O contraste entre o movimento diário de jovens atletas e o silêncio de uma estrutura que deteriora com o tempo dita a rotina do Estádio da Montanha, no coração de Bento Gonçalves. Enquanto o gramado respira com os treinos diários das categorias de base do Esportivo e as disputas de jogos oficiais e treinos do Farrapos Rugby Clube, as arquibancadas, os vestiários e as cabines de imprensa sofrem com o abandono físico, transformando o outrora imponente caldeirão em um monumento ao esquecimento de sua glória
Enquanto as arquibancadas de concreto e as antigas cabines sofrem com o visível abandono estrutural do tempo, o gramado resiste impecável sob as traves, transformado em um solo sagrado que ferve diariamente com centenas de crianças das categorias de base do Clube Esportivo e jogos de nível nacional do Farrapos Rugby Clube, além dos treinos da equipe.

Quem passa pelos arredores da Avenida Oswaldo Aranha logo percebe que o glorioso Estádio da Montanha se recusa a virar um fantasma de concreto. O coração do complexo é o seu gramado, considerado hoje um dos melhores tapetes verdes do rugby brasileiro. A ocupação ali é intensa, cobrindo praticamente os três turnos do dia, de fevereiro a dezembro. Nas tardes durante a semana, o campo ganha a energia e os gritos da base alviazul.
O Clube Esportivo utiliza o espaço diariamente para moldar o futuro do futebol regional, reunindo atletas das categorias Sub-11, Sub-12, Sub-13, Sub-14 e Sub-15.
Segundo o 1º vice-presidente do Esportivo, Daniel Amadio, o clube utiliza o Estádio Montanha dos Vinhedos para jogos oficiais, mas enfrenta escassez de gramados para a rotina diária de preparação física e técnica. Como alternativa essencial, a diretoria recorre ao empréstimo e cedência de espaços municipais, destacando o antigo Estádio da Montanha, patrimônio histórico repassado à Prefeitura, como um pilar estratégico temporário por sua localização centralizada, facilidade de acesso e qualidade do gramado. “Precisamos de campos suplementares para acomodar toda a gurizada dentro do nosso complexo esportivo, mas, enquanto não temos essa estrutura, o Campo Velho da Montanha é vital para que o trabalho com a base não reduza e possamos formar novos talentos profissionais”, explicou o dirigente.
De acordo com o diretor da Base do Esportivo, Leonardo Prezzi, o plano atual é expandir as atividades também para o período da manhã, enfrentando apenas os desafios do clima da região. “Nós utilizamos o estádio todas as tardes e estamos com um projeto de utilizar as manhãs também. Porém, com o frio da nossa região, os pequenos não têm condições de treinar no molhado”, explica.
Quando a noite cai, os refletores se acendem e ocorrem os treinos de rugby na Montanha
Segundo o presidente do Farrapos Rugby Clube, Daian Zonatto, a equipe adotou o local como sua fortaleza há 16 anos e realiza treinos intensos em duas noites por semana e manda seus jogos oficiais na elite do esporte, disputando simultaneamente o Campeonato Brasileiro de Rugby Union (Super 12), o Gaúcho de Rugby Union, o Gaúcho de Rugby Sevens e o Gaúcho Juvenil Masculino.

Transformação social
A vida que brota do gramado vai muito além do esporte de alto rendimento. O espaço cumpre uma função social indispensável para Bento Gonçalves.

De acordo com o presidente Zonatto, o Farrapos atende mais de 500 crianças de escolas da rede pública e de centros de convivência geridos pela prefeitura, levando os jovens para dentro do campo em uma rotina repleta de cidadania, inclusão e eventos esportivos integradores. Sabendo do valor desse ecossistema vivo, os próprios clubes e parceiros locais decidiram tomar a frente da zeladoria, cansados de esperar por outras soluções. Em uma mobilização independente, o Farrapos costurou parcerias privadas para revitalizar o entorno do campo de jogo.

