferece um espaço seguro para que a pessoa possa elaborar o que está vivendo, compreender os impactos emocionais da situação e fortalecer recursos para lidar com o problema. Também contribui para reconstruir a autoestima e reduzir os efeitos do estresse gerado pelo assédio”, observa.
Fernanda finaliza destacando a importância de abordar o tema. “É fundamental conscientizar trabalhadores e líderes sobre comportamentos inaceitáveis. Quando o tema é discutido abertamente, os colaboradores passam a reconhecer mais facilmente situações de assédio e a buscar ajuda adequada. Além disso, incentivar a denúncia fortalece a construção de ambientes de trabalho mais respeitosos, seguros e saudáveis para todos”, conclui.
Canais de denúncia
- Canal de Denúncias do Ministério do Trabalho: para queixas trabalhistas online;
• Fala.br: plataforma de ouvidoria da Controladoria-Geral da União; - Central Alô Trabalho (158) – ligação gratuita de telefone fixo; atendimento de segunda a sábado, das 7h às 22h;
- Ministério Público do Trabalho (MPT) – canal específico para notificações de assédio moral;
- Disque 100 – serviço gratuito 24h para denúncias de violações de direitos humanos, incluindo assédio moral.