Evento realizado sábado, dia 25, em Tuiuty, frisa a liderança das agricultoras na gestão das propriedades e reforça a necessidade de investimentos em infraestrutura e viabilidade econômica no campo
O fortalecimento da figura feminina no contexto da agricultura familiar e a busca por melhores condições de infraestrutura no interior foram os pilares centrais do 6º Encontro Microrregional de Mulheres, realizado recentemente no distrito de Tuiuty. O evento, que reuniu agricultoras de Bento Gonçalves, Monte Belo do Sul, Pinto Bandeira e Santa Tereza, consolida-se como um espaço de intercâmbio técnico e social, reforçando o papel das mulheres não apenas no trabalho braçal, mas na gestão direta das propriedades rurais da Serra Gaúcha.
A avaliação do Sindicato dos Trabalhadores Agricultores Familiares de Bento Gonçalves, Monte Belo do Sul, Pinto Bandeira e Santa Tereza é de que o encontro superou as expectativas em termos de engajamento e integração. De acordo com o presidente da entidade, Cedenir Postal, a programação foi estruturada para oferecer suporte integral às participantes. “Foi um encontro maravilhoso, onde teve vários momentos: como o de acolhida, de palestra, de descontração, alimentação de qualidade, enfim, a gente só tem a agradecer”, afirma o dirigente.

Evolução histórica e direitos
Postal observa que a evolução do papel feminino no campo é constante e que o evento reflete um reconhecimento necessário. Para o presidente, as mulheres sempre foram a base da produção, mas o status de gestoras tem se tornado mais evidente na contemporaneidade. “A evolução está cada vez maior. Elas sempre foram protagonistas e cada vez mais estão gerenciando as propriedades, não só como no passado, no trabalho domestico, e que muitas vezes não era enxergado”, explica Postal.
Essa mudança de percepção possui raízes em lutas sindicais históricas, especialmente aquelas que antecederam a Constituição de 1988. Segundo o presidente, a inclusão das mulheres na Previdência Social foi um marco divisor. “A conquista deu-se muito pela luta do sindicato para incluir elas como protagonistas, sendo enxergadas como trabalhadoras do meio rural, porque até então elas eram invisíveis”, recorda. Atualmente, a entidade mantém o suporte jurídico para garantir que essas conquistas se traduzam em benefícios práticos, como auxílio-maternidade, auxílio-doença e aposentadorias.
Gargalos na sucessão e infraestrutura
Apesar dos avanços sociais, o setor enfrenta entraves econômicos que ameaçam a continuidade das famílias no campo. Postal é enfático ao apontar que a questão monetária é o maior desafio para a sucessão familiar hoje. “O que vem dificultando ultimamente é a viabilidade financeira das propriedades; cada vez se precisa investir mais e resulta em menor ganho”, analisa o presidente.
Somado ao fator econômico, a infraestrutura física do interior desponta como uma demanda urgente para que o empreendedorismo feminino prospere. Postal defende que o asfalto é uma ferramenta de democratização do turismo e das agroindústrias. “Precisamos que os turistas cheguem até essas propriedades. Pois eles vão até aquelas que têm condições de estradas, de asfalto, mas as mais distantes ficam mais inacessíveis e isso precisa melhorar para que a mulher, que está à frente da maioria dos empreendimentos, tenha ainda mais valorização”, pontua.

Capacitação e futuro
O Encontro Microrregional também serve como plataforma para o anúncio de novas frentes de capacitação. A entidade mantém um calendário de cursos que abrangem desde panificação até jardinagem, e projeta para o mês de maio o início do programa “Mulheres em Campo”, em parceria com o Serviço Nacional de Aprendizagem Rural (Senar). O curso abordará módulos de gestão e temas administrativos fundamentais para o dia a dia da propriedade.
No âmbito burocrático, o suporte à digitalização do campo, como a implementação da nota fiscal eletrônica, segue como prioridade. “Temos dado todo o suporte, desde cursos de capacitação e no auxílio individualizado para os nossos agricultores e agricultoras”, ressalta Postal.
Encerrando o ciclo deste ano, a organização já projeta a próxima edição do evento, que terá como sede o município de Monte Belo do Sul em 2027. Postal mantém uma mensagem de otimismo, apesar das dificuldades impostas pelo mercado. “Vale a pena investir na agricultura. É difícil sim, temos muitas dificuldades, barreiras para serem vencidas, principalmente no que se refere ao elevado custo de produção e os baixos preços quando vendemos o nosso produto. Isso precisa ser trabalhado junto com os governos para valorizar cada vez mais a nossa categoria”, conclui o presidente.