Moradores destacam qualidade de vida e oferta de serviços, mas apontam desafios na saúde e no abastecimento de água

Com características de uma pequena cidade dentro de Bento Gonçalves, o bairro São Roque se destaca pela grande densidade populacional e pela oferta de serviços que atendem não apenas moradores, mas também pessoas de outras regiões. Entre avaliações positivas e críticas pontuais, quem vive ou utiliza o bairro aponta um cenário de crescimento acompanhado de desafios, especialmente na saúde e no abastecimento de água.

Morador há mais de cinco décadas, Valdecir De Mari, de 57 anos, resume o que entende como a dualidade da região. Para ele, o São Roque é bom para viver, mas o crescimento populacional impacta diretamente a qualidade dos serviços. “Muita população, cada vez fica pior pra nós. Trânsito, saúde, envolve muita coisa”, afirma.

Saúde
A percepção de um bairro tradicional e consolidado também aparece no relato de Graziele Lopes da Rocha, que vive no São Roque há cerca de 11 anos. “É um dos mais antigos da cidade, e a gente considera um lugar bom de morar”, destaca. Apesar disso, ela aponta dificuldades no acesso à saúde, especialmente na busca por especialistas. Diagnosticada com fibromialgia, relata enfrentar obstáculos para conseguir encaminhamentos. “Eles alegam que o médico pode fazer o manejo da medicação, sendo que não dá. Eu pioro mais, e não consigo um neurologista nem um reumatologista”, conta.

A moradora também critica o sistema de agendamento na Unidade Básica de Saúde (UBS), que exige a retirada de fichas presenciais nas primeiras horas da manhã. “Tem que ir de madrugada, quatro e meia, cinco horas, senão não consegue. Poderia marcar de uma semana para outra”, sugere.

A procura pelos serviços de saúde do bairro não se restringe aos moradores. Moradora do bairro Aparecida, mas usuária da Unidade de Pronto Atendimento (UPA 24h) do São Roque, Natasha Demi relata rapidez no atendimento, mas ressalta limitações na estrutura. “Aqui é mais básico. Muitas vezes a gente precisa ser transferido de ambulância para outra unidade para fazer exames como raio-x”, explica. Segundo ela, o maior problema está na demora para exames mais complexos. “Os mais elaborados levam anos para conseguir”, ressalta.

Já na UBS São Roque, a percepção da usuária Ingrid Janer é positiva. Moradora do bairro São João, a gestante afirma que foi direcionada para atendimento na unidade, onde realiza todo o pré-natal e não tem queixas. “Sou bem atendida, uso a farmácia, tudo certo”, resume.

A procura pelos serviços de saúde do bairro é frequente entre os moradores. Rodrigo Abero, que voltou recentemente a viver na cidade e reside no São Roque, levou a filha Nathaly, de 14 anos, para vacinação na UBS. Ele destaca a agilidade e o atendimento. “Foi bem rápido, as pessoas são atenciosas”, diz. Ainda assim, compara com a UPA: “Lá demora um pouco mais”.

Transporte e cotidiano
O transporte público também entra na avaliação dos moradores. Recém-chegada ao bairro, Rosemar da Silva, que vive há um mês na localidade, considera o serviço adequado. “Pra mim está tranquilo. Só no sábado que complica um pouco, porque não tem ônibus”, relata. Acostumada a morar próximo ao trabalho anteriormente, ela agora depende do transporte para se deslocar até o Centro. Mesmo assim, avalia positivamente os horários e a estrutura. “Tem ar-condicionado, ventilação, para mim está ótimo”, salienta.

Rosemar também destaca a segurança como um ponto forte do bairro. “Dá pra andar tranquilamente de dia e de noite. Pra mim é ótimo, muito tranquilo”, afirma.

Essa percepção de segurança e boa infraestrutura também aparece no relato de Ana Carolina, de 19 anos, moradora desde sempre da região. Segundo ela, a avenida principal concentra boa parte dos serviços e garante praticidade no dia a dia. No entanto, um problema recorrente chama atenção: a falta de água. “A gente fica bastante sem água, principalmente aos sábados. É frequente”, relata. De acordo com a jovem, o tema já mobilizou a comunidade e chegou a ser discutido em ações com o poder público. “A principal demanda era o desabastecimento”, lembra.

Crescimento de serviços
Moradora há cerca de 50 anos no São Roque, Diana Machado também acompanha de perto as transformações do bairro. Para ela, apesar dos problemas pontuais, a avaliação geral segue sendo positiva.

Segundo Diana, o crescimento ao longo dos anos trouxe avanços importantes “Hoje tem mais escolas, melhorou bastante para a população”, afirma.

Comércio e crescimento
A ascensão do bairro também é percebida por quem empreende na região. À frente de uma padaria tradicional do São Roque, Camila Celant acompanha de perto as transformações locais. O estabelecimento existe há 52 anos, e está sob sua gestão há cinco.

Para ela, a expansão do bairro é evidente e positiva. “Cresceu muito, é um dos maiores da cidade. Hoje temos tudo aqui”, diz. Segundo a empresária, o perfil diversificado da população contribui para o desenvolvimento do comércio. “Temos todo tipo de público, desde o mais humilde até o empresário, os que vêm a pé e os que preferem a loja por conta do estacionamento. Temos produtos com valores acessíveis e para todos os gostos”, explica.

Na avaliação de Camila, o bairro se mostra atrativo para novos investimentos. “Todo negócio é válido aqui, porque tem público para todos”, destaca.

Apesar da avaliação positiva, ela também aponta desafios que impactam diretamente o funcionamento do comércio. “A grande questão do abastecimento de água é um problema recorrente. Sempre somos afetados, principalmente no sábado”, relata.

Ainda assim, Camila ressalta a presença de serviços e a segurança como pontos fortes do São Roque. “No geral, somos bem servidos aqui no bairro. Um agradecimento especial à Guarda Civil Municipal e à Brigada Militar, que estão sempre por aqui, seja na praça ou tomando um café na padaria”, comenta.
Sobre o impacto do crescimento no próprio negócio, ela é direta: “Positivamente. Crescimento gera renda, emprego, circulação de produtos e marcas. Que tenhamos sucesso sempre”, deseja.

Mobilidade e lazer
Essa percepção sobre os desafios do bairro também aparece na avaliação do estudante Arthur Schneider, de 18 anos, que viveu no São Roque por cerca de 15 anos. Para ele, o bairro é positivo, mas apresenta pontos que precisam de atenção. “É muito bom de morar, principalmente por ser perto de tudo, como farmácias, mercados e bancos”, afirma.

Por outro lado, ele destaca o trafego nas vias como um dos principais problemas. “Na Avenida São Roque, o trânsito é bem apertado e ruim de conviver. Com o crescimento do bairro e sem mudanças nas ruas, acabam acontecendo acidentes”, relata. Segundo ele, a situação é recorrente. “Nos anos em que morei lá, todo ano tinha vários acidentes, principalmente com motos”, completa.

Schneider também comenta sobre as opções de lazer. De acordo com ele, o bairro conta com espaços como a praça da Igreja São Roque, mas que poderia receber melhorias. “É um lugar que eu gosto, mas está meio deteriorada, podia ser melhor”, avalia. Ele também cita áreas próximas utilizadas pelos moradores. “Tem ginásios e outros espaços ali perto que são bem legais, mas nem todos ficam exatamente dentro do bairro, como a Universidade de Caxias do Sul, que fica no bairro Universitário”, conclui.