Há mais de três décadas, a Escolinha Recriar Esportes transforma o esporte em uma ferramenta de formação humana e desenvolvimento social em Bento Gonçalves. Fundado no início da década de 1990 pelos três irmãos Carlos Roberto, João Carlos e Clemente Mieznikowski, o projeto consolidou-se como referência no incentivo ao voleibol e na formação de crianças e adolescentes, unindo aprendizado esportivo a valores como respeito, disciplina, comprometimento e caráter.
Mais do que ensinar fundamentos técnicos dentro das quadras, a Recriar Esportes mantém viva a proposta de utilizar o esporte como instrumento de educação e construção cidadã. A trajetória da instituição começou em 1991, quando Carlos Roberto passou a atuar ao lado do irmão Clemente em um trabalho voltado à iniciação esportiva. Nos anos seguintes, nasceu oficialmente a Recriar Assessoria Esportiva, projeto conduzido pelos três irmãos até 2001. A ligação da família com o voleibol sempre foi marcante. Clemente e João Carlos chegaram, inclusive, a atuar na Superliga. Após um período afastado das atividades, Carlos Roberto retomou a escolinha em 2018, mantendo o nome de Recriar Esportes e iniciando uma nova fase do projeto. Pouco tempo depois, a pandemia da Covid-19 trouxe desafios para a continuidade das atividades, mas a Recriar conseguiu se reestruturar e voltar a crescer, mantendo o foco no desenvolvimento esportivo e humano dos alunos. Atualmente, a escolinha atende crianças a partir dos seis anos até jovens nascidos em 2011.

Formação humana
O professor Carlos Roberto destaca que o projeto vai além de um espaço voltado à prática esportiva, consolidando-se também como um ambiente de formação humana. “Por isso, nossa essência sempre esteve fundamentada, acima de tudo, na formação de cidadãos”, afirma. Carlos Roberto enfatiza que a proposta da Recriar está baseada em uma formação que une desenvolvimento esportivo e construção de valores. Segundo ele, o trabalho realizado nas quadras prioriza disciplina, metodologia e comprometimento, mas também busca incentivar princípios como respeito, responsabilidade, cooperação e superação. “Acreditamos que a formação de atletas acontece de maneira mais consistente quando existe uma base humana sólida. Nosso objetivo é que cada criança e adolescente que passe pelo projeto leve consigo aprendizados que vão além da quadra”, menciona.
O legado de Clemente Mieznikowski
Segundo Carlos Roberto, o legado deixado por Clemente Mieznikowski segue presente não apenas na história da Recriar, mas também na rotina e na cultura construída dentro do projeto. De acordo com ele, os valores defendidos pelo professor são transmitidos diariamente por meio da condução dos treinos, das relações interpessoais e da convivência entre atletas, professores e famílias. “Mais do que formar jogadores, buscamos formar pessoas conscientes do seu papel dentro e fora da quadra. Esse sempre foi um princípio muito forte no legado de Clemente e continua sendo uma das bases mais importantes do nosso trabalho”, salienta.
Mudança de perfil
O coordenador afirma que muitas coisas mudaram desde a inauguração da escolinha no perfil dos jovens. “Hoje vivemos uma geração muito mais conectada, com acesso rápido à informação e estímulos constantes, o que traz desafios diferentes para o processo educativo e esportivo. Ao mesmo tempo, notamos que muitos jovens chegam buscando não apenas a prática esportiva, mas também pertencimento, convivência e referências positivas. Por isso, o papel da escolinha se tornou ainda mais relevante como espaço de formação humana”, observa. Ele ressalta que essa transformação não está relacionada apenas às crianças e adolescentes, mas também às famílias, que hoje acompanham o desenvolvimento esportivo de maneira diferente e, muitas vezes, com expectativas mais imediatas em relação aos resultados. “Nosso trabalho é justamente encontrar esse equilíbrio, mostrando que o desenvolvimento no esporte acontece de forma gradual e que os aprendizados mais importantes vão muito além da competição”, afirma.

