Harmonização facial, aplicação de toxina botulínica, preenchimentos, lentes de contato dental e diversos outros procedimentos estéticos têm conquistado cada vez mais adeptos. Impulsionados pela busca por autoestima, bem-estar e pela influência das redes sociais, esses tratamentos se tornaram mais acessíveis e populares. No entanto, especialistas alertam que, antes de qualquer intervenção, é fundamental conhecer os benefícios, os riscos e verificar se o profissional está devidamente habilitado para realizar o procedimento.
O mercado estético segue em expansão no Brasil e no mundo. De acordo com estudo do Boston Consulting Group (BCG), a expectativa é de que o setor alcance cerca de 50 milhões de consumidores brasileiros nos próximos anos. Em nível global, a projeção é de um crescimento médio de 6% ao ano até 2028, movimentando aproximadamente US$ 27 bilhões e alcançando um público potencial de 460 milhões de consumidores. Os números evidenciam a força e a crescente relevância da área da estética, impulsionada pela busca por bem-estar, autoestima e inovação, ao mesmo tempo em que reforçam a importância da qualificação profissional e da oferta de serviços seguros e responsáveis.
De acordo com a psicóloga, Tuani Bertamoni, o crescente interesse pelo autocuidado representa um avanço importante na saúde mental. “Estimula as pessoas a dedicarem tempo e atenção às próprias necessidades físicas e emocionais. Mais do que práticas voltadas à estética, o autocuidado envolve comportamentos que promovem bem-estar, prevenção do adoecimento e maior qualidade de vida. Na perspectiva da Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC), reservar momentos para si, reconhecer limites e atender às próprias necessidades contribui para uma relação mais saudável consigo mesmo, favorecendo o equilíbrio emocional e a redução do estresse cotidiano”, explica.

Tuani Bertamoni, psicóloga Especialista em Terapia Cognitivo Comportamental

Além do visual
A busca por procedimentos estéticos vai além da questão visual. Segundo a psicóloga, a forma como uma pessoa percebe sua própria imagem está diretamente relacionada à autoestima e ao bem-estar. Ela explica que o cuidado com a aparência pode refletir o estado emocional de cada indivíduo, já que a maneira como alguém se vê influencia sua confiança, suas relações e até mesmo seu comportamento social. “A autoestima é um fator final ou inicial para construir um bem- estar emocional e cuidados com a aparência. Muita gente pode achar futilidade, mas o nosso corpo fala. E isso compõe também a aparência. Uma pessoa deprimida, por exemplo, não tem vontade de estar fazendo um exercício físico ou mínimo de cuidado consigo mesmo. Autoestima, reflete diretamente no bem-estar emocional e a aparência reflete em como você está se sentindo hoje”, observa.
Quando realizados de forma consciente e com expectativas realistas, os tratamentos estéticos podem contribuir para a redução de inseguranças e para uma percepção mais positiva da própria imagem. Conforme a especialista, isso pode favorecer a autoconfiança, melhorar a interação social e estimular a pessoa a investir em outras áreas da vida. “Pessoas insatisfeitas com a própria imagem tendem a se tornarem mais inseguras e até a perderem grandes oportunidades pelo receio da exposição – e insegurança naturalmente gera ansiedade”, ressalta.
Além disso, Tuani afirma que orienta alguns pacientes a procurarem os procedimentos. “Quando tem algo no seu físico que incomoda há muito tempo e que realmente vai mudar a forma como a pessoa se vê”, frisa.
O limite entre autocuidado e excesso
Outro aspecto destacado pela psicóloga é a importância de alinhar expectativas antes da realização de qualquer procedimento. Segundo ela, muitas pessoas acreditam que uma mudança estética será capaz de resolver todas as suas inseguranças, quando, na verdade, questões relacionadas à autoestima costumam ser mais profundas. “A tendência da pessoa depositar todas as suas fichas de bem-estar e autoestima no procedimento é muito grande. Por isso, é fundamental que as expectativas estejam alinhadas com a realidade”, explica.
Tuani observa que os tratamentos estéticos podem trazer satisfação e contribuir para uma percepção mais positiva da própria imagem, mas não substituem o desenvolvimento da autoconfiança e do equilíbrio emocional. “O que influencia totalmente a forma como nos vemos e nos sentimos é a nossa visão de nós mesmos e as crenças que construímos ao longo da vida. Isso, procedimento estético nenhum consegue mudar sozinho”, ressalta.
Apesar dos benefícios, ela alerta para uma linha tênue entre o autocuidado e a busca excessiva por modificações no corpo. “Ao observar que a pessoa cada vez mais faz procedimentos, ou não consegue parar de mexer no corpo e rosto, temos a ausência total de autoestima e bem-estar emocional, embora tenha um cuidado com a aparência”, relata.

