Relatos mostram uma região em transformação, que cresce em população e estrutura, mas ainda enfrenta desafios em infraestrutura

Localizado próximo à saída para Garibaldi, o bairro Santo Antão tem se consolidado como uma das áreas de crescimento em Bento Gonçalves. Com características que mesclam o residencial e o urbano, o local reúne casas de alto padrão, áreas verdes e, ao mesmo tempo, concentra atividades industriais e comerciais ao longo da principal via, a Rua Nelson Carraro, importante eixo de entrada e saída do município.

Esse cenário de expansão, no entanto, vem acompanhado de desafios que impactam diretamente a rotina de moradores e empreendedores.

Infraestrutura avança, mas serviços ainda são limitados

Moradora desde o nascimento, a aposentada Neusa Ranzi, de 63 anos, acompanha de perto as transformações do Santo Antão ao longo das décadas. Ela relembra um passado em que o bairro tinha características típicas de colônia, com pouca estrutura e dificuldades de acesso. “Quando eu era criança, aqui era tudo estrada de chão. Não tinha transporte, não tinha carro, não tinha comunicação. O bairro foi se desenvolvendo devagarinho. Começou com famílias tradicionais, que construíram as primeiras casas, e depois foi crescendo. Hoje, a gente tem uma infraestrutura até razoável”, conta.

Apesar dos avanços, Neusa ressalta que ainda existem problemas que precisam ser enfrentados. Um dos principais, segundo ela, é o abastecimento de água, que já chegou a ser uma situação crítica na região. “Já foi muito grave. Teve época em que caminhões-pipa vinham abastecer as caixas d’água das casas. Hoje melhorou, mas ainda é uma questão que precisa de observação”, afirma.

Ela também chama atenção para vazamentos recorrentes e acredita que esse tipo de situação contribui para as falhas no abastecimento. Para a moradora, a solução passa não apenas pelo poder público, mas também pela mobilização da comunidade. “A gente precisa se envolver, relatar os problemas, buscar soluções. Não depende só de uma pessoa, mas de todos os moradores”, diz.

Outro ponto levantado por Neusa é o transporte público. De acordo com ela, há poucos horários disponíveis e ausência de linhas aos finais de semana, o que exige adaptação por parte de quem depende do serviço. “Hoje, muitas famílias têm carro, então isso acaba diminuindo o uso do ônibus. Mas quem precisa, sente bastante essa falta”, observa.

Assistência básica

A percepção de tranquilidade é um dos aspectos positivos mais citados por moradores. O aposentado Valmir Casagrande, de 76 anos, que vive no bairro há cerca de 20 anos, destaca a segurança, iluminação e a pavimentação das ruas como pontos favoráveis. “Aqui é um lugar tranquilo. Não tem muito o que reclamar nesse sentido”, afirma.

Ainda assim, ele aponta carências que afetam o cotidiano, principalmente relacionadas ao acesso a serviços básicos. A ausência de um posto de saúde próximo é uma das principais demandas mencionadas. “Faz falta um postinho aqui perto. Hoje, a gente precisa ir até a UPA. Antes até tinha atendimento mais próximo, mas agora não atende mais essa região” relata.

Além disso, Casagrande destaca a escassez de comércio no bairro, o que obriga moradores a se deslocarem para outras regiões até mesmo para compras simples. “Às vezes falta um mercadinho. Se você precisa de algo básico, como leite, tem que ir até outro bairro, como o Botafogo ou Santa Helena”, diz.

Outro aspecto apontado é a falta de espaços de lazer estruturados. Segundo ele, há áreas que poderiam ser utilizadas como praças, mas que não estão devidamente mantidas ou aproveitadas. “Também faltam espaços de lazer melhor organizados; até existe uma área que poderia ser de lazer, mas hoje está praticamente abandonada”, relata.

Empreender no bairro revela oportunidades e desafios

Se, por um lado, moradores destacam a tranquilidade e a qualidade de vida, por outro, comerciantes enxergam no bairro um potencial de crescimento impulsionado pela localização estratégica. A Rua Nelson Carraro, além de conectar diferentes regiões da cidade, também recebe fluxo de visitantes, especialmente em períodos de maior movimento turístico.

Em um espaço gastronômico da região, a comunicação é realizada por Luiza Prota, que acompanha de perto o comportamento dos clientes. Segundo ela, o público varia. “Durante a semana, a maioria são moradores e pessoas que trabalham aqui perto. Já aos sábados, a gente recebe bastante turista”, explica.

Ela ressalta que por se tratar de um estabelecimento que depende diretamente do uso contínuo de água, como no preparo de alimentos e bebidas, higienização de utensílios e manutenção do espaço, qualquer interrupção acaba afetando toda a dinâmica de funcionamento. “A questão da água impacta bastante. Às vezes falta no meio da rotina, e isso interfere em tudo: desde a cozinha até a limpeza e o atendimento ao cliente. A gente abre a torneira e não tem água, ou a equipe avisa que acabou”, revela.

Postos de trabalho

Segundo Luiza, embora o problema já seja conhecido e, em certa medida, incorporado à rotina, ele continua sendo um fator que exige adaptação constante. “A gente acaba se acostumando, mas não deixa de ser algo que atrapalha”, afirma.

Outro desafio enfrentado pelo setor é a dificuldade de contratação de mão de obra, que, de acordo com ela, está relacionada ao acesso ao bairro. “Tem pessoas que gostariam de trabalhar aqui, mas não conseguem por causa do transporte. Quem mora mais longe acaba tendo dificuldade para chegar”, explica.

Ela também menciona que intervenções frequentes na via principal já impactaram o funcionamento do estabelecimento, especialmente no que diz respeito ao acesso e estacionamento. “Quando teve obra aqui na frente, foi bem complicado. Os clientes tinham dificuldade para entrar, não tinha onde estacionar”, relembra.

Situação semelhante é observada por outros empreendedores da região. Augusto Lazzari, que atua no setor de placas automotivas há cerca de dois anos no bairro, aponta a infraestrutura urbana como um dos principais entraves para o desenvolvimento das atividades. “A gente vê que estão sempre remediando problemas, principalmente com a água. Falta luz, as bombas param, depois volta com ar nos canos e eles acabam estourando. Toda hora estão abrindo e fechando as ruas. Você vê remendo em praticamente todas”, explica.

Além de impactar a infraestrutura, essas intervenções também contribuem para outro problema recorrente: o trânsito. De acordo com Augusto, o fluxo de veículos tem aumentado, especialmente nos horários de pico. “No fim da tarde fica bem complicado. É uma via de saída da cidade, então concentra bastante movimento”, diz.

Apesar dos desafios relacionados à infraestrutura, Lazzari destaca que ainda há vantagens em empreender no bairro, especialmente no que diz respeito ao custo dos aluguéis e à localização estratégica para determinados tipos de negócios. “O valor do aluguel, é mais acessível em comparação com outras regiões da cidade. Para o nosso tipo de serviço, a localização também faz diferença, porque a gente depende de estar próximo do Centro de Registro de Veículos de Automotores (CRVA), que é o único da cidade. Mesmo que tivesse um preço menor em outro lugar, o cliente acaba vindo aqui pela praticidade”, afirma.