A inadimplência continua sendo um desafio para milhões de brasileiros e preocupa especialmente no Rio Grande do Sul. Dados mais recentes do Mapa da Inadimplência, divulgado pela Serasa, mostram que, em maio, 46,58% da população gaúcha adulta estava com alguma dívida em atraso, o equivalente a 4.140.567 pessoas. Em âmbito nacional, o cenário é ainda mais expressivo: 50,85% dos brasileiros adultos, ou 83.502.846 pessoas, enfrentavam a mesma situação.
Os números refletem as dificuldades financeiras vividas por muitas famílias, que precisam lidar com o aumento do custo de vida, a necessidade de reorganizar o orçamento e os desafios para manter as contas em dia. Em um contexto de endividamento crescente, especialistas alertam para a importância do planejamento financeiro e da busca por alternativas para renegociar débitos antes que a situação se agrave.
De acordo com Jacqueline Maria Corá, Coordenadora do Colegiado do curso de Ciências Econômicas da Universidade de Caxias do Sul (UCS), há vários fatores que influenciam na inadimplência dos gaúchos. “É resultado da combinação de fatores conjunturais e estruturais. Entre os principais estão a manutenção de taxas de juros elevadas por um período prolongado, a perda do poder de compra das famílias diante da inflação e a desigualdade de renda, que torna uma parcela significativa da população mais vulnerável financeiramente”, explica.
Inflação e juros elevados
Jacqueline destaca que a inflação tem impacto direto no poder de compra da população. “Há uma sensação de empobrecimento, já que o dinheiro passa a render menos. Esse efeito é ainda mais intenso entre as famílias de baixa renda, que destinam grande parte dos seus rendimentos a despesas essenciais, como alimentação, energia elétrica, transporte, aluguel e gás de cozinha. São gastos que dificilmente podem ser reduzidos, mesmo diante da alta dos preços”, afirma.
Os juros elevados também agravam o cenário. Segundo a economista, modalidades como crédito rotativo e empréstimos pessoais tornam-se mais caras, aumentando o comprometimento da renda das famílias. “Na prática, ocorre um efeito duplo: de um lado, muitas pessoas precisam recorrer ao crédito para manter o consumo; de outro, acabam pagando mais caro por esse recurso. O resultado é o chamado efeito ‘bola de neve’, com o crescimento do endividamento e da inadimplência entre aqueles que não conseguem encontrar alternativas para reequilibrar as finanças”, explica.
Ela ressalta que muitas famílias dependem do parcelamento para adquirir bens e contratar serviços. No entanto, quando os juros estão elevados, o custo do crédito aumenta, as parcelas ficam mais pesadas e uma parte cada vez maior da renda familiar passa a ser destinada ao pagamento de dívidas. “O problema é que a renda das famílias, de modo geral, não acompanha o mesmo ritmo de crescimento do custo de vida e dos encargos financeiros, o que reduz a capacidade de pagamento e aumenta o risco de inadimplência”, afirma.

Perda de renda x excesso de crédito
Jacqueline menciona que os dois fatores estão relacionados. “A inadimplência é um fenômeno multifacetado. A perda ou instabilidade de renda ainda é o principal gatilho para a inadimplência. Por outro lado, nunca houve uma oferta de crédito tão ampla e acessível no país”, observa.
Para ela, o crédito está disponível de forma rápida e simplificada por meio de bancos digitais, financeiras, lojas e aplicativos. “Tudo acontece com poucos cliques. Essa facilidade, somada ao imediatismo e ao consumo por impulso, muitas vezes leva as pessoas a assumirem compromissos financeiros sem avaliar adequadamente sua capacidade de pagamento. O resultado é o acúmulo de parcelamentos, financiamentos e empréstimos que, no médio prazo, acabam ultrapassando a capacidade financeira das famílias”, observa.
Perfil
A Pesquisa de Endividamento e Inadimplência das Famílias (PEIC-RS) aponta que 85,9% das famílias gaúchas possuíam algum tipo de dívida em março de 2026, um dos maiores índices registrados nos últimos dez meses. Entre as famílias com renda de até 10 salários mínimos, que compõem a maior parte dos endividados, cerca de 30% da renda mensal está comprometida com o pagamento de dívidas, enquanto 31,9% encontram-se inadimplentes. O levantamento também revela que o tempo médio de endividamento é de 7,4 meses e que o cartão de crédito continua sendo o principal responsável pelo endividamento, utilizado por mais de 63% das famílias nessa condição.
Para Jacqueline, o perfil da inadimplência também vem passando por mudanças nos últimos anos. Com base em dados da Serasa Experian, ela destaca que a faixa etária predominante entre os endividados e inadimplentes está entre 41 e 60 anos e que as mulheres já representam a maioria desse grupo. “Este aspecto pode ser cruzado com dados sobre o aumento no número de mulheres como chefe de famílias. Outro aspecto que merece destaque é que o endividamento não atinge apenas as famílias de baixa renda. Hoje, este fenômeno ultrapassou essa fronteira e temos importante grupo das classes C e D, o que demonstra a importância dos estudos sobre os impactos comportamentais no consumo (aversão a perda, compra por impulso, influência de redes socias, efeito manada), além da falta de conhecimentos específicos sobre finanças e praticamente nenhum entendimento sobre como funciona o dinheiro no tempo”, observa.
