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O município enfrenta um desafio que, muitas vezes, permanece invisível aos olhos de quem não vive essa realidade: o desaparecimento de seus cidadãos. Enquanto as enchentes de 2024 trouxeram à tona a ausência de algumas pessoas, o contexto geral revela um problema mais profundo e contínuo.
Nos últimos anos, a cidade tem visto um número preocupante. Até o fechamento desta edição foram contabilizadas 47 pessoas nesta situação no município, sendo 25 mulheres e 22 homens. Segundo informações do site da Polícia Civil do Estado, o último caso não resolvido ocorreu no dia 17 de fevereiro. Já o mais antigo cadastrado no site é do dia 1° de novembro de 2019.

Das 47 pessoas, quatro são das enchentes de 2024, sendo: Lourdes Helena Lazarini, Nelsa Faccin Gallon, Isabel Velere Antonello Gallon e Carine Milani. No entanto, os dados estão desatualizados, sendo que dois moradores que já foram encontrados ainda constam no site.
A reportagem visa alertar sobre este problema no município, mas não se responsabiliza por possíveis nomes que estão contabilizados oficialmente pelo órgão e podem já ter sido encontrados. Confira a lista completa de pessoas desaparecidas em Bento Gonçalves e em todo o Estado pelo link https://www.pc.rs.gov.br/desaparecidos. Será necessário colocar o filtro por município. Ainda é possível selecionar por faixa etária, sexo, período e até mesmo nome.
Números alarmantes para Bento
Segundo os dados no site oficial da Polícia Civil, neste ano desapareceram duas pessoas em Bento Gonçalves, sendo uma mulher, no dia 13 de janeiro, de nome Sabrina Fátima de Oliveira de Lima e um homem do dia 17 deste mês, de nome Adriano da Silveira de Lima. Ainda há 11 pessoas sem localização do ano de 2025, 10 de 2024, três de 2023, oito de 2022, quatro de 2021, oito de 2020 e um de 2019.
De acordo com a Secretaria de Segurança Pública do Rio Grande do Sul, este problema não está restrito apenas a um fator, abrangendo uma gama de circunstâncias, desde problemas familiares até situações de violência.
Segundo o cientista político e professor da Universidade de Caxias do Sul (UCS), João Ignacio Pires Lucas, o tráfico de pessoas é tão preocupante quanto o de drogas neste contexto. “Se formos ver pelo crime organizado, hoje esta situação é tão ou mais forte. Isso ocorre internacionalmente, sendo um grande motivador deste problema, especialmente de pessoas jovens; mas existem vários motivos para isso, inclusive em relação a órgãos humanos, escravidão e prostituição. Temos um volume constante de pessoas sumindo pelo mundo, em que essas causas se destacam e são fruto das relações humanas, da criminalidade, da violência”, ressalta o pesquisador.

Pires alerta que é preciso ter cuidado redobrado com crianças e jovens, principalmente se tratando de pessoas mais suscetíveis a caírem em golpes. “Verificamos muitos jovens que buscam sobrevivência e se arriscam muitas vezes com negócios ilícitos. Essa também é uma preocupação que as famílias têm que ter, pois no tráfico internacional de pessoas, as propostas são vendidas como se fossem uma grande oportunidade. Mentem e ludibriam esses jovens”, afirma.
Dados que assustam
Conforme apontam os números no Sistema Nacional de Informações de Segurança Pública, Prisionais, de Rastreabilidade de Armas e Munições, de Material Genético, de Digitais e de Drogas (Sinesp) juntamente com o Relatório Estatístico das Autoridades Centrais, de 2015 a 2025 (dados contabilizados até o fechamento desta edição), no Brasil são 844.896 desaparecidos e no Rio Grande do Sul são 90.093 pessoas, atrás apenas do Estado de São Paulo, com 243.908. Com os números totais do país são em média 210 pessoas que somem por dia no Brasil.
Os dados podem variar dependendo da pesquisa e período, e não há uma confirmação de que as informações estão atualizados em relação a pessoas que já foram encontradas, mas ainda podem estar no sistema, como é o caso de alguns moradores de Bento Gonçalves.
Segundo o pesquisador e professor do curso de psicologia da Universidade Presbiteriana Mackenzie (UPM-SP), Marcelo Moreira Neumann, os parentes dos desaparecidos acabam muitas vezes desistindo. “Não se tem um trabalho continuado, do ponto de vista da investigação e que poderia levar esse alento para as famílias que estão procurando seus filhos. Independente se são menores de 18 anos ou adultos, há um desgaste e uma desistência, porque você não vê muito investimento”, pontua.

