Em novembro, o Residencial Novo Futuro, no bairro Ouro Verde, em Bento Gonçalves, completa 15 anos desde a entrega dos apartamentos aos moradores. Construído por meio do programa Minha Casa, Minha Vida, o condomínio abriga cerca de 420 famílias e, pelo tamanho da comunidade, tem características de um bairro dentro do bairro.
Adaptação à nova realidade
A entrega dos apartamentos representou a possibilidade de ter uma moradia própria para centenas de famílias. No entanto, a mudança também trouxe uma rotina diferente: além de cuidar dos próprios imóveis, os moradores precisavam compartilhar espaços e participar das decisões relacionadas ao condomínio.
A Prefeitura informou que sua participação inicial envolveu a doação do terreno e a indicação dos beneficiários. O financiamento e as regras de propriedade foram estabelecidos diretamente entre os moradores e a Caixa Econômica Federal.
No inicio, a Universidade de Caxias do Sul (UCS) desenvolveu um projeto de acompanhamento das famílias. Coordenados pela professora e psicóloga Anni Breitenbach, uma equipe começou a trabalhar em setembro de 2013. Segundo Anni, a ideia inicial era entender as necessidades da comunidade e oferecer atividades de capacitação.
No início, encontros eram realizados na universidade. Enquanto as crianças participavam de oficinas e atividades de leitura, os adultos ajudavam a apontar o que poderia ser feito. Entre as demandas, Anni lembra que estava a oferta de cursos de informática.
Com o tempo, a equipe percebeu que os desafios iam além da formação profissional. A participação dos moradores nas atividades foi menor do que o esperado, mesmo com transporte e outras facilidades oferecidas. Por isso, os profissionais passaram a visitar o condomínio e a participar das reuniões da administração. “As demandas foram mudando”, conta Anni. Segundo ela, questões como a convivência entre vizinhos e a organização das despesas do condomínio eram mais relevantes.
O projeto tinha duração prevista de um ano e meio e terminou em abril de 2015. Para Anni, o trabalho ajudou a dar os primeiros passos na organização da comunidade, mas seria importante manter o acompanhamento para atender às necessidades que surgissem ao longo do tempo.
O que ficou
Luís Eduardo Oliveira, de 77 anos, mora no Novo Futuro desde o início. Aposentado e pastor, ele recorda que os primeiros anos foram de entusiasmo. “Era muito lindo, tudo novo, pintado e ajeitado”, lembra.
Para ele, a perda da organização ao longo do tempo não pode ser explicada por um único fator. “O que faltou principalmente foi a união”, afirma. Ele recorda que, no começo, tinham mais pessoas dispostas a colaborar, mas parte delas acabou desistindo.
Na rotina do condomínio, Oliveira também encontra motivos para cuidar do espaço onde vive. Gosta de observar o movimento ao redor, estar perto dos animais e cuidar de uma pequena horta na área verde do local.
A relação com os vizinhos é um dos aspectos positivos citados por Sônia dos Santos, que vive no condomínio há dez anos. “Eu não tenho problema com nenhum vizinho. Bem pelo contrário, quando a gente precisa de uma coisa, podemos contar com eles”, conta.
Helena Garcia da Silveira, que mora no residencial há dois anos com a filha e os dois netos, também considera tranquila a vida no local. Os netos, de 12 e cinco anos, brincam nos espaços disponíveis do condomínio.



Limpeza e manutenção

A necessidade de conservação das áreas comuns está entre as principais demandas dos moradores ouvidos pela reportagem.
Na sexta-feira, 16 de outubro, uma força-tarefa coordenada pela Promotoria de Justiça Especializada de Bento Gonçalves esteve no residencial. A ação contou com apoio da Brigada Militar, da Guarda Civil Municipal, do Corpo de Bombeiros, da Defesa Civil, do Conselho Tutelar e de engenheiros da Prefeitura.
