Geral

Relatos da periferia: origem e estigmas

Fábio Becker Loppe

 

Reportagem especial de:

Fábio Becker

Elisa Kemmer

Fotos: Fábio Becker

 

Polo moveleiro, industrial e turístico. O desenvolvimento econômico de Bento Gonçalves fez da cidade uma das mais atrativas de todo o Rio Grande do Sul. A prova se dá pelo fluxo demográfico. Ao passo que o Estado, conta com um fluxo migratório negativo, com um déficit de 150 mil pessoas, entre 2000 e 2010, só na última década mais de 16 mil novos habitantes chegaram à Capital do Vinho. Entre os resultados desse movimento, o mais crítico se apresenta na acentuação da desigualdade social, puxada pelo alto custo de vida e pelo distanciamento dos bairros cada vez mais periféricos.

Ao longo do último mês, a reportagem do Semanário esteve presente em algumas dessas comunidades, coletando relatos sobre as dificuldades de se viver com menos de um salário mínimo em uma cidade tão rica. Na segunda parte de “Relatos da periferia: a vida com quase nada”, destacamos a formação desses locais e a realidade de seus moradores que revelam uma vida marcada por dificuldades econômicas, preconceito, e, acima de tudo, perseverança diária.

 

À esquerda da Igreja Sagrado Coração de Jesus, a visão se limita ao morro de asfalto, uma das únicas duas conexões em sentido literal e figurado da comunidade à cidade. Nos três outros lados, porém, em qualquer direção que a vista aponte, o horizonte se revela como tradução imagética da “desigualdade social”.

Na parte de trás, se erguem cerros verdes entrecortados por vinhedos, cenário de cartão postal. “As terras do Galvão Bueno ficam para lá”, aponta com o dedo, um dos moradores locais; à direita, não mais que dois quilômetros dali, sobre o verde da paisagem se destaca o cobreado da fachada de uma empresa recém-inaugurada, com investimento de R$50 milhões; à frente, por fim, um pouco além das casinhas que se equilibram precariamente no ponto mais alto do bairro, o limite é demarcado por um comprido e alto muro de concreto branco com arames farpados no topo. Do lado de dentro da “fortaleza”, um residencial fechado. Do lado de fora, as dificuldades e a realidade comuns de zonas periféricas com menor concentração de renda.

Com aproximadamente 50 anos de existência, o Municipal é um dos bairros periféricos mais estruturados, com o mínimo de políticas públicas básicas como escola, creche e Unidade Básica de Saúde, estando assim passos é frente de outros mais novos. Apesar disso, ainda é um espelho de como se constitui a história das periferias de Bento Gonçalves, um local que condensa em si a realidade relatada também por moradores de outras comunidades semelhantes.

Em uma das ruas principais, uma menina passa saltitando em frente a um dos maiores cenários de horror da história do bairro. Na porta, a placa ainda nova de “interditado”, em contraste com os tons roxos apagados das paredes, ainda lembra e desvela as máculas do bairro, mas não são capazes de tirar o orgulho de seus moradores, que garantem que o fato não revela a vida que levam ali, onde a amizade, a luta, o trabalho duro e os sonhos de uma vida melhor são palavras-chave de suas rotinas e relatos.
Marcado pelo preconceito dos entregadores, taxistas e motoristas de aplicativo que se negam a entrar no bairro, bem como pelos empregadores que se negam a contratar seus moradores — “Já disse para meu filho colocar no currículo que mora em outro lugar, pois se dizer que vive aqui não vai ser chamado”, relata uma moradora —, pelo desamparo do desemprego e de famílias que sobrevivem de salários sazonais, por alagamentos, pelo tráfico, que já ceifou sete vidas no local só nesse ano e outras sete no último, entre outros.

Para além da desolação, no entanto, pelas estreitas ruas e vielas, o bairro vive, pulsa. É local onde vizinhos se acenam, crianças correm pelas ruas jogando futebol e basquete, a música soa pelas janelas, de onde também se originam os aromas de feijão e pão quente. Nas vendinhas que se multiplicam pelo bairro, a conta ainda pode ser feita fiado, mostra da confiança. É constituído também sobre um forte sentimento de comunidade e sonhos de uma vida e uma realidade melhor ali ou longe dali. “Queria dizer para a população que aqui somos gente trabalhadora. Os ônibus começam seis da manhã e as paradas estão sempre cheias de gente esperando para trabalhar. Coisas ruins acontecem em todos locais, e não são motivo para nos discriminar”, diz Silvana Costa dos Reis, moradora local.

O fator social

Cidade com elevado Índice de Desenvolvimento Humano, alta renda per capita média (46º maior do Brasil), reconhecida pelo empreendedorismo (tendo criado 1.082 novas empresas só no primeiro semestre de 2019), e uma taxa de desemprego de 2,7% bem abaixo da média nacional (12,3%), e cujas belezas atraíram, segundo levantamento da Administração Pública, 1,5 milhões de visitantes só no último ano. Números positivos que, muitas vezes, parecem não encaixar com a realidade de bairros que ficam a suas margens e que podem até mesmo dificultar a compreensão de como muitas famílias vivem em situação de pobreza, sem acesso a necessidades básicas.

