Durante a 11ª edição do Meeting da Construção, especialistas analisam os reflexos do cenário pós-eleitoral, os desafios da economia brasileira e a necessidade de cautela nos investimentos
O cenário de instabilidade política e econômica do Brasil, associado às elevadas taxas de juros, ao endividamento das famílias e às mudanças previstas com a reforma tributária, exige atenção dos empresários da construção civil na definição de novos investimentos. Apesar das incertezas, o setor mantém perspectivas positivas em Bento Gonçalves e região, onde o desempenho registrado em 2026 e a quantidade de projetos em desenvolvimento sustentam a expectativa de continuidade do crescimento no próximo ano. O contraste entre os desafios nacionais e o otimismo regional esteve entre os principais assuntos da 11ª edição do Meeting da Construção Civil, promovida pela Associação das Empresas de Construção Civil da Região dos Vinhedos (ASCON Vinhedos), nesta sexta-feira, 6 de novembro, no Centro Empresarial de Bento Gonçalves.
O encontro reuniu empresários, lideranças e profissionais para discutir os desdobramentos das eleições e seus possíveis impactos sobre a economia, o mercado imobiliário e as decisões empresariais. A programação contou com a participação do economista Tiago Jung Dias, do presidente do Conselho Consultivo da Câmara Brasileira da Indústria da Construção (CBIC), José Carlos Martins, e do professor e especialista em geopolítica Danuzio Neto. Embora tenham apresentado diferentes perspectivas sobre os próximos anos, os palestrantes destacaram a importância do planejamento estratégico, da segurança financeira e da capacidade de adaptação das empresas diante das transformações econômicas e institucionais.
Para o presidente da ASCON Vinhedos, Diogo Giacomello, que está à frente da entidade no ano em que ela completa três décadas de atuação, a construção civil regional apresenta resultados favoráveis. Conforme os indicadores do censo realizado pela associação e as informações compartilhadas pelas empresas associadas, 2026 foi um ano positivo para o setor, enquanto o volume de empreendimentos em desenvolvimento permite projetar a manutenção desse desempenho em 2027.
Mesmo reconhecendo os desafios que poderão influenciar a atividade, Giacomello considera que o empreendedorismo e a continuidade dos negócios serão fundamentais para preservar o dinamismo econômico da região. “Independentemente da política, de quem ganha ou perde as eleições, quem precisa fazer acontecer é o empresário. No fim das contas, são as empresas que movimentam a economia, e não podemos parar”, destaca.
A importância do debate também se refletiu na participação do público. Segundo o presidente, esta foi a maior edição do Meeting já realizada, resultado que atribui à escolha dos temas e ao interesse dos empresários em compreender os possíveis desdobramentos do período pós-eleitoral. Planejado ainda no início do ano, o encontro buscou reunir diferentes análises capazes de contribuir para o planejamento das empresas e para a identificação de oportunidades nos próximos anos.
Instabilidade econômica e juros elevados

Entre os principais obstáculos enfrentados pela construção civil está a dificuldade de conciliar o planejamento de longo prazo dos empreendimentos com as constantes mudanças no ambiente político e econômico brasileiro. Conforme o economista Tiago Jung Dias, que atua há mais de duas décadas na análise do mercado imobiliário, a instabilidade jurídica, governamental e política tem ampliado as dúvidas dos investidores, especialmente em um setor no qual a aquisição de terrenos pode anteceder em até 15 anos o lançamento de um empreendimento.
Para Dias, a ausência de uma estratégia nacional de desenvolvimento de longo prazo contribui para ampliar essas dificuldades. “Estamos sempre planejando a longo prazo, enquanto os governos trabalham com perspectivas de curto prazo. Na realidade, temos mais planos de governo do que propriamente um plano de nação”, observa.
Na avaliação do economista, um dos principais entraves para a retomada dos investimentos está relacionado ao desequilíbrio das contas públicas. Ele defende a realização de um ajuste fiscal capaz de reduzir o déficit do governo federal e criar condições para a diminuição das taxas de juros, que permanecem elevadas e restringem tanto os investimentos empresariais quanto o acesso da população ao crédito imobiliário. Entretanto, considera que o retorno dos juros a patamares inferiores a 10% ao ano poderá levar mais de dois anos.