Segurança em primeiro lugar
De acordo com Letícia Dal Magro, presidente da Associação Brasileira de Odontologia (ABO) – Regional Vinhedos, os maiores riscos estão relacionados à realização de procedimentos por profissionais não habilitados ou em locais sem a estrutura adequada. Segundo ela, essa escolha pode resultar em sérias complicações para a saúde, como infecções, reações adversas, assimetrias, resultados insatisfatórios, lesões em nervos e vasos sanguíneos, além de necrose tecidual e outras intercorrências capazes de deixar sequelas permanentes. “A ausência de conhecimento técnico e de protocolos adequados também dificulta a prevenção e o manejo de complicações”, destaca. Por isso, a presidente reforça a importância de procurar profissionais devidamente qualificados e estabelecimentos regularizados, preparados para garantir a segurança, a saúde e o bem-estar dos pacientes.
Além da qualificação profissional, Letícia ressalta que a pesquisa prévia é fundamental antes da realização de qualquer procedimento estético. Segundo ela, o paciente deve verificar se o profissional possui formação adequada, registro ativo no respectivo conselho de classe e capacitação específica para a técnica que será executada. Também é importante buscar informações sobre a experiência do profissional, conhecer casos já realizados e certificar-se de que o atendimento ocorre em um ambiente regularizado e que siga todas as normas de biossegurança.

Letícia Dal Magro, presidente da ABO Vinhedos

Regularização de dentistas
Nos últimos anos, a procura por cirurgiões-dentistas para a realização de procedimentos estéticos faciais tem crescido de forma significativa. Além dos tratamentos voltados à saúde bucal, os profissionais da odontologia passaram a ser cada vez mais procurados para intervenções como harmonização orofacial, aplicação de toxina botulínica e preenchimentos faciais, acompanhando uma demanda crescente por tratamentos que aliam saúde, funcionalidade e estética.
Letícia afirma que os procedimentos estéticos mais procurados nos consultórios da região são: “Clareamento dental, as facetas em resina composta e porcelana, as lentes de contato dental e os tratamentos de harmonização orofacial, como aplicação de toxina botulínica, preenchimento com ácido hialurônico e bioestimuladores de colágeno. Observa-se também uma crescente busca por tratamentos que associam estética e funcionalidade, proporcionando não apenas melhorias na aparência, mas também benefícios relacionados à saúde, autoestima e qualidade de vida dos pacientes. Essa tendência reflete uma visão cada vez mais integrada da Odontologia, na qual o sorriso e a harmonia facial são tratados de forma conjunta”.

Avaliação
Antes da realização de qualquer procedimento estético, a etapa de avaliação é considerada indispensável pelos especialistas. É nesse momento que são analisadas as condições de saúde do paciente, suas características individuais e as expectativas em relação aos resultados.
A presidente da ABO menciona que essa parte é fundamental para qualquer procedimento estético. “Ela inclui uma análise detalhada do histórico de saúde, das condições clínicas, do uso de medicamentos, de possíveis contraindicações e das expectativas do paciente em relação ao tratamento. Além disso, o profissional realiza um exame da face, avaliando aspectos anatômicos, funcionais e estéticos para elaborar um planejamento individualizado. Com base nessa avaliação, são definidos os procedimentos mais indicados, sempre priorizando a segurança, a naturalidade dos resultados e o bem-estar do paciente”, observa.
Nesta etapa também é fundamental que os pacientes tirem suas dúvidas em relação o que irão realizar. “As dúvidas mais frequentes dos pacientes sobre harmonização orofacial e procedimentos estéticos realizados por cirurgiões-dentistas costumam estar relacionadas à segurança, durabilidade dos resultados, desconforto durante o procedimento, tempo de recuperação, possíveis riscos e necessidade de manutenção. Também são comuns questionamentos sobre quais procedimentos são mais indicados para cada caso, se os resultados serão naturais e qual a qualificação necessária do profissional para realizar esses tratamentos. Por isso, a consulta de avaliação é fundamental para esclarecer expectativas, orientar o paciente e garantir uma decisão informada e segura”, frisa.
A profissional ressalta que nem todos os procedimentos estéticos são indicados para todos os pacientes. Segundo ela, a recomendação de cada tratamento depende de uma avaliação criteriosa, que leva em consideração fatores como o estado geral de saúde, histórico médico, uso de medicamentos, possíveis contraindicações, características anatômicas e as expectativas em relação aos resultados. “Em algumas situações, como presença de infecções, doenças descompensadas, gestação em determinados casos, alergias a substâncias utilizadas ou expectativas incompatíveis com os resultados possíveis, o procedimento pode ser contraindicado ou adiado. O principal objetivo da avaliação profissional é garantir a segurança do paciente e indicar apenas tratamentos que ofereçam benefícios reais, respeitando os limites biológicos e as particularidades de cada indivíduo”, afirma.