Iniciativas para encontrar
Gustavo Kist, comandante do Corpo de Bombeiros Militar de Bento Gonçalves ressalta que existem diversos mecanismos para encontrar pessoas desaparecidas. “Buscamos todas as informações para ajustar a operação de buscas, informando o escalão superior, e solicitando apoio de outras instituições, inclusive de outros estados, caso necessário, o que depende do ambiente de busca, que poderá ser urbano, parcialmente urbano, rural ou aquático. Usamos todos os recursos disponíveis do Corpo de Bombeiros e os demais que são disponibilizados para operação de buscas, como: viaturas, embarcações, drones, sonares, mergulhadores, cães e aeronaves”, pontua.
Kist ressalta que há uma parceria de trabalho com a Polícia Civil para a localização de pessoas de forma mais rápida e eficaz. “A fim de traçar diretrizes de atuação e perseguição, visando o encontro das vítimas e estruturação de buscas, que proporcionaram o encontro mais rápido de desaparecidos em locais de difícil acesso. Sempre visamos salvar vidas e resguardar patrimônio. As operações são interagências (ações conjuntas e coordenadas envolvendo Forças Armadas, polícias civil e militar, órgãos de inteligência e agências civis), cada qual sob sua competência constitucional, porém com o mesmo foco: a localização de eventuais vítimas”, ressalta.
Segundo ele, nos últimos meses houveram diversos casos de desaparecimentos próximos de rios e entradas em matas desconhecidas, onde foram utilizados os recursos disponíveis e em casos mais extremos, equipes de binômios com cães ou mergulhadores.

de ondas sonoras sob a água para detectar, mapear
e medir distâncias de objetos submersos. Foi usado
para localizar o corpo do último desaparecido no Rio Taquari.
Para reencontrar pessoas, as primeiras horas após o desaparecimento são essenciais no processo de localização. Dessa forma, a Polícia Rodoviária Federal (PRF) possui o sistema Sinal Desaparecidos, com o intuito de encontrá-las o mais rápido possível.
Para utilizá-lo é simples: basta acessar o site “desaparecidos.prf.gov.br” e preencher os dados do noticiante e da pessoa desaparecida, com o nome, telefone e endereço, bem como as informações sobre o caso.
Após o registro, todos os policiais de plantão, em um raio de 500 quilômetros do local da ocorrência, serão imediatamente comunicados do ocorrido. Por isso, quanto mais rápido for feito o registro no sistema da PRF, maiores são as chances de localização.
O serviço funciona todos os dias da semana, 24 horas por dia. Além do site, o registro também pode ser feito via telefone. Para isso basta ligar no número de emergência da PRF, 191.
O registro no sistema Sinal Desaparecidos da PRF não substitui a confecção do Boletim de Ocorrência na Polícia Civil, que não precisa ser feito após 24 horas, isto é, deve ser realizado assim que se notar a ausência do familiar/conhecido. Porém, comunicar a uma autoridade fato criminoso que não existiu é crime previsto no artigo 340 do Código Penal com pena de detenção, de um a seis meses, ou multa. Ainda é indicada a busca em hospitais, no Instituto Médico Legal (IML) e em unidades de pronto atendimento.
Além disso, o Sistema Nacional de Localização e Identificação de Desaparecidos (SINALID) centraliza informações de 18 estados, facilitando buscas, inclusive em sistemas prisionais. Neste contexto, pelo Programa de Localização e Identificação de Desaparecidos (PLID), além da denúncia em alguma delegacia, é possível contatar o Ministério Público do Estado. Por fim, há o aplicativo Sinesp Cidadão para consultar e informar localização atual de pessoa desaparecida.