Outro fator de preocupação é o elevado endividamento das famílias. Conforme o especialista, mesmo uma eventual redução dos juros poderá não produzir os mesmos efeitos observados em períodos anteriores, quando o crédito mais barato estimulava rapidamente o consumo e a aquisição de imóveis. Atualmente, as dificuldades financeiras enfrentadas por parte dos consumidores limitam a capacidade de assumir novos financiamentos, tornando a recuperação do mercado mais complexa.
Esse cenário também começa a provocar mudanças nas oportunidades de negócios da construção civil. Uma das tendências identificadas por Dias é o crescimento do mercado de imóveis destinados à locação, diante das dificuldades enfrentadas por famílias que não conseguem acessar o financiamento para a compra da casa própria. Ao mesmo tempo, empreendimentos vinculados ao programa Minha Casa, Minha Vida continuam apresentando demanda, especialmente em razão dos subsídios oferecidos aos compradores, apesar da desaceleração nas vendas registrada no final do ano.
Diante dessas perspectivas, o economista projeta um período de maior turbulência que poderá se estender por um ou dois anos, até que seja possível identificar um novo ciclo de crescimento. Por isso, recomenda rigor na administração financeira das empresas, estudos aprofundados de mercado e avaliação criteriosa dos riscos, sem abandonar o planejamento de novos negócios. “O momento de pensar em como investir é agora. Evidentemente, está muito mais difícil, e os estudos precisam ser mais aprofundados, mas os resultados futuros também podem ser muito positivos”, ressalta.
Reforma tributária e decisões políticas exigem cautela

As transformações previstas para os próximos anos também estiveram entre os assuntos abordados pelo presidente do Conselho Consultivo da CBIC, José Carlos Martins. Com cinco décadas de experiência na construção civil, o especialista avalia que o Brasil atravessa um período que exige prudência, principalmente em razão do desequilíbrio das contas públicas, das elevadas taxas de juros e das indefinições políticas que ainda poderão influenciar o ambiente econômico.
Diferentemente de Dias, que defende a continuidade do planejamento de novos investimentos, Martins recomenda aguardar maior clareza sobre os rumos políticos e econômicos antes de tomar decisões que possam ser diretamente afetadas por mudanças futuras. Na avaliação dele, os primeiros meses de 2027 serão determinantes para compreender o equilíbrio de forças no Congresso Nacional, especialmente após a escolha dos presidentes da Câmara dos Deputados e do Senado Federal.
O especialista considera que, a partir do Carnaval, os empresários poderão contar com informações mais concretas para orientar determinadas decisões. “Entendo que 2027 não será um ano fácil, independentemente do que aconteça, porque o Brasil entrou em um grande desequilíbrio das contas públicas e precisará de ajustes”, afirma.
Uma das preocupações está relacionada aos efeitos de uma eventual desaceleração econômica sobre a capacidade de compra dos consumidores. Como os empreendimentos imobiliários exigem investimentos elevados e apresentam ciclos prolongados de execução e comercialização, alterações na renda das famílias ou nas condições de crédito podem comprometer a velocidade de vendas inicialmente projetada pelas incorporadoras.
Outro desafio destacado por Martins é a reforma tributária, que deverá provocar transformações significativas na forma de atuação das empresas. Embora reconheça a complexidade das mudanças, o representante da CBIC considera fundamental que os empresários busquem informações qualificadas para compreender os impactos da nova legislação, evitando decisões baseadas exclusivamente em receios ou interpretações equivocadas.
As alterações tributárias ocorrem em um momento no qual a própria atividade da construção civil passa por transformações tecnológicas, incluindo a ampliação do uso da inteligência artificial e de novas ferramentas de gestão. Para Martins, a combinação desses fatores exigirá atualização profissional e capacidade de adaptação, inclusive entre empresários com longa experiência no mercado. “Tenho 50 anos de atuação na construção civil e já entendi que precisarei reaprender a fazer aquilo que aprendi há cinco décadas, porque o mundo mudou completamente”, enfatiza.
Apesar das dificuldades atuais, o especialista recorda que o setor já enfrentou períodos de instabilidade econômica e política de grandes proporções. Entre os exemplos, menciona o governo de Fernando Collor, marcado pelo bloqueio de recursos financeiros da população, e a crise de 2016, durante o governo de Dilma Rousseff, quando, segundo ele, o número de trabalhadores da construção civil caiu de aproximadamente três milhões para dois milhões.
