O Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (SAMU) de Bento Gonçalves vive um período intenso, com altas demandas em todos os setores, abrangendo todas as categorias de atendimento, desde casos clínicos e traumas até situações psiquiátricas e transportes inter-hospitalares.
Instalado na rua Senador Alberto Pasqualini, no bairro Botafogo, o serviço registrou 4.187 chamados entre janeiro e junho deste ano. O mês de maio apresentou o maior volume, com 852 ocorrências, seguido por março, com 731. Os demais meses contabilizaram 650 chamados em janeiro, 579 em fevereiro, 668 em abril e 707 em junho.
Além disso, apenas quatro trotes foram registrados nos primeiros seis meses do ano.
De acordo com a coordenadora Melissa Bonato, os atendimentos clínicos representam quase metade da demanda em Bento Gonçalves. “Os atendimentos realizados são em porcentagem aproximada de 48% clínicos, 28% trauma, 13% psiquiátricos, 5% transportes intra-hospitalares de pacientes graves, 2% vítima não se encontrava no local do chamado e 4% recusam atendimento”, explica.

Ela revela ainda que existe uma variação conforme a época do ano. Os traumas costumam aumentar durante o verão, enquanto os atendimentos clínicos crescem no inverno. Já nos meses de agosto e setembro, os casos psiquiátricos podem chegar a representar cerca de 20% dos chamados.
Trabalho sob pressão constante
Por trás de cada acionamento existe uma equipe que precisa agir rapidamente diante de cenários muitas vezes imprevisíveis. Médicos, enfermeiros, técnicos de enfermagem e condutores socorristas convivem diariamente com situações extremas, nas quais alguns segundos podem fazer a diferença.
O médico Miguel Luiz Tonet Júnior afirma que a capacidade de manter a calma em momentos críticos é resultado de treinamento contínuo e trabalho coletivo. “A calma vem do treinamento, da experiência e do trabalho em equipe. Em situações críticas, seguimos protocolos e mantemos o foco no paciente, permitindo decisões rápidas e seguras”, assegura.
Já para o médico Lucas Galdino, um dos maiores desafios da profissão é lidar com os casos em que não é possível evitar a morte do paciente. “É preciso entender que o esforço humano tem limite diante de certas lesões e doenças. Por isso sempre damos nosso melhor durante os atendimentos para que o sucesso dele nos dê suporte para enfrentar um possível desfecho não favorável”, afirma.
As experiências vividas durante as enchentes de 2024 seguem entre as mais marcantes de sua trajetória profissional. “Aprendi com os bento-gonçalvenses a ter resiliência, determinação e foco”, relembra.
Humanização em meio à emergência
Além da técnica, os profissionais frisam a importância do acolhimento às vítimas e familiares.
A enfermeira Mirian Sartor explica que a assistência humanizada precisa caminhar junto com os protocolos médicos. “A família está passando por um momento de grande sofrimento ao ver seu familiar muitas vezes lutando pela vida. Isso significa prestar uma assistência baseada em protocolos sem esquecer de comunicar aos familiares o que está sendo feito numa linguagem simples e direta”, indica.
O enfermeiro Filipe Soares Lima ressalta que sua atuação envolve liderança da equipe, coordenação dos atendimentos e realização de procedimentos invasivos quando necessário.