A resposta para tamanha incongruência, porém, pode ser mais simples do que se aparenta. Para Gregório Grisa, pós-doutor em Sociologia e professor do campus do Instituto Federal de Educação (IFRS) de Bento Gonçalves, os contrastes sociais na Capital do Vinho são reflexos históricos que se apresentam também em outros pontos do país. “A atratividade das cidades mais ricas é muito maior, logo o volume de pessoas que chega em busca de trabalho e melhores serviços públicos é maior. Na medida que a cidade não consegue absorver no mesmo ritmo, os contrastes vão se consolidando, renda média alta, mas grupos específicos empobrecidos”, explica.

Segundo ele, a desigualdade e falta de infraestrutura dos bairros mais periféricos acabam também refletindo em outros problemas sociais como violência, pobreza, entre outros. “A falta de planeamento urbano implica em um conjunto de pontos negativos. Condições precárias e violência estão no pacote, tendo em vista que em ocupações ou loteamentos improvisados se concentram pessoas sem recursos, trabalho e escolaridade. Temos um círculo vicioso nesse contexto, as políticas públicas tem papel central para abrandar esse fenômeno”, resume.

Conheça as histórias de quem vive na pele a desigualdade

A periferia toma forma

Com 144 anos de existência e, até então, em constante expansão, Bento Gonçalves tem espraiado seu perímetro urbano, observando, ora por políticas públicas, ora por ocupações irregulares, a expansão de zonas periféricas para localidades cada vez mais remotas, onde o acesso aos serviços e equipamentos públicos acabam por intensificar os problemas sociais. “Em função do próprio relevo, as primeiras áreas ocupadas na cidade foram a do Centro, e dos bairros nobre. Esse pessoal que chegou depois e não teve acesso a um aluguel ou terreno no centro, foram ocupando os arredores, isso vemos no próprio plano de interesse social do município”, explica a arquiteta e urbanista, Patricia Cruz. Dessa forma, aponta, muitas famílias acabam se colocando em perigo, ao ocupar áreas consideradas de risco. “Não é que gostem de morar ali, mas é o que sobrou. São moradias em zonas de declive, ocupações em faixa de domínio de rodovia e ferroviária e mesmo embaixo de cabos de alta tensão, como no Vila Nova III”, complementa.

Professora da UCS no campus da Região dos Vinhedos, durante a disciplina que ministra, Patricia visitou bairros como o Vila Nova II e Municipal, analisando suas formações. Para ela, a concepção de periferia em Bento Gonçalves se dá em todos os sentidos da palavra. “Pela dificuldade de se adquirir um imóvel ou pagar um aluguel, ocupam-se as regiões mais distantes do centro, como o Zatt, por exemplo. Seja pelo conteúdo socioeconômico ou pelo posicionamento geográfico, a periferia de Bento se traduz em toda a conceituação da palavra”, pontua. Ainda, segundo ela, o Poder Público não foi capaz de acompanhar o crescimento territorial urbano. “A Administração abriu ruas, fez o parcelamento e deu lotes, mas não se pensou na qualidade de vida. As áreas abertas, de lazer, a acessibilidade e a infraestrutura, de modo geral, costumam ser precárias em locais assim”, assinala.

Em corroboração com Patricia, o Mestre em Planejamento Urbano e Regional, André Melati, assinala ainda, que até mesmo os programas habitacionais como o “Minha Casa Minha Vida” acabaram por intensificar esse distanciamento, dificultando o acesso a uma maior qualidade de vida aos mais necessitados. “Quando surgiu, o programa foi configurado de forma que o a compra da casa própria se dava por um limite de valor composto com o terreno e a edificação, desta forma terrenos bem posicionados e, portanto, muito caros tornavam-se inviáveis para as pessoas que conseguiam financiar suas casas. Assim, suas moradias ficaram longe dos seus locais de trabalho, escolas e serviços públicos em bairros da periferia.

Segundo ele, além da distância do centro, a própria falta de espaço nestes condomínios de apartamentos implica na baixa qualidade de vida de seus moradores. “Preocupo-me com o que vai acontecer com esses condomínios lá na periferia com o passar dos anos. Perto da BR 470, vindo de Veranópolis, há mais de 800 domicílios em uma ruazinha estreita. O muro em frente é tomado de cestas de lixo, mostrando o excesso de pessoas que moram ali”, sublinha.

Para Melati, uma solução possível para o problema seria a diluição desses edifícios em residenciais menores em “vazios urbanos” centrais, onde o município já conta com boa infraestrutura. “Temos estudos que mostram que 30% dos terrenos das cidades da região são baldios. É um terço de cada cidade com infraestrutura e serviço e equipamentos públicos próximos que estão subutilizados. As prefeituras têm o poder de gerar habitações aí, mas isso mexe nos poderes privados econômicos dos proprietários de terrenos ociosos que estão se valorizando com o crescimento da cidade”, finaliza.

Leia a série completa:

Relatos da periferia: a vida com quase nada

A vida sem acesso a direitos básicos

Preconceito faz pessoas perderem oportunidades

 

Sobre o autor

Fábio Becker Loppe

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