Apesar de ser um termo relativamente recente, a neurodiversidade tem ganhado espaço em discussões no campo da saúde. A palavra surgiu oficialmente em 1998, em um capítulo de livro escrito pela socióloga australiana Judy Singer, e propõe uma mudança profunda na forma como a sociedade enxerga as diferenças neurológicas entre as pessoas. “A neurodiversidade leva em conta todos os tipos de mentes. Vale tanto para aquelas consideradas neurotípicas, onde se encaixam os que não possuem transtornos ou deficiências mentais, quanto para as neuroatípicas ou neurodivergentes, como as pessoas com autismo, dislexia e outros transtornos. Cada ser humano, em sua composição cerebral, é único. O termo abrange todas as pessoas, tanto as neurotípicas como as consideradas ‘fora do padrão esperado’. Diferenças neurológicas, na visão de Singer, tratam-se de características que não são passíveis de cura e precisam ser reconhecidas e respeitadas assim como outras categorias sociais de diferença, como etnia, classe socioeconômica, orientação sexual e gênero”, revela a psiquiatra Adriana Klaus, do Tacchimed.

Já o termo neurodivergência foi nomeado pela blogueira e ativista Kassianne Sibley e se refere a corpos e mentes que funcionam de maneira significativamente diferente dos padrões sociais dominantes do que se considera “normal”. “Esse termo se originou de comunidades autistas, que acolheram pessoas com outros cérebros/corpos considerados “fora do padrão esperado”. Logo, esse termo não se limita somente a pessoas com transtornos do neurodesenvolvimento mais conhecidos como o TEA e o TDAH, mas também à deficiências cognitivas, lesões cerebrais, epilepsia, dificuldades de aprendizagem, dificuldades no processamento sensorial e diversas questões de saúde mental”, reitera.

Há muitos tipos de neurodivergência

A médica ressalta que utilizar esses termos de forma correta é fundamental. “Ambos foram criados por pessoas neurodivergentes e não por pessoas típicas. Não foram palavras impostas a este grupo. É importante que uma comunidade possa, ela mesma, se definir, pois isso acaba por criar uma identificação e não um estigma, ampliando sua inclusão social. Neurodivergente não é um termo médico ou clínico, é uma identidade!”, frisa.

Distinções

Ela afirma que somos todos neurodiversos, porque cada pessoa tem um neurotipo diferente, mas nem todos tem alguma neurodivergência. “Alguns de nós são neurodivergentes, porque tem um cérebro que está conectado e funciona de um jeito que diverge do que ainda é considerado normativo na nossa sociedade Tem pessoas assim (ou não) que experimentam um ou mais transtornos em saúde mental, como ansiedade, depressão, bipolaridade, etc, que podem ser extremamente limitantes e requerem tratamento”, enfatiza.

Segundo a profissional, a neurodivergência pode ser inata, quando a pessoa já nasce com um funcionamento cerebral diferente, mesmo que o diagnóstico aconteça mais tarde. É o caso do autismo, TDAH, dislexia, dispraxia e altas habilidades. Também pode ser adquirida, quando alterações cognitivas e comportamentais surgem após o nascimento, em decorrência de fatores como lesões cerebrais traumáticas, infecções, demências ou outras condições de saúde.

As dificuldades

No cotidiano, pessoas neurodivergentes enfrentam inúmeros desafios. De acordo com Adriana, ambientes públicos com excesso de estímulos sonoros e visuais podem gerar sobrecarga sensorial em pessoas com autismo. No mercado de trabalho, funções que exigem multitarefas constantes podem ser extremamente prejudiciais para indivíduos com TDAH. No contexto escolar, crianças com altas habilidades e um perfil de aprendizagem mais auditivo, por exemplo, muitas vezes são obrigadas a se adaptar a métodos padronizados, como copiar conteúdos extensos do quadro, sem que suas particularidades sejam consideradas. Soma-se a isso a pressão social para esconder movimentos autorregulatórios ou comportamentos repetitivos, frequentemente vistos com preconceito.

Acolhimento

Diante desse cenário, a psiquiatra provoca uma reflexão: a sociedade está realmente criando espaços seguros e acolhedores para a neurodiversidade ou ainda exige que essas pessoas se moldem a um padrão neurotípico? Para ela, é urgente construir ambientes mais flexíveis, nos quais todos possam viver e trabalhar de forma respeitosa. “Precisamos de um mundo onde a neurodiversidade seja uma realidade, e não apenas um conceito. Devemos repensar as nossas exigências e construir um mundo onde todos, dentro de suas diferenças, possam ser autênticos, sem medo de “atropelamentos”, destaca.

Batalhas

Conforme argumenta, a neurodiversidade também é uma luta política. “Busca constante de inclusão e acessibilidade, com a disponibilização de saúde e tratamentos adequados para as pessoas que necessitem. Além disso, é também a luta pela garantia de ambientes adaptados para receber essas pessoas, bem como por um sistema educacional que compreenda as diferenças de aprendizado entre os alunos e se adeque às suas necessidades. Outra finalidade é a da promoção de conscientização social sobre a temática e do respeito às neurodivergências. Porém, muito mais do que isso, diz respeito a uma mudança de perspectiva”, afirma.

Adotar uma visão neuroafirmativa, segundo a psiquiatra, é essencial. Isso significa validar todas as características da pessoa neurodivergente. “Autismo não se cura, mas a pessoa pode precisar de terapias para desenvolver habilidades que indivíduos neurotípicos aprendem apenas por observação. Em alguns casos, também é necessário tratamento farmacológico, seja para comorbidades como ansiedade ou para quadros mais graves”, explica.

Análise

Outro ponto importante é combater a ideia de que existe um teste único capaz de identificar a neurodivergência. De acordo com Adriana, não há um exame específico nem um plano terapêutico padronizado. O caminho mais adequado é uma avaliação cuidadosa, realizada por profissionais qualificados, como psiquiatras, neurologistas e psicólogos com experiência em neurodesenvolvimento.

Esse processo envolve escuta clínica, análise da história de vida, observação do funcionamento atual e acompanhamento ao longo do tempo, considerando os diferentes contextos em que a pessoa vive, como família, escola e trabalho. “Mais do que ‘fazer um teste’, o foco deve ser entender o funcionamento daquela pessoa, suas potencialidades, dificuldades e necessidades de apoio, para então pensar em estratégias de cuidado, adaptações e intervenções que favoreçam a qualidade de vida”, conclui a médica.

Condições mais conhecidas:

  • Transtorno do Espectro Autista (TEA);
  • TDAH (Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade);
  • Dislexia;
  • Discalculia;
  • Disgrafia;
  • Dispraxia (Transtorno do Desenvolvimento da Coordenação – TDC);
  • Síndrome de Tourette;
  • Transtorno de Processamento Sensorial (SPD);
  • TOC (Transtorno Obsessivo-Compulsivo);
  • Transtorno de Aprendizagem Não-Verbal (TANV);
  • Ansiedade;
  • Depressão;
  • Bipolaridade;
  • Epilepsia.