Quando a insatisfação se torna um alerta
Tuani também alerta para situações em que a preocupação com a aparência ultrapassa os limites do autocuidado. De acordo com ela, a insatisfação torna-se preocupante quando passa a gerar sofrimento emocional intenso, interfere na rotina ou leva a uma busca constante por novos procedimentos sem que haja satisfação duradoura com os resultados. Nesses casos, a pessoa pode estar enfrentando questões relacionadas à ansiedade, depressão, baixa autoestima ou até transtornos da imagem corporal.
Para a psicóloga, o ideal é que os cuidados com a aparência caminhem lado a lado com os cuidados com a saúde mental. “Quando a pessoa entende que um procedimento pode trazer satisfação, mas não definir seu valor ou sua felicidade, tende a vivenciar os resultados de forma muito mais saudável e duradoura”, afirma.

Cuidados pós procedimentos
Além da escolha de um profissional qualificado, os cuidados após a realização do procedimento também são fundamentais para garantir uma recuperação adequada e alcançar os resultados esperados. “Eles variam conforme a prática realizada, mas, de forma geral, incluem seguir rigorosamente as orientações do profissional, como por exemplo, evitar exposição solar excessiva, não manipular a área tratada, manter a higiene adequada e comparecer às consultas de acompanhamento. Também é importante observar possíveis sinais de intercorrências, como dor intensa, inchaço excessivo ou alterações incomuns, comunicando imediatamente o profissional responsável. O cumprimento das recomendações pós-operatórias é essencial para uma recuperação segura e para a obtenção dos melhores resultados”, orienta Letícia.

Direitos do consumidor
Além dos aspectos relacionados à saúde e à recuperação, os pacientes também devem estar atentos aos seus direitos como consumidores. Informações claras, publicidade transparente e cumprimento do que foi contratado são pontos fundamentais na relação entre profissionais, clínicas e clientes.
De acordo com Alan de Moura Vieira, coordenador de políticas públicas do Procon de Bento Gonçalves, as principais reclamações em relação aos procedimentos estéticos estão ligadas à quebra de expectativas. “Em geral, as reclamações giram em torno de resultado diferente do prometido, falta de informação clara antes do procedimento e, em alguns casos, complicações que poderiam ter sido melhor explicadas ao paciente”, nota.
Além disso, ele menciona o fato de que há publicidade enganosa. “Muitas vezes a pessoa é atraída por uma oferta muito convincente, mas depois percebe que o que foi divulgado não correspondia exatamente ao que foi entregue”, frisa.
Além das questões relacionadas à saúde e à segurança, os procedimentos estéticos também estão sujeitos às normas do Código de Defesa do Consumidor (CDC). Conforme orientação do Procon de Bento Gonçalves, os serviços prestados por médicos, dentistas e demais profissionais da área devem seguir os princípios da transparência e da boa-fé na relação com o cliente. “Informação clara, oferta verdadeira, contrato transparente e respeito ao que foi combinado com o cliente”, menciona.
Em casos de complicações ou resultados inesperados, o paciente pode pedir explicações formais, reclamar no Procon e, dependendo do caso, buscar reembolso, abatimento do valor pago ou até reparação por danos. “Se houver falha na prestação do serviço, a responsabilidade do fornecedor pode ser acionada”, orienta Vieira.
Ele afirma que o procedimento pode ser caracterizado como propaganda enganosa quando a divulgação promete o que o procedimento não pode garantir, quando omite riscos importantes ou quando usa imagem, linguagem ou recurso visual para induzir o consumidor ao erro. “Antes e depois manipulado, promessa de resultado certo e omissão de limitações entram nesse campo”, relata.
Antes de realizar qualquer procedimento estético, o consumidor deve buscar o máximo de informações possível e evitar decisões impulsivas. Conforme orientação do Procon, é fundamental verificar se o profissional possui habilitação para realizar o procedimento, se o estabelecimento está regularizado e solicitar todas as informações por escrito, incluindo riscos e condições do tratamento. O órgão também recomenda cautela diante de promessas de resultados milagrosos ou de preços muito abaixo da média de mercado, situações que podem indicar riscos ao consumidor.