O sofrimento de Cristo na cruz se transforma em um caminho de esperança, alegria e renovação espiritual para a comunidade

Os fiés católicos vivenciam nesta semana, o período mais central de sua liturgia: o Tríduo Pascal. Em entrevista, o pároco da Paróquia Santo Antônio, Padre Volmir Comparin, detalha o percurso teológico e espiritual que conduz os fiéis da Paixão à Ressurreição, enfatizando que a data transcende o simbolismo comercial para se consolidar como um marco de renovação humana e espiritual.
O ciclo tem início formal na Quinta-feira Santa, com a instituição da Eucaristia e o gesto do Lava-pés. Comparin explica que a celebração é contínua, unindo os três dias em um único movimento litúrgico. “Ela começa na Quinta-feira Santa com a instituição da Eucaristia. O fim da missa da quinta nem tem bênção, pois a outra consagração só será dada no final da missa do sábado à noite, quando já se proclama o aleluia e a vitória de Cristo. É uma longa celebração”, esclarece o pároco.

A memória da dor e a fidelidade no calvário
A Sexta-feira Santa é o dia dedicado à memória da Paixão e Morte de Jesus Cristo. Segundo Comparin, o período recorda o desfecho da vida pública de Jesus que, ao apresentar um Deus de misericórdia em oposição ao rigor legislador da época, enfrentou a hostilidade das autoridades religiosas. O padre descreve o sofrimento do Cristo como um ato de fidelidade extrema, mesmo diante do desprezo público e da execução na cruz. “Fica a impressão que a terra não o quer e o céu não o quer. É a hora das trevas, é a hora da dor. Mas Jesus se manteve fiel até o fim”, afirma.
Para o sacerdote, a postura de Jesus diante do suplício é um dos maiores ensinamentos da data. Comparin destaca que, apesar das agressões físicas e morais, Cristo manteve um rosto impassível, fundamentado na confiança absoluta no auxílio divino. O pároco observa que, embora muitos tratem a data como um feriado de lazer, a tradição cristã convida a uma rotina diferenciada, pautada pela sobriedade.

Jejum, silêncio e práticas de penitência
No que tange às práticas de penitência, o pároco desmistifica obrigações alimentares e sugere uma visão mais ampla do sacrifício. “É um dia de uma comida simples, só para se alimentar. Vamos fazer abstinência de carne, não vamos comer nenhuma, nem de peixe. Além do jejum de comida, pode-se realizar jejum de aparelhos eletrônicos, de TV, de falar mal dos outros”, pontua Comparin. Ele reforça que essas ações servem para o fiel se associar ao sofrimento de Cristo, buscando uma transformação pessoal que comece de dentro para fora.
Em Bento Gonçalves, a Sexta-feira Santa é marcada por ritos tradicionais, como a Via Sacra e a Celebração da Paixão às 15 horas. Um dos momentos de maior adesão popular é a procissão com a imagem do Cristo Morto. Para o pároco, o ato não é um cortejo fúnebre comum. “Nós não estamos seguindo um defunto, mas um Cristo que, com sua paixão, nos recoloca a viver com alegria, força e paz”, explica. Localmente, o destaque é a ascensão ao Morro da Cruz, no bairro Salgado, que completa 50 anos de tradição em 2026, iniciada sob o incentivo do falecido padre Oscar Bertoldo em um local onde a cruz foi implantada ainda em 1899.

A vitória da vida e o chamado à fraternidade
A transição para a celebração do triunfo sobre a morte ocorre no Sábado Santo, durante a Vigília Pascal. Comparin detalha os ritos da luz, com a bênção do fogo e o acendimento do Círio Pascal, seguidos por leituras bíblicas que narram a história da salvação e a renovação das promessas do batismo. É o momento em que o tom de luto é substituído pelo júbilo do aleluia.
Ao analisar o impacto social da Páscoa, o pároco faz um apelo para que os gestos de confraternização sejam genuínos. Ele sugere que a troca de presentes não precisa ser pautada pelo consumo. “Um gesto simples que nós podemos fazer é de reconciliação uns com os outros. Pede perdão dentro da tua casa. Não precisa ser chocolate. Quem não pode, dá uma flor, um forte abraço sincero”, orienta.
Comparin finaliza definindo a Páscoa como a libertação das escravidões e do mal, estendendo o desejo de paz para além das fronteiras religiosas. “Páscoa é para nós vida nova. Que a ressurreição de Cristo ilumine o caminho de toda a humanidade, cristãos e não cristãos, buscando a verdade e a paz”, conclui o pároco, reafirmando o compromisso da Igreja com a fraternidade universal e a superação de conflitos e guerras no cenário contemporâneo.