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Pagamento da uva atrasa e compromete produtores

Negociações sem contrato formal ampliam a insegurança dos agricultores, enquanto o setor aponta diferentes realidades entre as vinícolas

Embora o parcelamento seja uma prática tradicional no setor vitivinícola, agricultores relatam que, nos últimos anos, os atrasos nos pagamentos têm se intensificado, comprometendo o planejamento financeiro das propriedades e dificultando o cumprimento de compromissos. Entre as principais reivindicações está a formalização de contratos que estabeleçam prazos definidos para a quitação da produção.

Segundo o presidente do Sindicato dos Trabalhadores Agricultores Familiares de Bento Gonçalves, Monte Belo do Sul, Pinto Bandeira e Santa Tereza, Cedenir Postal, a situação não se restringe a um único município ou empresa. Conforme ele, há registros de atrasos envolvendo vinícolas da região, embora o sindicato prefira não identificar os estabelecimentos.

Parcelamento é comum

A modalidade faz parte da dinâmica do setor vitivinícola. No entanto, conforme o sindicato, o problema está no descumprimento dos prazos que tradicionalmente eram praticados entre produtores e empresas. “São raros os casos de empresas que quitam toda a produção logo após a safra. Inclusive, não tenho informação de empresas de Bento Gonçalves que façam isso”, afirma Postal.

De acordo com o presidente do sindicato, ainda há empresas que sequer concluíram o pagamento referente à safra de 2025, enquanto já iniciam a quitação da produção colhida em 2026. Em outros casos, apenas uma parte do valor foi repassada, com previsão de pagamento parcelado até o fim do ano ou até mesmo durante a próxima safra. “Os produtores precisam desse dinheiro para honrar financiamentos, comprar adubos, defensivos e outros insumos. A uva já está nas mãos das vinícolas e o pagamento deveria ocorrer de forma justa. Além disso, com as taxas de juros elevadas, esse recurso poderia estar rendendo ou ajudando a reduzir os custos da produção”, observa.

Atraso compromete planejamento

Produtor de uva em uma propriedade localizada no distrito de São Pedro, em Bento Gonçalves, um agricultor afirma que o parcelamento sempre fez parte da comercialização da produção, mas os atrasos se agravaram nas últimas safras.

Ele explica que o acordo tradicional previa o pagamento em três ou quatro parcelas até dezembro, sendo que uma parte dos recursos costumava ser liberada antes de junho, período em que vencem financiamentos utilizados para custear a produção. “Neste ano, só recebemos a safra de 2025 em maio. Da safra de 2026 ainda não recebemos nenhum valor e também não temos qualquer previsão de pagamento”, relata.

Sem receber os valores previstos, a família precisou renegociar empréstimos bancários destinados ao custeio da lavoura. Segundo o agricultor, a situação compromete o planejamento da propriedade e dificulta a continuidade dos investimentos. “A falta desse dinheiro interfere em tudo: no desenvolvimento da propriedade, no pagamento dos financiamentos e, principalmente, na compra dos insumos para a próxima safra”, conta.

Baixa nas vendas

O produtor diz que entrega sua produção para três empresas privadas. Segundo ele, cerca de 40% da uva foi destinada à empresa que apresenta os maiores atrasos, enquanto outra, responsável por aproximadamente metade da produção, efetuou apenas parte do pagamento previsto e também não apresentou cronograma para quitar o restante. Apenas uma delas, responsável por cerca de 10% da produção, estaria cumprindo os pagamentos conforme o combinado.

Conforme o agricultor, as empresas que estão atrasando os repasses justificam a situação com dificuldades financeiras e queda nas vendas. “O que nos foi informado é que elas fizeram investimentos, precisam pagar os próprios compromissos e que as vendas estão abaixo do esperado. Com isso, priorizam as contas delas e deixam os produtores esperando”, afirma.

Contratos são defendidos

Segundo Postal, atualmente as negociações são feitas apenas de forma verbal, sem documentos que garantam maior segurança às partes. “Nós, enquanto sindicatos e por meio da Comissão Interestadual da Uva, defendemos a criação de um contrato de compra da uva que estabeleça datas de pagamento. Isso daria mais segurança aos produtores, mas existe uma resistência muito grande por parte das vinícolas”, ressalta.

Na avaliação do produtor entrevistado, a formalização também contribuiria para reduzir a insegurança nas negociações. “Um contrato ajudaria muito. Além de garantir os prazos, evitaria a perda do poder de compra do dinheiro ao longo do tempo. Se o valor estivesse com o produtor, poderia até estar rendendo juros”, conclui.

Diferentes realidades

Enquanto produtores e entidades representativas relatam atrasos nos pagamentos da uva, o presidente da União Brasileira de Vitivinicultura (Uvibra), Jones Valduga, afirma que a situação não ocorre de forma generalizada. Segundo ele, há empresas que já concluíram a quitação das safras e outras que seguem cronogramas previamente acordados com os fornecedores. Na avaliação do presidente, a cadeia apresenta realidades distintas e os casos de atraso não representam, necessariamente, todo o setor. “Historicamente, muitas empresas realizam pagamentos ao longo de determinados períodos, especialmente porque a transformação da uva em vinho, espumante ou suco exige ciclos produtivos e comerciais mais longos do que outras atividades agrícolas”, explica.

Conforme o presidente, as negociações são realizadas diretamente entre produtores e vinícolas, levando em consideração aspectos como volume entregue, qualidade da uva, histórico da relação comercial e as condições de mercado de cada safra, sempre seguindo a tabela do governo. Para ele, as condições acordadas devem ser conhecidas previamente e cumpridas pelas duas partes.

O presidente também ressalta que fatores como estoques elevados, dificuldades de comercialização, acesso ao crédito, custos financeiros e oscilações do mercado podem afetar o fluxo de caixa das vinícolas. “Isso não significa que o atraso de pagamentos deva ser considerado normal. A UVIBRA defende que, diante de dificuldades, haja transparência, negociação e formalização dos compromissos assumidos entre as partes”, afirma.

Sobre a proposta de adoção de contratos formais, Valduga considera que a medida pode ampliar a segurança jurídica, a previsibilidade e a transparência nas negociações. Segundo ele, esses instrumentos podem estabelecer critérios para qualidade, volume, cronograma de entrega e condições de pagamento, desde que sejam elaborados de forma equilibrada entre produtores e vinícolas.

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