Levar atendimento, orientação e cuidado a comunidades em situação de vulnerabilidade social enquanto transforma a formação de futuros profissionais da saúde. Esse é o propósito das expedições de voluntariado promovidas pelo Centro Universitário da Serra Gaúcha (FSG) em parceria com a Karibu, iniciativa que vem ampliando alcance, número de participantes e impacto social.
Neste ano, o projeto leva estudantes para duas regiões marcadas por desafios sociais e riqueza cultural: a comunidade indígena Três Unidos, na Amazônia, formada por indígenas da etnia Kambeba e a comunidade Barro Branco, no Sertão de Pernambuco. Antes mais restrita, a proposta agora amplia a participação de alunos de diferentes cursos da área da saúde.
Na Amazônia, a missão acontece entre os dias 25 e 31 de julho, sendo voltada aos estudantes de Medicina Veterinária. Os participantes atuarão em consultas, vacinação, prevenção de parasitas, orientações sobre saúde animal e ações educativas junto à comunidade indígena Três Unidos, localizada dentro da Área de Proteção Ambiental do Rio Negro.
Já no Sertão pernambucano, entre 20 e 26 de julho, estudantes de Medicina, Psicologia, Fisioterapia, Nutrição, Enfermagem e Fonoaudiologia participarão de triagens, atendimentos básicos de saúde, rodas de conversa e ações educativas voltadas ao bem-estar da população local.
Para Fernanda Sartor Meinero, docente do curso de Direito e responsável pela internacionalização acadêmica, o projeto representa uma mudança importante na forma como a universidade enxerga a formação acadêmica. “Não acontece apenas quando o aluno sai do país. Ela também ocorre quando ele amplia repertórios culturais, humanos e sociais a partir do contato com diferentes comunidades, territórios e saberes”, afirma.

Segundo ela, a instituição avalia a primeira experiência, que ocorreu em fevereiro, de forma muito positiva, tanto pelo impacto direto nas comunidades atendidas quanto pelos desdobramentos gerados após o retorno dos estudantes. “A experiência não se encerrou com a viagem: os alunos multiplicaram os conhecimentos adquiridos com seus colegas, compartilharam relatos da vivência e contribuíram para sensibilizar a comunidade acadêmica sobre as realidades sociais conhecidas durante a expedição. Além disso, a mobilização continuou por meio de campanhas para arrecadação e entrega de materiais de higiene à comunidade atendida, demonstrando que o vínculo criado ultrapassou o período da missão”, pontua.
Um dos primeiros desafios, segundo ela, foi criar e fortalecer a cultura do voluntariado dentro da comunidade acadêmica. “Embora os estudantes da área da saúde já tenham contato com práticas de cuidado, uma expedição desta natureza exige um passo além: disposição para sair do ambiente institucional tradicional, vivenciar realidades distantes, lidar com diferentes contextos sociais e compreender o voluntariado como uma experiência de troca, responsabilidade e compromisso com o outro. Do ponto de vista logístico, os principais desafios envolvem a distância, os custos de deslocamento, a organização de transporte, hospedagem, alimentação, segurança e estrutura mínima para a realização das atividades. Pedagogicamente, os desafios passam pela adequação da linguagem, pela compreensão das regionalidades, pela escuta das demandas locais e pelo cuidado para que o conhecimento acadêmico seja compartilhado de forma acessível e respeitosa. Essas dificuldades, contudo, foram superadas com preparação prévia”, avalia.
De acordo com Fernanda, a parceria com a Karibu contribuiu para garantir que as ações desenvolvidas respeitassem as necessidades e a cultura de cada comunidade atendida. “A proposta se baseia no voluntariado consciente, na geração de impacto socioambiental mensurável, na promoção de imersões culturais verdadeiras e na construção de relações mais equânimes com as comunidades. Isso contribui para que a expedição não seja planejada de forma externa ou impositiva, mas em diálogo com as necessidades concretas dos territórios. A atuação da Karibu ajuda a garantir segurança, organização logística, preparação dos participantes e respeito às lideranças locais, aos costumes, à linguagem, aos tempos e às formas de vida de cada comunidade”, evidencia a docente.
Aprendizado que ultrapassa a sala de aula
Além do impacto social nas comunidades atendidas, a experiência é vista pela instituição como uma ferramenta de formação humanizada para os futuros profissionais da saúde.
Ao atuar em regiões com limitações de acesso à saúde, água, alimentação e infraestrutura, os estudantes são colocados diante de situações reais, imprevisíveis e profundamente humanas, experiências difíceis de reproduzir apenas em ambiente acadêmico.
A convivência com comunidades indígenas e sertanejas também proporciona vivências culturais que fazem parte da programação, incluindo oficinas, rodas de conversa, apresentações culturais, trilhas, artesanato e integração com lideranças locais.

Após a viagem, todos os participantes tatuaram em suas peles um grafismo Kambeba que representa proteção e força. “Eles ficaram tão encantados por tudo o que viveram e aprenderam que decidiram guardar essa memória para sempre em suas mentes e corpo. Isso prova o quanto a viagem vai além dos aprendizados para fora de sala de aula, são vivências para a vida toda”, ressalta.
Após vivenciarem uma expedição desse nível, é possível perceber nos estudantes uma postura mais sensível, madura e consciente em relação à profissão, como aborda a professora. “Eles tendem a compreender melhor que o cuidado em saúde não se resume à técnica, mas envolve contexto social, escuta, linguagem acessível, empatia e respeito à realidade de cada pessoa atendida. Essa mudança aparece na forma como passam a olhar para o paciente, para a comunidade e para os próprios limites do atendimento tradicional. Também se percebe maior compromisso com a humanização, com o trabalho em equipe e com a responsabilidade social da formação acadêmica”, reitera.
Expansão do projeto
O Centro Universitário trabalha na ampliação das expedições para outros cursos e até para experiências internacionais. A proposta é consolidar um modelo de voluntariado universitário estruturado, com acompanhamento pedagógico, impacto social mensurável e alinhamento à Agenda 2030 da Organização das Nações Unidas (ONU).
Para a instituição, o projeto representa um marco por integrar extensão universitária, formação prática, internacionalização e compromisso social em uma única experiência. “A universidade forma, o aluno compartilha conhecimento com a comunidade e retorna transformado por aquilo que aprende com ela. É uma troca que produz crescimento acadêmico, humano e social”, conclui a docente.
Experiência enriquecedora
O programa é exclusivo para alunos da FSG. Bianca de Moura Jank, aluna de Fisioterapia que participou da expedição em fevereiro conta que sempre teve uma vontade grande de fazer viagens de voluntariado. “Associar isso à prática do meu curso só foi um impulso maior. Acredito que a maior experiência é conhecer pessoas com uma vida completamente diferente da nossa e poder se conectar verdadeiramente. Além disso, pude ter meu primeiro atendimento com fisioterapia respiratória na Amazonia!”, revela.
Segundo ela, “estar diante de um paciente real e necessitado te faz agir e obter capacidade de raciocínio clínico, foi muito proveitoso nesse quesito. Me fez perder o medo de atuar, e se colocando em uma condição de pressão, onde muitas vezes não tinhamos todos os equipamentos necessários, fez-me criar uma capacidade de improvisação”, finaliza.





