Documento mapeia 139 áreas suscetíveis a deslizamentos, enxurradas e inundações e deve orientar investimentos e captação de recursos para obras de mitigação

A apresentação dos resultados do mapeamento de locais de risco e das medidas propostas no Plano Municipal de Redução de Riscos (PMRR) de Bento Gonçalves representa um marco para o planejamento urbano e para as políticas de prevenção de desastres no município. Coordenado pela Secretaria Nacional de Periferias, do Ministério das Cidades, em parceria com o Serviço Geológico do Brasil (SGB) e com apoio da Coordenadoria Municipal de Defesa Civil, o documento consolida diagnósticos técnicos e recomendações que devem orientar ações futuras de mitigação de riscos geo-hidrológicos.

Segundo o pesquisador SGB e chefe da Divisão de Geologia Aplicada, Tiago Antonelli, a audiência pública marca a transição entre a fase técnica e o início da implementação prática das medidas propostas. “É uma etapa decisiva para o trabalho técnico avançar para a fase de execução. Estamos apresentando os resultados e discutindo com gestores e comunidade, permitindo que as recomendações possam orientar ações concretas de prevenção e redução de riscos geo-hidrológicos no município”, afirma. A iniciativa também tem como objetivo ampliar o acesso às informações, fortalecer a participação social e fomentar o debate sobre as prioridades de intervenção.

O consultor técnico da Secretaria Nacional de Periferias, Luiz Delino, Diretora do IPURB, Melissa Bertoletti, Coordenador da Defesa Civil, Rodrigo Wermuth, Tenente-Coronel, Marcelo Souza, Chefe da Divisão de Geologia Aplicada do SGB, Tiago Antonelli e a promotora de justiça, Carmem Lúcia Garcia

Mapeamento detalhado

O PMRR é um instrumento previsto na Política Nacional de Proteção e Defesa Civil e tem como finalidade apoiar os municípios na identificação, classificação e mitigação de riscos naturais. Em Bento Gonçalves, os trabalhos começaram em outubro de 2024, após três etapas de levantamento e análise técnica. Durante o processo, pesquisadores percorreram bairros urbanos e comunidades do interior, com a participação da Defesa Civil e de representantes locais, para identificar regiões suscetíveis a inundações, enxurradas, processos erosivos e movimentos de massa.

De acordo com Antonelli, o estudo resultou em um panorama abrangente das vulnerabilidades do município. “Mapeamos todas as áreas de risco médio, alto e muito alto de Bento Gonçalves. Há processos como movimentos de massa, deslizamentos, corridas de detritos, enxurradas e inundações. Também identificamos as moradias e edificações sujeitas a esses processos e propusemos obras de intervenção para as zonas mais vulneráveis”, explica. Ao todo, foram identificadas 139 áreas classificadas em diferentes níveis de risco, consideradas sensíveis e que exigem atenção do poder público.

A geografia característica da Serra Gaúcha aparece como um dos fatores determinantes para a vulnerabilidade do território. Com relevo acidentado e encostas íngremes, o município apresenta suscetibilidade natural a movimentos de massa, especialmente em períodos de chuva intensa. “É uma região naturalmente suscetível à ocorrência de deslizamentos, escorregamentos e corridas de detritos. São encostas que deslizam e podem atingir moradias. Também registramos inundações e enxurradas nos vales dos córregos, que impactam áreas urbanas e rurais”, ressalta o pesquisador.

Mais de 5,9 mil pessoas vivem em áreas de risco

Coordenadora Executiva da Divisão de Geologia Aplicada, Débora Lamberty

Os dados apresentados durante a audiência pública pela Coordenadora Executiva da Divisão de Geologia Aplicada, Débora Lamberty, reforçam a dimensão social do desafio enfrentado pelo município. O levantamento identificou 139 regiões de risco geológico, envolvendo aproximadamente 1,4 mil imóveis e cerca de 5,9 mil moradores expostos a diferentes processos geo-hidrológicos. Do total de áreas mapeadas, nove foram classificadas como de risco muito alto, 61 como risco alto e 69 como risco médio.

Os locais de risco muito alto concentram cerca de 83 imóveis e 332 pessoas, enquanto as áreas classificadas como de risco alto reúnem aproximadamente 492 imóveis e mais de 2,2 mil moradores. Já as áreas de risco médio abrangem cerca de 834 imóveis e mais de 3,3 mil pessoas. Segundo os pesquisadores, a ocupação de encostas e áreas suscetíveis a processos geológicos, somada a intervenções inadequadas no terreno e à ocorrência de chuvas intensas, aparece como fator determinante para a formação dos cenários de risco.

Para Antonelli, a avaliação representa uma ferramenta estratégica para direcionar a tomada de decisões e ampliar a capacidade de resposta do município diante de eventos extremos. “O diagnóstico técnico permitirá orientar intervenções estruturais e não estruturais por parte da prefeitura para reduzir a exposição da população e aumentar a capacidade de resposta diante de eventos extremos”, destaca.