Ao longo da carreira, um episódio específico alterou sua percepção sobre a profissão. “Uma ocorrência envolvendo colegas de atendimento pré-hospitalar, em uma colisão entre um caminhão e uma ambulância, foi um divisor de águas na minha vida profissional”, ressalta.
Para a enfermeira Gabriele Ferreira da Luz, a imprevisibilidade é um dos aspectos mais desafiadores dos plantões. “Podemos ser acionados para uma ocorrência e, ao chegar ao local, nos depararmos com uma situação completamente diferente daquela que imaginávamos. Isso faz com que a gente precise se adaptar o tempo todo, manter a calma e confiar muito na equipe. Outro desafio é aprender a lidar com o lado emocional. Atendemos crianças, adultos e idosos. É impossível não pensar que aquele paciente poderia ser alguém da nossa própria família e não se colocar no lugar de quem está vivendo aquela situação”, afirma.
Ela acrescenta que isso também é a parte mais bonita do trabalho. “Saber que podemos fazer a diferença em um dos momentos mais difíceis da vida de alguém é um privilégio, mas também uma grande responsabilidade, que precisa estar sempre presente, para que a rotina não nos torne indiferentes. O que para nós pode ser apenas mais um plantão, para o paciente e sua família pode representar o pior dia de suas vidas. E é por isso que cada atendimento merece o mesmo comprometimento, respeito e humanidade”, pontua.
Sobre a preparação psicológica da equipe para enfrentar situações de grande impacto emocional, Priscila Jaromicz Kensy salienta que a capacitação constante contribui para aumentar a confiança diante as situações. “A experiência profissional também é um grande aliado, o qual, com o tempo, nos ajuda a desenvolver equilíbrio emocional, mas o principal é o apoio entre colegas, saber que de alguma forma demos o nosso máximo traz um pouco de conforto”, comenta.
Entre a dor e a esperança
Os técnicos de enfermagem estão entre os profissionais que mantêm contato direto com os pacientes desde os primeiros momentos da ocorrência.
Segundo Mateus Pillat, a rotina é marcada por avaliações rápidas, controle de hemorragias, imobilizações, monitoramento dos sinais vitais e, em casos mais graves, reanimação cardiopulmonar. “O tempo no atendimento pré-hospitalar é crucial. Uma das principais habilidades é a agilidade técnica, além do trabalho em equipe e da confiança no colega que está ao seu lado. E, por fim, ter habilidade técnica para uma avaliação rápida da cena e se pode haver necessidade de apoio do suporte avançado de vida (SA)”, sublinha.
Cauana Correa complementa que é preciso rapidez de raciocínio, pensar fora da caixa e saber lidar com as situações mais adversas e inesperadas. Já Rodrigo Panciera enfatiza que a segurança da equipe, o conhecimento técnico aos protocolos de suporte a vida, assim como o pensamento rápido e preciso são os pilares básicos para um bom atendimento.
Pilat declara que o cotidiano do SAMU coloca os profissionais diante dos extremos da vida. “O que mais marca são a dor profunda de uma parada cardiorrespiratória sem sucesso e a necessidade de comunicar os familiares. Por outro lado, existe a emoção de realizar um parto bem-sucedido dentro da ambulância e ver o sorriso da mãe ao ver o bebê.”
Sobre a sensação de saber que o trabalho realizado pode ser decisivo para salvar uma vida, ele afirma ser uma emoção muito grande. “É muito gratificante, não nos vemos como heróis, mas sim como profissionais técnicos e humanos que fazem a diferença no pior dia da vida de alguém”, pondera.
“Tempo é vida”, frisa Marco Antonio de Campos, socorrista do SAMU
Responsáveis por conduzir as ambulâncias e auxiliar nos atendimentos, os condutores socorristas também enfrentam desafios diários para chegar rapidamente ao local das ocorrências. “Além de dirigir a ambulância com segurança e agilidade, auxiliamos a equipe no atendimento ao paciente, na retirada e transporte da vítima, organização e check-list da ambulância e de alguns equipamentos, garantimos que o veículo esteja em condições de uso e verificamos a segurança da cena. Também mantemos comunicação constante com o Médico Regulador e com os demais serviços de segurança”, ressalta Marcos V. Winck da Silva.

Já Marco Antonio de Campos explica que o uso do GPS Rural tem facilitado os deslocamentos para comunidades do interior, mas outros obstáculos permanecem. “Além do trânsito, enfrentamos ruas bloqueadas por obras que muitas vezes não são informadas aos serviços de socorro. Saímos com uma rota traçada e encontramos vias interrompidas no caminho. A comunicação aos serviços de socorros de bloqueios de ruas deveria ser obrigatório e feito de forma regular, assim a equipe já estaria ciente e tomaria outro trajeto para não ocorrer atrasos”, ressalta.
Segundo ele, cada minuto perdido pode influenciar diretamente no resultado do atendimento. “Nem sempre o que o comunicante relata corresponde ao que encontramos no local. Uma falta de ar pode ser, na verdade, uma parada cardiorrespiratória. Por isso, tempo é vida”, alerta.
Atualmente, o SAMU de Bento Gonçalves conta com quatro ambulâncias em operação, uma Unidade de Suporte Básico, uma Unidade de Suporte Intermediário e duas Unidades de Suporte Avançado, além de duas motolâncias. Conforme a coordenação, equipes extras são mobilizadas apenas em situações excepcionais, como catástrofes.
Como ajudar a salvar uma vida
Os profissionais reforçam que a população desempenha papel fundamental para o sucesso do atendimento.
O médico Thyago Anzolin Coser orienta que a pessoa que aciona o serviço permaneça ao lado da vítima, mantenha a calma, informe corretamente o endereço e siga as orientações médicas recebidas até a chegada da ambulância, além de deixar alguém no local aguardando a ambulância e acenar quando a avistar.
Lucas Galdino acrescenta que informações precisas permitem definir qual recurso deve ser enviado. “É fundamental que o solicitante esteja no local e saiba informar se o paciente respira, se está consciente, quantas vítimas existem em um acidente e quais são as condições apresentadas”, expressa.
Segundo ele, quando alguém distante da ocorrência faz a ligação, informações importantes podem ser perdidas, comprometendo tanto o envio adequado da equipe quanto a realização dos primeiros socorros orientados pela central. “Temos que lembrar que nosso recurso é finito e enquanto estamos fazendo um atendimento pode acontecer um acidente ou ter um outro chamado mais grave que demandará um recurso maior”, conclui.