A iniciativa faz parte de um inquérito civil que apura denúncias ambientais e estruturais. Entre as situações investigadas estão o depósito irregular de resíduos, problemas no esgotamento sanitário, ligações clandestinas e alterações feitas pelos próprios moradores. Também está sob apuração a situação de um terreno que teria cedido em um dos blocos, trazendo risco de colapso.
O síndico, Michel Pagliosa ressalta que, na avaliação dele, os problemas identificados estão relacionados às caixas de passagem e às tubulações, e não à estrutura ou às fundações dos prédios.
Na visita da reportagem, três moradores estavam mobilizados na limpeza dos espaços comuns.
Luis Eduardo Oliveira conta que procura cuidar da área próxima de seu apartamento e que paga por serviços de limpeza quando necessário.
Esgoto e pintura
Sônia dos Santos conta que o cano da pia de seu apartamento está sem uso. Segundo ela, a decisão de bloquear uma tubulação foi tomada depois que água e sujeira do esgoto invadiram o imóvel. “Eu tive que trancar de novo porque a água tava invadindo lá na porta dos quartos”, relata. Sônia avalia que, com tantas famílias, o síndico precisa da colaboração dos moradores para atender às demandas.
Por ser um condomínio particular, a manutenção da área interna cabe aos moradores e à administração. Já o município responde por serviços públicos, como coleta de lixo, iluminação, vias de acesso e redes públicas de água e esgoto.
Manutenção
Síndico do residencial há quase dez anos, Michel Pagliosa afirma que a baixa arrecadação e a inadimplência dificultam a manutenção dos espaços comuns. Segundo ele, a taxa de manutenção é de R$ 10, enquanto o fundo de reserva fica entre R$ 2 e R$ 3, valores que considera insuficientes para cobrir os serviços necessários.
Pagliosa relata que já tentou convocar assembleias para discutir o aumento das cotas, mas muitos moradores não participam. Segundo ele, uma das prioridades da administração é manter o pagamento da água em dia, enquanto outros serviços acabam dependendo dos recursos disponíveis.
Os desafios da segurança no condomínio
Luís Eduardo Oliveira, morador do Residencial Novo Futuro desde o início, lembra que o condomínio tinha guarita e portões em funcionamento. Hoje, o acesso é aberto, permitindo a circulação de pessoas que não moram no local. Ao longo dos anos, o residencial enfrentou episódios de violência e problemas relacionados ao tráfico de drogas.
Para Oliveira, a participação dos moradores nos cuidados com os espaços comuns diminuiu com o tempo. O residencial também ficou conhecido pelo apelido de “Carandiru”, associado à criminalidade. O morador recorda episódios de violência, incluindo homicídios registrados no local.
O aposentado também relembra as dificuldades enfrentadas pela família quando o filho mais novo se envolveu com drogas, nos primeiros anos do residencial. “Passamos por momentos muito difíceis”, conta.
Segundo Oliveira, a família buscou apoio na igreja e contou com a ajuda da Justiça para enfrentar a situação. Atualmente, o filho está bem, trabalha e mora com os pais.
Operação
Em 13 de março de 2026, o residencial foi alvo de uma operação integrada das forças de segurança para combater o crime organizado e o tráfico de drogas. Durante a ação, dois homens, de 28 e 57 anos, foram presos.
As equipes apreenderam 936 gramas de crack, 747,9 gramas de cocaína, 30 gramas de maconha, 57 comprimidos de ecstasy, 25 munições calibre .12, quatro balanças de precisão, dois celulares, um caderno com anotações relacionadas ao tráfico e R$ 356,70 em dinheiro.
Em 2025, foram registrados dois homicídios no Residencial Novo Futuro. Neste ano, até ofechamento desta edição, não houve registros desse tipo de ocorrência no local. Oliveira avalia que a segurança melhorou, principalmente pelo aumento da presença policial. Ele conta que chegou a ver oito viaturas nas redondezas e considera importante que o policiamento seja frequente.