Bairros e distritos 

O estudo também detalha a distribuição territorial das áreas classificadas. O distrito de Faria Lemos concentra o maior número de moradores em áreas de risco muito alto, com mais de 290 pessoas distribuídas em seis setores sujeitos a enxurradas, deslizamentos e corridas de massa. Além de Faria Lemos, os bairros Zatt, Municipal e Fenavinho também apresentam setores classificados como de risco muito alto. 

Entre as áreas classificadas como risco alto, o bairro Municipal apresenta o maior número de moradores expostos, com 264 pessoas em setor mapeado com risco de deslizamento na Rua José Gasperini. As áreas de risco alto estão distribuídas por diversos bairros e localidades, incluindo Eucaliptos, Universitário, Progresso, Borgo, Conceição, Vale dos Vinhedos, Barracão, Vila Nova, Santa Helena e distritos como Tuiuty. 

As áreas de risco médio abrangem bairros como São Paulo, Jardim Glória, Imigrantes, Fátima, Caminhos da Eulália e Juventude da Enologia, além de comunidades e linhas do interior. Já no bairro Zatt, na Rua João Domingos, vivem cerca de 648 pessoas em área classificada como de risco médio.

Pesquisador SGB e chefe da Divisão de Geologia Aplicada, Tiago Antonelli

Próximos passos 

Após a apresentação pública, o documento é oficialmente entregue ao município. Com o material em mãos, a administração municipal passará a ter acesso a um conjunto de recomendações de medidas estruturais e não estruturais, cabendo à prefeitura definir prioridades, planejar intervenções e buscar financiamento para a execução das obras. O PMRR também será disponibilizado no site do Serviço Geológico do Brasil, garantindo transparência e acesso público às informações.

Embora ainda não haja um cronograma definido para o início das intervenções, a expectativa é que o estudo facilite a captação de recursos junto a programas estaduais e federais. “Estamos à disposição para orientar o município na obtenção de recursos financeiros para as obras de mitigação. Como se trata de um estudo oficial do Serviço Geológico do Brasil, acreditamos que não será difícil viabilizar recursos federais e estaduais”, afirma Antonelli. Ele acrescenta que o documento representa uma base técnica sólida para a tomada de decisões e para a elaboração de projetos executivos.

O pesquisador ressalta que a prevenção de desastres exige planejamento de longo prazo, mas acredita que o avanço poderá ocorrer de forma mais ágil com a conclusão do plano. “A partir de agora, estamos disponíveis para orientar o município sobre os próximos passos. Esperamos que o processo não seja tão longo, justamente porque o estudo já oferece um diagnóstico detalhado e recomendações claras”, afirma.

Integração a iniciativa 

A elaboração do PMRR de Bento Gonçalves integra uma iniciativa nacional coordenada pela Secretaria Nacional de Periferias, que contempla dez cidades brasileiras. Os planos de Goiânia, Paulista, Santa Cruz do Sul e Teresina já foram apresentados em audiência pública, enquanto outros municípios seguem com trabalhos em andamento. A iniciativa busca ampliar a capacidade de prevenção de desastres em áreas urbanas vulneráveis e fortalecer o planejamento urbano baseado em evidências técnicas.

Em Bento Gonçalves, a conclusão do plano representa um avanço significativo na consolidação de políticas públicas voltadas à segurança da população. Ao reunir diagnóstico técnico, participação social e perspectivas de investimento, o PMRR inaugura uma nova etapa no enfrentamento dos riscos geo-hidrológicos no município. A expectativa é que o documento sirva como referência para decisões futuras, contribuindo para reduzir vulnerabilidades, proteger vidas e promover um desenvolvimento urbano mais seguro e sustentável.

Diretora do Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano de Bento Gonçalves (IPURB), Melissa Bertoletti Gauer

Planejamento urbano 

A diretora do Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano de Bento Gonçalves (IPURB), Melissa Bertoletti Gauer, afirma que o estudo passa a integrar diretamente a base técnica que orientará as decisões futuras do município. Segundo ela, a equipe já recebeu acesso ao material e iniciará um estudo aprofundado para incorporar as informações ao planejamento urbano. “Eles já enviaram o link do estudo e agora vamos analisar os dados, que servirão para embasar todo o planejamento que teremos que fazer com base nessas informações”, explica. A diretora destaca que o trabalho terá reflexos diretos em instrumentos estratégicos, como o Plano Diretor e outras políticas públicas, indicando que a incorporação dos dados exigirá esforço contínuo da equipe técnica. “Vai ser um trabalho árduo, porque os mapas vão refletir no plano diretor e em algumas ações que teremos que tomar”, acrescenta.

Melissa ressalta que o levantamento técnico é especialmente relevante diante do histórico regional de deslizamentos e eventos climáticos extremos. Para ela, o estudo representa uma ferramenta fundamental para orientar decisões e priorizar intervenções. A diretora lembra que algumas áreas críticas já vêm recebendo intervenções desde 2024, como obras de tubulação no Vale dos Vinhedos, ações na Via Trento, no bairro Fátima, em Faria Lemos e trabalhos de desassoreamento de rios em diferentes pontos do município. “Alguns pontos já sabemos que são críticos e o município já está trabalhando neles. Vai ser uma soma de esforços”, conclui.

