Entre transformações recentes e desafios históricos, o bairro combina crescimento urbano, demandas por melhorias e a atuação de lideranças engajadas no fortalecimento da comunidade
Localizado em uma das regiões de expansão urbana de Bento Gonçalves, o bairro Ouro Verde passou por diversas transformações nos últimos anos. O crescimento populacional, a abertura de novos loteamentos, a chegada de empreendimentos e a ampliação de serviços contribuíram para modificar a realidade da comunidade. Ao mesmo tempo, moradores e empreendedores apontam desafios que ainda fazem parte do cotidiano.
As percepções foram compartilhadas por residentes que vivem no bairro há décadas e por comerciantes que acompanham diariamente a movimentação da comunidade. Apesar das diferentes experiências, muitos relatos convergem para uma avaliação positiva sobre a evolução do Ouro Verde, especialmente em relação à segurança e à oferta de serviços.
Bairro reúne moradores, trabalhadores e empreendedores
A presença de comércios e empresas é um dos aspectos destacados por quem vive ou trabalha na região. Além de atender a população local, muitos empreendimentos empregam pessoas que residem no próprio bairro.
Natural de São Miguel do Oeste (SC), Cleunice da Silva Strada mora e empreende no Ouro Verde há 12 anos. Proprietária de uma assistência técnica especializada em conserto de eletrônicos, ela afirma que o bairro oferece condições favoráveis para manter o negócio. “Embora seja mais afastado de algumas áreas da cidade, nunca tivemos dificuldades para atender os clientes. Eles procuram nossos serviços normalmente e, de forma geral, não tenho reclamações sobre”, relata.
O comerciante Almir Moraes, que mantém um mercado no local há 13 anos e residiu no bairro por mais de duas décadas antes de se mudar para o distrito de Tuiuty, destaca a relação entre moradia e trabalho na região. “Grande parte das empresas instaladas aqui emprega pessoas que residem no bairro”, afirma.
A administradora Yasmin Silveira Conceição, que atua há seis anos em uma padaria familiar, também aponta a movimentação comercial como um dos principais fatores positivos. “O fluxo de pessoas é muito bom. A proximidade da escola também contribui para a demanda diária da padaria”, observa.
Moradora do bairro desde a infância, Angelita dos Santos, proprietária de um salão de beleza há oito anos, considera que a estrutura disponível facilita a rotina local. “Hoje oferece praticamente tudo o que as pessoas precisam. Tem mercados, serviços e opções que facilitam o dia a dia. Eu não me imagino morando em outro lugar”, comenta.
Segurança apresenta melhora na avaliação dos moradores
Entre os temas mais recorrentes nas entrevistas está a percepção de melhora na segurança pública. Moradores e comerciantes relatam que situações de violência registradas no passado deixaram de ser frequentes nos últimos anos.
Cleunice lembra que houve períodos mais difíceis, mas afirma que a realidade atual é diferente. “Houve uma época em que existiam mais ocorrências relacionadas à violência, mas isso mudou bastante. Hoje não percebo mais esse tipo de situação”, aponta.
Moraes também avalia que o cenário melhorou significativamente. “Faz aproximadamente um ano que a situação está mais tranquila. Houve reforço no monitoramento e instalação de câmeras, especialmente na Rua Bramante Mion, e isso contribuiu para aumentar a sensação de segurança”, observa.
A percepção é compartilhada por Yasmin. “Há uns dois anos houve uma tentativa de assalto na casa de uma vizinha. Hoje a criminalidade está mais controlada e o policiamento é mais presente”, relata.
Morador do bairro há 18 anos e proprietário de uma estética automotiva, Lindomar da Silva Ramos considera a segurança um dos setores que mais evoluíram. “Melhorou muito. Antes existia uma sensação maior de insegurança. Hoje são raras as ocorrências de assaltos e roubos que chegam ao nosso conhecimento”, destaca.
Para o empresário Luis Mejolaro, proprietário de um agropet instalado no bairro há três anos, a imagem negativa associada ao Ouro Verde nem sempre corresponde à realidade vivida pela comunidade. “Muitas vezes acontece um caso isolado e as pessoas acabam generalizando. O bairro é formado por trabalhadores e, na minha avaliação, a segurança está muito boa”, argumenta.