Cenário econômico nacional
A economista destaca que fatores macroeconômicos têm influência direta sobre os índices de endividamento e inadimplência. Segundo ela, a definição da taxa básica de juros ocorre em nível federal e impacta o custo do crédito em todo o país. Quando os juros permanecem elevados por longos períodos, o consumo tende a desacelerar, os investimentos diminuem e as famílias enfrentam mais dificuldades para equilibrar o orçamento. No Rio Grande do Sul, esse cenário é agravado por desafios econômicos adicionais enfrentados nos últimos anos, especialmente em decorrência dos eventos climáticos extremos que afetaram empresas, empregos e a renda de milhares de famílias gaúchas.
Educação financeira
Jacqueline destaca que a falta de educação financeira ainda é um desafio para grande parte da população. “Muitas pessoas passaram a ter acesso facilitado ao crédito, mas sem a orientação necessária sobre planejamento financeiro, uso consciente dos recursos e gestão do orçamento familiar. Essa combinação favorece o acúmulo de dívidas e aumenta os casos de superendividamento entre as famílias”, ressalta.
Para a economista, o avanço da inadimplência no país está relacionado a fatores estruturais que vão além das oscilações da economia. Ela observa que o Brasil ampliou significativamente a inclusão financeira e o acesso ao crédito nos últimos anos, especialmente com a expansão das fintechs e dos bancos digitais. No entanto, esse processo não foi acompanhado pela preparação necessária da população para lidar com produtos financeiros cada vez mais complexos.
Segundo ela, essa realidade se reflete nos indicadores de inadimplência, que registraram crescimento de 38% na última década, independentemente dos ciclos econômicos. “Esse comportamento demonstra que o problema precisa ser analisado sob uma perspectiva estrutural, marcada pela baixa educação financeira, pelo uso recorrente de linhas de crédito com juros elevados e, principalmente, pela dependência do crédito para o consumo”, avalia. A economista ressalta que o crédito pode ser uma ferramenta saudável quando destinado a investimentos capazes de gerar retorno financeiro, mas alerta que seu uso para financiar gastos de consumo tende a comprometer o orçamento das famílias.
Jacqueline também chama a atenção para os desafios históricos do sistema educacional brasileiro, que impactam diretamente a formação financeira da população. “Muitas pessoas chegam à vida adulta sem conhecimentos básicos sobre orçamento, juros, planejamento financeiro e consumo consciente. O resultado é o aumento do superendividamento, que ultrapassa o campo econômico e afeta saúde mental, relações familiares e produtividade no trabalho”, afirma.
Setores mais afetados
Ela menciona que o fator comprime o orçamento familiar, reduzindo a capacidade de consumo no comércio varejista do RS. “O setor costuma sentir os efeitos da inadimplência de forma mais imediata, especialmente os segmentos ligados a bens não essenciais. Quando a renda fica comprometida, o consumidor prioriza despesas básicas”, menciona.
Entre os meios mais afetados estão:
- Eletroeletrônicos;
- Vestuário;
- Turismo;
- Lazer;
- Restaurantes;
- Serviços ligados ao consumo discricionário.
Ela afirma que o aumento da inadimplência também eleva o risco para o sistema financeiro, tornando o crédito mais caro e mais restritivo. “Isso acaba retroalimentando o ciclo de desaceleração econômica”, ressalta.
Jacqueline destaca que a inadimplência gera impactos que vão além das finanças das famílias e afetam diretamente a atividade econômica. Segundo ela, esse cenário cria um ciclo vicioso, no qual as empresas também passam a enfrentar dificuldades para receber pelos produtos e serviços vendidos, resultando em queda nas vendas e aumento da necessidade de capital de giro. “Em muitos casos, isso pode levar à redução de investimentos, fechamento de vagas de trabalho e desaceleração econômica”, aponta.
A economista também chama a atenção para os reflexos da inadimplência sobre a economia e o bem-estar da população. Segundo ela, o aumento dos índices de atraso no pagamento de dívidas leva o sistema financeiro a elevar as taxas de juros e a adotar critérios mais rigorosos para a concessão de crédito, diante do maior risco de inadimplência. “Isso cria um ciclo negativo: menos consumo, menos investimento e menor crescimento econômico”, afirma.
O que esperar
A economista avalia que não há perspectivas de melhora significativa da inadimplência no curto prazo. Segundo ela, embora as taxas de juros tenham iniciado um movimento de queda, os fatores estruturais que sustentam o endividamento da população exigem anos, ou até décadas, para serem transformados. Ainda assim, ela observa que existem iniciativas capazes de contribuir para uma melhora gradual do cenário, desde que estejam acompanhadas de ações voltadas à educação financeira. “Programas de renegociação de dívidas, como o Desenrola, oferecem condições favoráveis para que as pessoas regularizem sua situação financeira e retomem o controle do orçamento. No entanto, o mais importante é que essa renegociação venha acompanhada de uma mudança de comportamento em relação ao dinheiro, para evitar que a inadimplência volte a ocorrer poucos meses depois”, afirma.
Para Jacqueline, a simples renegociação dos débitos não é suficiente se as causas estruturais do problema permanecerem inalteradas. Ela destaca que a redução da inadimplência depende não apenas de medidas econômicas, mas também de avanços na educação financeira da população, da ampliação das oportunidades de geração de renda e de um acesso ao crédito mais equilibrado e sustentável.
A economista também defende o fortalecimento de políticas voltadas à geração de emprego e renda, ressaltando que a estabilidade financeira das famílias está diretamente ligada à capacidade de manter receitas regulares ao longo do tempo. Além disso, ela acredita que as instituições financeiras podem desempenhar um papel importante na prevenção do superendividamento, por meio de análises mais criteriosas e responsáveis na concessão de crédito, reduzindo o risco de que consumidores assumam compromissos financeiros incompatíveis com sua capacidade de pagamento.