Planejamento mais preciso e vigilância direcionada

Coordenador da Defesa Civil de Bento Gonçalves, Rodrigo Wermuth

Para o coordenador da Defesa Civil de Bento Gonçalves, Rodrigo Wermuth, a entrega do plano representa um marco na forma como o município se prepara para proteger a população.  “Com a entrega desse plano, conseguiremos focar de forma efetiva na vigilância das áreas de maior sensibilidade apontadas pelo estudo e também elaborar de forma mais assertiva o nosso plano de contingência, o PLANCON”, afirma. O coordenador destaca que, além do monitoramento, o município passa a ter condições de estruturar ações educativas e de alerta diretamente voltadas às necessidades específicas de cada comunidade. “Conseguiremos trabalhar e direcionar ações educativas e de alerta diretamente para as necessidades de cada comunidade”, acrescenta.

Respaldo científico e acesso a recursos

A inclusão de Bento Gonçalves entre as cidades contempladas por uma iniciativa nacional também é considerada estratégica. O respaldo científico fornecido pelo Serviço Geológico do Brasil reforça a credibilidade das ações planejadas e amplia as possibilidades de captação de recursos. “Temos o respaldo científico do SGB, o que garante que nossas ações não são baseadas em suposições, mas em dados sólidos. Isso nos facilita buscar recursos e a inclusão em programas da União voltados à infraestrutura e prevenção”, explica Wermuth. A articulação com programas federais é vista como fundamental para ampliar investimentos em obras estruturais e medidas preventivas de longo prazo.

Desafios do mapeamento em área de relevo acidentado

O processo de mapeamento das áreas de risco exigiu grande esforço técnico e operacional. A geografia do município, marcada por relevo acidentado e extensas áreas de encostas, impôs desafios significativos à equipe responsável pelas análises de campo. “O relevo acidentado de nossa região exige um esforço físico e técnico elevado para o acesso e a análise precisa de encostas e taludes”, relata o coordenador. A atuação da Defesa Civil durante as visitas foi decisiva para viabilizar o trabalho dos especialistas. A equipe conduziu técnicos a áreas críticas e de difícil acesso, realizou a validação histórica dos dados científicos e promoveu a escuta das comunidades locais, reunindo relatos sobre o comportamento do solo e da água em situações de chuva intensa. “Cruzamos os dados científicos com nossa memória de ocorrências e fatos reais e utilizamos nossa proximidade com os moradores para refinar o diagnóstico”, detalha.

Deslizamentos seguem como principal preocupação

Entre as ocorrências que mais preocupam a Defesa Civil atualmente, os deslizamentos de terra figuram como prioridade absoluta. A combinação entre relevo acidentado e eventos climáticos extremos amplia o potencial de danos associados às movimentações de massa. “Todas as ocorrências nos preocupam, mas nossa prioridade absoluta são as encostas e taludes. Devido à geografia de Bento Gonçalves, os deslizamentos são os eventos com maior potencial de dano”, ressalta Wermuth. Ele enfatiza que o monitoramento preventivo dessas áreas passa a ser o foco central das ações do órgão.

Eventos climáticos mais intensos e diagnóstico mais detalhado

Nos últimos anos, a percepção de risco também sofreu mudanças importantes. De acordo com o coordenador, o diagnóstico técnico aponta não apenas para a intensificação dos eventos climáticos, mas para um avanço significativo na capacidade de compreensão das vulnerabilidades do território. “O perfil mudou porque os eventos climáticos tornaram-se mais intensos e frequentes, como vimos em 2024. Mais do que um aumento de riscos, o que temos hoje é um ganho de precisão”, afirma. O estudo revelou detalhes técnicos e fragilidades do solo que antes não eram conhecidos, permitindo uma abordagem mais assertiva na prevenção.

Protocolos mais rápidos e resposta integrada

Com base nos novos dados, a Defesa Civil já prevê a atualização dos protocolos de atendimento e resposta a emergências. A meta é substituir procedimentos genéricos por estratégias específicas para cada área mapeada. “O PMRR permite que nossos protocolos deixem de ser genéricos e passem a ser cirúrgicos. Vamos refinar os gatilhos de alerta para cada setor e integrar ainda mais as ações das equipes da Prefeitura”, explica Wermuth. O objetivo é garantir respostas mais rápidas, seguras e fundamentadas em critérios técnicos.

Comunidade como parceira da prevenção

Outro eixo central da nova etapa será o fortalecimento do trabalho de orientação junto às comunidades que vivem em áreas de risco. A Defesa Civil pretende intensificar a presença nos bairros e promover reuniões diretas com moradores, além de distribuir materiais educativos adaptados à realidade de cada região. “O trabalho será focado na proximidade e na informação clara. Queremos transformar o morador em um parceiro da Defesa Civil, capacitando-o a reconhecer sinais de alerta e agir preventivamente pela segurança de sua família”, conclui o coordenador.

O estudo detalhado pode ser acessado através do link a seguir: https://rigeo.sgb.gov.br/items/484c8628-56f2-4fcf-8647-9fe11973c8bb