Cenário político e institucional influencia confiança empresarial
Além dos fatores econômicos, a segurança institucional e os desdobramentos das eleições foram apontados como elementos importantes para as decisões empresariais. O professor e especialista em geopolítica Danuzio Neto avalia que o Brasil poderá enfrentar a continuidade das tensões políticas ao longo de 2027, mesmo com a renovação do Congresso Nacional.
Na análise do especialista, a composição das bancadas eleitas demonstra o fortalecimento de representantes identificados com pautas favoráveis ao mercado. Entretanto, ele considera que o resultado eleitoral, isoladamente, não garante maior estabilidade institucional ou a implementação de medidas voltadas ao ambiente de negócios.
Neto também manifesta preocupação com possíveis conflitos entre os poderes da República e seus efeitos sobre a confiança dos investidores. Para ilustrar os riscos que identifica, cita acontecimentos políticos registrados em outros países da América do Sul, especialmente a Venezuela, onde a oposição conquistou uma ampla representação parlamentar em 2015, mas posteriormente teve sua capacidade de atuação esvaziada por mudanças institucionais promovidas pelo governo de Nicolás Maduro.
O professor utiliza esse exemplo para defender a importância do acompanhamento das relações entre Executivo, Legislativo e Judiciário no Brasil. Em sua avaliação, a previsibilidade das instituições é uma condição relevante para empresários que precisam assumir compromissos financeiros, contratar trabalhadores e realizar investimentos de longo prazo.
A demora na resolução de controvérsias institucionais e investigações envolvendo autoridades também é apontada por Neto como um fator que pode comprometer a confiança no ambiente econômico. Entre os exemplos mencionados pelo especialista está o caso do Banco Master, que, segundo sua avaliação, evidencia dificuldades na condução de questões de grande repercussão nacional. Ele também estabelece comparações com episódios políticos e financeiros ocorridos em outros países sul-americanos, argumentando que a falta de respostas rápidas pode prolongar a insegurança entre os agentes econômicos. “A situação fica particularmente difícil para o empresário, porque ele precisa de segurança para realizar investimentos e contratar trabalhadores. No entanto, seguimos postergando a solução desses problemas”, analisa.
Apesar de projetar a continuidade das tensões institucionais por pelo menos mais um ano, Neto identifica uma transformação gradual nas discussões políticas brasileiras. Segundo ele, propostas relacionadas à liberdade econômica, à redução de restrições ao empreendedorismo e à ampliação das oportunidades de investimento ganharam espaço nas últimas eleições, consolidando uma tendência que considera relevante para os próximos anos.
Na perspectiva do professor, essa mudança poderá contribuir para um ambiente regulatório mais favorável à atividade empresarial, com regras menos restritivas e maior estímulo à circulação de recursos. Contudo, a concretização dessas expectativas dependerá dos desdobramentos políticos e da capacidade das instituições de oferecer segurança aos investidores.
Região aposta na continuidade dos investimentos
Enquanto as análises nacionais apontam para um período de ajustes e possíveis dificuldades econômicas, a construção civil de Bento Gonçalves e região mantém expectativas favoráveis para 2027. Conforme o presidente da ASCON Vinhedos, Diogo Giacomello, os resultados observados neste ano e a quantidade de projetos em desenvolvimento demonstram a disposição das empresas de continuar investindo, mesmo diante das incertezas.
A avaliação da entidade é de que o setor poderá manter um desempenho semelhante ao registrado em 2026, desde que as empresas preservem a capacidade de adaptação e acompanhem as mudanças econômicas que poderão influenciar os negócios. Para Giacomello, a construção civil precisa continuar exercendo seu papel no desenvolvimento regional, com responsabilidade na condução dos empreendimentos e atenção às oportunidades de mercado.
A realização do Meeting também reforça essa preocupação com a qualificação das decisões estratégicas. Nesta edição, a ASCON adotou um novo formato, com programação concentrada durante a manhã e valores de participação reduzidos, buscando facilitar o acesso de gestores e profissionais das empresas associadas às discussões. A iniciativa permitiu ampliar o alcance do encontro, que registrou a maior participação de sua história.



