Após um inverno que cumpriu as exigências de horas de frio para uma boa brotação, a sequência do ciclo enfrentou uma primavera e um início de verão com temperaturas abaixo da média histórica e chuvas frequentes, reflexo de um fenômeno La Niña de baixa intensidade modulado pelo resfriamento das águas do Atlântico Sul. Esse cenário resultou em um atraso médio de 10 a 15 dias na colheita, alterando o fluxo logístico de vinícolas e propriedades rurais.

Impactos na maturação e no grau Brix

Apesar do atraso climático, o volume de produção apresenta números positivos. Créditos: Dandy Marchetti


A evolução lenta das bagas interfere diretamente nos índices de qualidade esperados para o período. Segundo o pesquisador da Embrapa Uva e Vinho, Henrique Pessoa dos Santos, a condição térmica atual obriga o setor a recalcular as expectativas de colheita. Ele explica que, em função dessas temperaturas mais baixas, a evolução da maturação tem gerado atrasos em relação à média histórica regional. “Se considerarmos as mesmas datas de ciclos anteriores, o grau Brix (Popularmente o açucar da uva) poderá estar menor. Contudo, se as condições pluviométricas e sanitárias permitirem o atraso na colheita, pode-se atingir a maturação adequada”, afirma.
A orientação técnica para este momento de incerteza é o foco no manejo do dossel vegetativo. Santos recomenda que, diante dos riscos de podridão e da lentidão maturativa, o produtor direcione esforços para a desfolha e o desponte. Segundo o pesquisador, essas práticas visam garantir um microclima com maior incidência direta de radiação e ventilação nos cachos, fatores determinantes para a concentração de polifenóis nas variedades tintas.

Desafios fitossanitários e controle de doenças
O excesso de umidade, especialmente o registrado durante o mês de janeiro, trouxe complicações para o perfil fitossanitário de diversos vinhedos. O pesquisador da área de fitopatologia da Embrapa Uva e Vinho, Lucas Garrido, relata que as precipitações impactaram a sanidade de algumas áreas, forçando intervenções rápidas. Garrido observa que as cultivares mais precoces foram atingidas por incidências de podridão-cinzenta, podridão-da-uva-madura e podridão-ácida. “Pela condição de umidade na primavera e início de verão, o míldio (podridão) ocorreu em muitos vinhedos, requerendo a aplicação semanal de produtos para o seu controle”, destaca.
Atualmente, o míldio é observado com frequência nas pontas dos ramos e brotações novas. Garrido reforça que o desponte e o uso de produtos cúpricos são eficazes no momento, mas alerta que, se as chuvas se intensificarem entre fevereiro e março, as cultivares intermediárias e tardias também podem sofrer perdas. “É de suma importância que os produtores tenham bastante atenção no respeito do período de carência dos produtos aplicados, baseado nas doses indicadas na bula”, alerta.

Produtividade das variedades BRS e cenário local

Crédistos: Dandy Marchetti


Apesar do atraso climático, o volume de produção apresenta números positivos. A pesquisadora e coordenadora do Programa de Melhoramento Genético Uvas do Brasil, Patrícia Ritschel, avalia que a produtividade está acima da média histórica. Patrícia atribui o resultado ao inverno rigoroso, com muitos dias abaixo de 7°C e estabilidade térmica. Sobre as cultivares desenvolvidas pela pesquisa, como a BRS Magna e a BRS Vitória, a pesquisadora é enfática sobre a resposta produtiva: “Como as BRS são muito férteis, quando vem broto, vem cacho. O efeito maior, nas BRS e nas outras cultivares, no geral, foi um atraso de 10-15 dias na maturação, em função do mês de novembro muito frio”, pontua.
No âmbito da assistência técnica municipal, o chefe do escritório da Emater em Bento Gonçalves, Thompson Didoné, confirma que o cenário de atraso é generalizado e informa que as vinícolas da região já iniciaram o recebimento de variedades precoces como Bordeaux e Chardonnay, esta última apresentando ótima qualidade sanitária. Didoné ressalta que o frio de setembro foi o principal responsável pelo retardamento da safra e que isso impacta toda a organização da propriedade. “Isso implica em toda a cadeia produtiva, porque implica na contratação de mão de obra por parte do agricultor, por parte da indústria, na organização da logística da safra”, explica.

Comercialização e boas práticas
Quanto ao mercado, Didoné observa uma retração em virtude da conjuntura econômica, embora o escoamento da produção de frutas continue ocorrendo. No caso da uva, os preços acompanharam a inflação, mas o técnico da Emater enfatiza que a rentabilidade final depende da qualidade entregue. Didoné orienta os produtores a seguirem rigorosamente o cronograma das vinícolas e as normas de recebimento. “O produtor deve obedecer as boas práticas agrícolas, colher nas horas mais frescas do dia, não deixar a uva no solo e colher a uva madura”, orienta Didoné, acrescentando que a calma é fundamental, já que a safra deve se estender por até dois meses.
Sobre o futuro dos vinhos elaborados nesta safra, o pesquisador da Embrapa Uva e Vinho Celito Crivellaro Guerra prefere a cautela. Ele afirma que ainda é cedo para projeções sobre a tipicidade enológica e esta bilidade de cor, uma vez que as condições climáticas no Sul do Brasil permanecem variáveis. Segundo Guerra, a qualidade final dependerá de fatores como a região de produção, o tipo de uva e o estilo de vinho a ser elaborado, mantendo a expectativa do setor sob constante monitoramento meteorológico.