Lembro com saudade da minha avó materna sentada na área, fazendo crochê. Saia longa, blusa de malha, cabelos curtos e lisos, óculos de grau. Cumprimentava cada vizinha que passava, enquanto da cozinha saía aquela fumaça com cheiro de comida boa. Parecia fazer parte da paisagem, como se fosse ficar ali para sempre.
Quando partiu, a casa mudou. Meu avô já não abria tanto as janelas, nem se sentava na área. Faltava o cheiro do almoço. Anos depois, quando ele também se foi, as janelas se fecharam de vez. A cadeira foi guardada, as escadas deixaram de ser polidas. Vinte anos depois, a casa continua lá, verde, na esquina do Licorsul, onde o “munheiro” morava. Um marco do bairro, agora silencioso.
Na casa dos meus avós paternos, a despedida aconteceu aos poucos. Minha avó morreu há cerca de quinze anos, perto dos noventa. Era o pilar daquele lar, mas a casa permaneceu viva. Meu avô partiu há cinco anos, mas meus tios ainda mantinham seu movimento.
Há quatro anos, foi meu tio. Calou-se a motosserra. Nunca mais vi o Chevette cinza descendo devagar a estrada de chão para pescar no açude do meu pai, tampouco senti ainda o forte cheiro do Derby vermelho.
Há três anos, perdi meu pai. Nossa área também silenciou. Era ele quem colocava moda de viola bem alto, fazia churrasco toda semana e tomava chimarrão à beira da rua só para conversar com quem passasse. Ligava o motor da D-10 como quem anunciava que o dia já havia raiado. Com ele, partiu uma parte da sonoridade da nossa vida.
Há dois anos, partiu meu dindo. O barulho da furadeira, os consertos, as implicâncias carinhosas chamando “Suele, porquinha”, as risadas e as conversas pela cerca desapareceram. Até o jardim da casa em frente pareceu perder um pouco a vida.
Há cinco meses, minha tia também partiu deste plano e ganhou sua morada no céu. Sim, porque era tão especial que certamente já está lá. Com ela, a casa dos avós se fechou de vez. Sem sabermos, houve uma última tarde naquela área. A churrasqueira apagou. A fumaça do cigarro e do fogão a lenha deixou de subir. A cadeira foi recolhida. A casa que transbordava gente e graça ficou quieta.
É isso que a morte também leva: não apenas uma pessoa, mas o mundo que existia ao redor dela. Uma janela aberta, um cheiro na cozinha, um motor cedo, uma buzina, uma voz do outro lado da cerca. Não sentimos saudade apenas de alguém. Sentimos saudade de como era a vida quando estávamos juntos.
O tempo é injusto. Leva pessoas e, com elas, lugares que nunca mais serão os mesmos.
Nesta semana fui visitá-los no cemitério e rezar por todos. Meu peito ainda sangra de saudade. Dói saber que já não podemos nos encontrar. Mas, enquanto eu viver, aquelas áreas não estarão completamente vazias. Dentro de mim, a janela continua aberta, a fumaça sobe, a D-10 desperta a manhã e o crochê está quase pronto.
Talvez envelhecer seja também isso: aprender a conviver com as cadeiras vazias, enquanto guardamos dentro de nós as pessoas que um dia as ocuparam.
Quando passo diante dessas casas, percebo que não são apenas as áreas que vão ficando vazias. É um pedaço da nossa história que vai silenciando. Mas o que vivemos com quem amamos nunca desaparece por inteiro. As casas podem ficar em silêncio. O amor pelas pessoas, não.