Pavimentação e condições das ruas lideram reivindicações
Se há um tema capaz de reunir opiniões semelhantes entre os entrevistados, é a infraestrutura viária. Moradores relatam que a falta de pavimentação em algumas ruas e as condições das vias continuam sendo um dos principais desafios do bairro.
Para Cleunice, essa é atualmente uma das demandas mais urgentes da comunidade. “O maior problema hoje são as ruas e os calçamentos. Em relação aos demais serviços, não temos grandes dificuldades”, afirma.
Moraes é ainda mais direto ao abordar a situação. “A questão do calçamento é muito ruim. Essa é a principal demanda do bairro”, afirma
A avaliação também é compartilhada por Yasmin. “É bastante precária em alguns pontos. Existem muitos buracos”, pontua.
Ramos lembra que existe uma reivindicação antiga relacionada às vias utilizadas pelo transporte coletivo. “Há muitos anos se fala na pavimentação das ruas por onde passam os ônibus. É uma necessidade que ainda não foi atendida”, observa.
Angelita acredita que melhorias estruturais precisam ser realizadas antes de novas obras de asfaltamento. “Existem vazamentos e outros problemas que devem ser resolvidos primeiro. É importante corrigir essas situações para que futuras obras tenham mais durabilidade”, argumenta.
Falta de água afeta a comunidade
O abastecimento de água também aparece como uma das reclamações mais frequentes entre os entrevistados. Embora algumas áreas sejam menos impactadas, eles destacam interrupções recorrentes no fornecimento.
Moraes relata interrupções no abastecimento. “Há cerca de quinze dias faltou água novamente. Normalmente não dura muitos dias, mas acontece com certa frequência”, aponta.
Para estabelecimentos comerciais, o impacto pode ser ainda maior. Yasmin afirma que a falta de água interfere diretamente na produção da padaria. “Para nós é um problema sério porque dependemos dela em praticamente todas as etapas da produção. Quando ocorre um rompimento de cano, muitas vezes sabemos que teremos dificuldades durante semanas”, ressalta.
Angelita relata que a situação é uma das principais queixas dos moradores. “Muitas famílias chegam a ficar dois ou três dias enfrentando problemas de abastecimento. Isso afeta especialmente quem trabalha o dia inteiro e precisa dos serviços básicos quando retorna para casa”, observa.
Ramos destaca que as interrupções costumam ocorrer justamente nos horários de maior consumo. “Falta água quando as pessoas chegam cansadas em casa após o trabalho. É uma situação que afeta diretamente a rotina das famílias”, salienta.
Transporte público e mobilidade dividem opiniões
A oferta de horários do transporte coletivo recebeu avaliações distintas.
Parte dos entrevistados considera que houve avanços nos últimos anos. “Hoje existem mais horários de ônibus do que havia antigamente”, observa Cleunice.
Moraes também avalia positivamente o serviço. “Atualmente o transporte atende bem a região”, afirma.
Por outro lado, Yasmin pondera que as alterações nos trajetos impactaram alguns pontos específicos do bairro. Segundo ela, parte das linhas passou a circular por vias próximas, que concentram maior oferta de horários, enquanto a rua onde está localizada a padaria passou a receber menos transporte público. “Agora a maioria dos ônibus passa na rua de cima. Aqui ainda há atendimento, mas os horários ficaram mais limitados”, observa.
Além da questão dos horários, Ramos chama atenção para o aumento do fluxo de veículos. “A cidade está crescendo e o trânsito também aumentou. Em alguns horários existem congestionamentos e seria importante pensar em soluções que melhorem a circulação”, observa.
Saúde gera avaliações diferentes entre usuários
O bairro conta com duas unidades de saúde. A principal é a Estratégia Saúde da Família (ESF) Ouro Verde, responsável pelo atendimento dos moradores da região. Já a ESF Zatt atende a comunidade vizinha e também é utilizada por parte da população que reside nas proximidades. Entre os entrevistados, as avaliações sobre os serviços de saúde foram variadas.