Continuidade
Carlos Roberto menciona que, com a presença de seu filho e técnico Júlio, a continuidade da história do Projeto Recriar acontece de forma natural. “Existe, ao mesmo tempo, o respeito pela trajetória construída ao longo de décadas e a contribuição de uma nova geração, com novas ideias, experiências e formas de enxergar o esporte e a formação dos alunos”, explica. Ele afirma que dividir essa responsabilidade exige diálogo, confiança e, principalmente, alinhamento de valores. “Felizmente, temos uma base muito sólida em comum, que é a compreensão de que o projeto deve manter sua essência humana e educativa acima de qualquer resultado imediato. Cada geração traz contribuições importantes. A experiência ajuda a preservar a identidade e os princípios do trabalho, enquanto a visão mais jovem contribui com atualização, inovação e aproximação com a realidade atual das crianças e das famílias”, afirma. Carlos Roberto destaca que ter o filho como técnico ao seu lado fortalece ainda mais a Recriar. “Ampliando oportunidades, modernizando processos e mantendo o compromisso com a formação humana através do esporte. O mais importante é que existe um entendimento muito claro de que o projeto não pertence apenas a uma pessoa ou geração, mas a uma história construída com muitas famílias, alunos e profissionais ao longo do tempo”, observa.
Faixa etária
A escolinha atende crianças e adolescentes de diferentes faixas etárias, organizando as turmas conforme a idade e o nível de habilidade dos alunos. Segundo o professor Carlos Roberto, a proposta busca evitar grupos muito heterogêneos, permitindo que tanto os atletas mais experientes quanto aqueles que ainda estão em fase de aprendizagem consigam evoluir de forma equilibrada e motivadora. A partir dessa divisão, a Recriar desenvolve um planejamento pedagógico específico para cada grupo, acompanhando o desenvolvimento técnico e esportivo dos alunos ao longo da temporada. Para ele, ver ex-alunos levando agora seus filhos à Recriar representa um sentimento de alegria e dever cumprido. “Uma das maiores demonstrações de que o trabalho realizado ao longo dos anos deixou marcas positivas. Isso gera um sentimento de orgulho, gratidão e também de responsabilidade, porque percebemos que o vínculo construído vai muito além do esporte”, aponta.
Modalidades
Embora a Recriar tenha no voleibol sua principal modalidade, a iniciação ao futsal surgiu como uma alternativa complementar para ampliar as possibilidades de desenvolvimento esportivo das crianças. Segundo Carlos Roberto, as duas modalidades compartilham características importantes para a formação dos alunos, especialmente nas categorias iniciais. “O futsal, assim como o voleibol, trabalha aspectos como dinâmica, coordenação motora, tomada de decisão rápida, socialização e o primeiro contato com o ambiente esportivo. Além disso, ambas as modalidades desenvolvem cooperação, disciplina coletiva, concentração e senso de responsabilidade dentro do grupo”, destaca.
Desafios
Carlos Roberto afirma que a vida de atleta não é fácil e que a realidade do esporte pode ser bastante exigente. “Finais de semana e feriados treinando ao invés de curtir com os amigos, treinos exaustivos que te fazem refletir se tudo aquilo realmente vale a pena, além de conciliar os treinamentos com a escola, a qual cobramos um bom desempenho, que precisam ter o estudo com principal ‘trabalho’. Incluindo um fator crucial para muitos atletas do nosso estado o qual não possui nenhuma equipe profissional, o que torna a competição com os demais estados mais complicado”, observa. Outro desafio observado pela equipe da Recriar está relacionado ao aumento do tempo que crianças e adolescentes passam conectados à internet e às telas, realidade que, segundo o professor Carlos Roberto, compete diretamente com a prática esportiva. Ele destaca que o tema tem sido amplamente debatido entre profissionais da educação e do esporte, especialmente pela diferença entre os estímulos rápidos do ambiente digital e as exigências físicas e sociais presentes dentro das quadras. Para lidar com essa mudança de comportamento, Carlos Roberto afirma que a Recriar busca uma constante atualização por meio de estudos e cursos voltados ao desenvolvimento infantil e esportivo. A proposta, segundo ele, é encontrar formas de se aproximar do universo das crianças, compreendendo suas referências, interesses e formas de comunicação. “Tentamos mostrar que o esporte também oferece experiências muito positivas, mesmo exigindo mais esforço e dedicação do que as atividades às quais muitas vezes elas estão acostumadas no ambiente digital. Quando a criança se sente valorizada, desafiada e integrada ao grupo, o engajamento acontece de forma mais natural”, ressalta.
Mensagem final
Para o professor Carlos Roberto, o propósito da Recriar pode ser resumido na utilização do esporte como ferramenta de formação humana e transformação social. Segundo ele, o projeto busca oferecer às crianças e adolescentes um ambiente saudável, pautado por valores como respeito, disciplina, convivência, responsabilidade e superação. Mais do que desenvolver atletas, a proposta da Recriar é contribuir para a formação de cidadãos preparados para os desafios dentro e fora das quadras, respeitando o tempo de aprendizagem de cada aluno e valorizando o processo de crescimento pessoal, social e esportivo ao longo da trajetória no projeto.