Na visão de quem respira a rotina da Oswaldo Aranha, o Estádio da Montanha não carece de uma nova vocação comercial. O clamor da comunidade esportiva é por um olhar institucional que valorize o lugar, onde é urgente uma revitalização capaz de sanar os riscos estruturais e oferecer vestiários e arquibancadas dignos, blindando a memória esportiva de Bento Gonçalves. Só assim será possível assegurar que as futuras gerações do futebol alviazul e os atletas do rugby continuem correndo protegidos pelo gramado que se recusa a morrer no coração da Serra.
Arquibancadas em ruínas: sob o peso de rachaduras e do mofo
Enquanto atletas do rugby e do futebol de base dão vida ao gramado, estruturas do glorioso caldeirão do Esportivo sofrem com mofo, vestiários destruídos e casamatas abandonadas. O contraste levanta o debate sobre o que fazer com o icônico patrimônio, cujos vestiários, escritórios, banheiros e o bar estão destruídos, ao passo que o município alega que o local é seguro e aguarda a liberação de recursos financeiros para tirar o plano de reforma do papel

Quem olha para o gramado do antigo Estádio da Montanha enxerga o vigor de um dos maiores polos esportivos da Serra, hoje pulsando com os treinos das categorias de base do futebol e com os jogos do Farrapos Rugby. O cenário muda drasticamente, porém, ao se olhar para cima, esquecidas pelo tempo, as históricas arquibancadas de concreto acumulam rachaduras profundas, falhas na estrutura das paredes e infiltrações crônicas que espalham mofo e escancaram o abandono.
O Raio-X do abandono sob o concreto
Para além das quatro linhas que resistem graças ao uso comunitário, o panorama interno da Montanha é de severa degradação. Por baixo da estrutura onde a torcida alviazul comemorou títulos históricos, o cenário atual é de ruína. As paredes exibem fissuras largas e danos estruturais visíveis. A água das chuvas, sem escoamento adequado, gerou infiltrações que comprometem a alvenaria e geram mofo generalizado. No plano do solo, o antigo bar do estádio e os banheiros públicos estão vandalizados e em total abandono. Os vestiários, fundamentais para os atletas que ainda utilizam o campo, encontram-se inutilizáveis, com fiação exposta, enquanto as casamatas à beira do gramado acumulam sujeira e o desgaste do tempo.

Vistoria garante o uso
Procurado para responder sobre o destino e as condições da praça esportiva, o Secretário de Esportes e Desenvolvimento Social (Sedes) de Bento Gonçalves, Eduardo Virissimo, rebateu a constatação de ociosidade, uma vez que só o gramado é usado, e garantiu que a comunidade pode continuar frequentando o espaço com segurança.
Segundo o secretário, uma vistoria realizada recentemente pelo Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano (IPURB) e pelo Corpo de Bombeiros atestou que a estrutura não apresenta riscos imediatos de colapso aos usuários do estádio ou de suas dependências.

Virissimo acha que o complexo segue ativo, sediando atividades regulares de entidades ‘culturais’, esportivas e eventos gerais da comunidade.
Por se tratar de um espaço público, a prefeitura reforça que qualquer entidade legalmente constituída pode utilizar o campo, desde que haja disponibilidade de horário e que os protocolos de agendamento sejam respeitados.
O plano está pronto, a verba não
O município afirma que o diagnóstico já foi feito. A Sedes elaborou um mapeamento completo de todas as reformas estruturais necessárias nas arquibancadas, banheiros e vestiários, com o objetivo de restabelecer o conforto, a higiene e a dignidade no atendimento aos atletas e ao público.
O plano para o futuro do estádio, contudo, esbarra no orçamento. A secretaria confirmou que o projeto técnico de revitalização está pronto, mas a execução das obras depende da disponibilidade de recursos financeiros no caixa do município. Enquanto a verba para a reforma não é liberada, o Estádio da Montanha sobrevive em um ciclo de resistência: uma arena viva no coração do gramado, mas que agoniza e pede socorro em suas arquibancadas esquecidas.