Cleunice considera que o principal problema está na forma como os serviços são organizados. “Muitas vezes a pessoa procura atendimento porque está precisando naquele momento e acaba recebendo uma consulta para a semana seguinte”, argumenta.
Angelita também relata dificuldades para conseguir assistência médica. “Em algumas situações é muito difícil conseguir uma vaga. Muitas pessoas precisam ligar diversas vezes para tentar agendar uma consulta”, aponta.
Yasmin relata experiências relacionadas ao atendimento vinculado ao zoneamento dos usuários. “Já fui para me vacinar e não consegui atendimento porque meu cadastro está vinculado a outro bairro”, afirma.
Em contrapartida, Moraes e Mejolaro afirmam estar satisfeitos com o serviço utilizado pela comunidade. “Eu utilizo e considero um bom atendimento”, resume Moraes.
Limpeza urbana e manutenção dos espaços públicos
Alguns moradores apontam necessidade de maior frequência em serviços de manutenção da limpeza e coleta de resíduos.
Angelita acredita que o bairro é relativamente limpo, mas observa que a vegetação em algumas áreas exige mais atenção. “Em determinados locais seria importante intensificar o corte de mato e a manutenção dos espaços públicos. Houve um tempo que era mais frequente, agora eles procrastinam”, observa.
Ramos também cita a necessidade de reforçar serviços de limpeza urbana. “É importante recolher resíduos, cortar o mato e realizar a manutenção dos meios-fios com mais frequência”, pontua.

Espaços comunitários fortalecem convivência no bairro
Além das demandas estruturais, moradores destacam iniciativas que contribuem para a integração da comunidade.
Entre elas está o trabalho desenvolvido no Centro de Referência de Assistência Social (CRAS), citado por Cleunice como uma das ações mais importantes para o bairro. “Eles oferece atividades para crianças, adolescentes, adultos e idosos. É um espaço muito importante para a comunidade”, explica.
A Praça CEU e outros espaços de convivência também aparecem como referências para os moradores.
Segundo Moraes, as áreas de lazer são utilizadas pela população e ajudam a fortalecer a integração social.
Participação comunitária marca trajetória de liderança local
Uma das pessoas lembradas pelos moradores quando o assunto é envolvimento comunitário é Idianes Hoffmann, conhecida na comunidade como Índia. Técnica de enfermagem que atua na ESF Zatt, ela acompanha há anos as transformações do Ouro Verde e participa de diversas ações.

Na avaliação de Idianes, o bairro avançou significativamente nas últimas décadas. “Ocorreram melhorias importantes relacionadas à urbanização, abertura de loteamentos, novos residenciais, ampliação das praças, criação de espaços esportivos, cursos gratuitos, novos comércios, creches, escolas e serviços para a população”, destaca.
Apesar dos avanços, ela acredita que ainda existem desafios importantes. “As principais necessidades da população continuam sendo moradia, saneamento básico, segurança e ampliação dos horários do transporte público”, pontua.
Ao longo dos anos, Idianes participou de diferentes iniciativas comunitárias, entre elas a implantação da horta comunitária da Praça CEU, o projeto Relógio Medicinal do Corpo Humano e ações de arrecadação de roupas, calçados e enxovais destinados a famílias em situação de vulnerabilidade.
Segundo ela, o trabalho coletivo é essencial para fortalecer o bairro. “Gosto de participar porque acredito na união das pessoas e na construção de soluções para a comunidade. Quando os moradores se envolvem, os resultados aparecem”, afirma.
Entre os exemplos citados está a recuperação da horta comunitária após danos causados por fortes chuvas. A iniciativa recebeu reconhecimento nacional ao conquistar o 3º lugar no Prêmio Boas Práticas dos CEUs das Artes, promovido pelo Ministério da Cultura.
O envolvimento em ações voltadas ao bem coletivo também está ligado a uma frase que, segundo Idianes, serve de inspiração para sua trajetória: “Seja a mudança que você quer ver no mundo”, atribuída a Mahatma Gandhi. A máxima resume a forma como ela encara a participação cidadã e o trabalho em benefício da comunidade.
