Adiar tarefas importantes enquanto se ocupa com atividades mais simples e aparentemente úteis é um comportamento cada vez mais comum entre estudantes e profissionais. Conhecida como “procrastinação produtiva”, a prática cria uma sensação de rendimento, mas muitas vezes funciona como mecanismo de fuga diante de demandas consideradas mais difíceis ou emocionalmente desgastantes. O conceito, associado à chamada “procrastinação estruturada”, tem despertado a atenção de especialistas, que alertam que o hábito nem sempre está ligado apenas à desorganização ou à falta de disciplina, podendo também refletir questões psíquicas mais profundas e que exigem acompanhamento especializado.
De acordo com a psicóloga Emily Pinsetta Dalpian, o termo “procrastinação estruturada” foi popularizado pelo filósofo John Perry no livro “A Arte da Procrastinação: Como Realizar Tarefas Deixando-as Para Depois”, publicado em 2014. “A procrastinação produtiva é uma tendência a adiar tarefas de significativa importância e a realizar outras atividades mais simples para evitar a tarefa maior, mais complexa e, consequentemente, mais desafiadora”, afirma.
Diferenças
Embora possam resultar no adiamento de tarefas importantes, a procrastinação produtiva e o simples adiamento possuem características diferentes. “A primeira parece estar mais relacionada à necessidade de se sentir, e de ser, produtivo a qualquer custo. Nesse caso, a pessoa substitui a tarefa principal por atividades menores, menos urgentes, mas ainda consideradas importantes e, assim, consegue se sentir produtivo e visualizar o resultado do seu trabalho, evitando entrar em contato com os reais sentimentos que originam a procrastinação, bem como com a culpa que surgiria se nada fosse produzido. Já o simples adiamento de tarefas parece estar mais associado à busca por atividades prazerosas e de satisfação imediata, como usar redes sociais, assistir a filmes ou séries, entre outras ocupações desconectadas da demanda principal. Essa forma de procrastinar tende a gerar sentimentos de culpa, frustração e até estresse mais explícitos, em decorrência da percepção de que o tempo poderia ter sido utilizado de maneira mais proveitosa”, explica Emily.
Ela destaca que ambas as formas podem estar associadas ao medo de não alcançar um desempenho considerado satisfatório, de cometer erros ou de não corresponder às próprias expectativas e às cobranças externas.


Como ela afeta
Emily explica que a procrastinação produtiva pode gerar uma falsa sensação de produtividade, já que a pessoa permanece ocupada ao longo do dia realizando diferentes atividades, mas sem avançar naquilo que realmente é prioridade. Embora exista movimento constante, as tarefas mais importantes acabam sendo adiadas, o que pode trazer prejuízos para a rotina, o trabalho e os estudos. “O acúmulo de demandas, a sensação constante de atraso e a queda na produtividade consequentes da quantidade de tarefas inacabadas (ou não iniciadas) podem provocar estresse, ansiedade e sentimentos de frustração ou culpa”, salienta.
Por outro lado, a especialista observa que, em alguns casos, o afastamento momentâneo da tarefa principal pode favorecer a criatividade e o surgimento de novas ideias. “Esse intervalo de tempo pode se tornar um momento importante de reflexão sobre as próprias dificuldades em realizar a tarefa e sobre os fatores internos ou externos que estão interferindo nesse processo”, afirma.
A psicóloga afirma que o excesso de cobrança e a busca constante pelo perfeccionismo podem estar diretamente relacionados à procrastinação produtiva. “Isso pode levar a pessoa a evitar tarefas mais complexas ou significativas por medo de não alcançar o resultado esperado e falhar. Além disso, quando essas características se associam às exigências sociais e culturais contemporâneas de que é preciso ser constantemente produtivo, bem como de que é preciso ser sempre a sua melhor versão, exigindo performance contínua para ser valorizado e reconhecido, os efeitos podem se intensificar”, observa.
Estratégias que podem ajudar
A psicóloga ressalta que, durante a pesquisa para a entrevista, encontrou diversos conteúdos voltados a métodos para “parar de procrastinar” e aumentar o rendimento. A partir disso, ela passou a refletir se a solução para a procrastinação estaria apenas em técnicas de organização e produtividade ou se o problema também está relacionado à busca constante por desempenho e pela eliminação de qualquer momento de ociosidade. “Será que o problema não está também na cobrança constante por desempenho e performance a qualquer custo?”, questiona.
Para a especialista, embora existam estratégias que ajudam na organização da rotina e na distribuição mais equilibrada das atividades do dia a dia, a questão não pode ser reduzida apenas à falta de disciplina ou planejamento. “No entanto, é importante que cada indivíduo reflita sobre a própria relação com a procrastinação e com aquilo que sente e/ou que, de fato, precisa produzir. Afinal, muitas vezes, esse comportamento está ligado a questões profundamente pessoais, que podem ser intensificadas pelo contexto social e cultural em que vivemos”, aponta.
A psicóloga destaca ainda que essa reflexão é fundamental para evitar a reprodução automática de modelos de produtividade e desempenho que responsabilizam exclusivamente o indivíduo pelo próprio sofrimento.
Ela afirma que é possível transformar hábitos de procrastinação em uma rotina mais saudável e equilibrada, mas destaca que esse processo costuma exigir autoconhecimento e ajustes de expectativas. “Em muitos casos, não se trata apenas de “aumentar a produtividade”, mas de compreender o que está por trás da evitação das tarefas, como medo de falhar, excesso de cobrança ou dificuldade de lidar com demandas mais complexas”, aponta.
Emily explica que a mudança não começa somente com técnicas de produtividade, mas com um movimento de escuta e compreensão de si. Nesse processo, é importante que a pessoa reflita sobre o que está relacionado à própria procrastinação, o que torna determinada tarefa ameaçadora e quais sentimentos ou expectativas são despertados diante dela.
Dividir tarefas maiores em etapas menores e mais concretas pode ajudar a tornar o início das atividades menos intimidante. Assim como estabelecer prioridades reais, com metas mais realistas e flexíveis, também ajuda a reduzir a sensação de sobrecarga.
A psicóloga também ressalta a importância de construir uma rotina que inclua pausas e momentos de descanso, respeitando os próprios limites. Para ela, períodos de paralisia fazem parte do processo e o equilíbrio entre produção e recuperação influencia diretamente na continuidade das atividades. Nesse contexto, o acompanhamento psicológico pode auxiliar na compreensão do funcionamento individual diante da procrastinação e na busca por formas mais saudáveis de lidar com essas demandas.