Uma família da localidade de Santa Bárbara, em Santa Tereza, na Serra Gaúcha, procurou o Jornal Semanário para relatar danos na propriedade e a preocupação com a segurança da própria casa. Segundo os moradores, os problemas teriam sido provocados por uma obra de substituição de bueiros e melhorias na drenagem, que integra os trabalhos de reconstrução da ERS-431. Parte do terreno onde fica a residência sofreu um desmoronamento no dia 22 de setembro, um dia depois de a região registrar aproximadamente 135 milímetros de chuva.
A intervenção, que começou em maio deste ano, integra uma obra do Estado, executada pela empresa Encopav, conforme as informações repassadas à família. Desde o episódio, os moradores buscam uma solução para a recuperação do terreno. No entanto, ainda não tem definição sobre a responsabilidade pelos danos nem previsão para o início dos trabalhos.
Adriana Glanert, uma das moradoras, conta que a retirada de pedras e de parte do material que sustentava o terreno durante a execução da obra teria contribuído para a instabilidade do solo. A família possui um levantamento topográfico e um relatório técnico que, segundo ela, apontam a perfuração do terreno como causa do problema.
Nova moradia
A situação ganha outro peso diante do histórico da família com as enchentes. A residência atual foi construída depois que os moradores perderam a antiga casa, localizada mais próxima do rio Taquari, durante as enchentes de outubro de 2023.
O imóvel anterior pertencia à família havia gerações. Para reconstruir a vida, os moradores procuraram um local considerado seguro e providenciaram os estudos e as licenças necessárias para a construção. A família precisou adaptar o projeto e deslocar um pouco mais para o lado, conforme orientações recebidas durante a avaliação do terreno.
A mudança para a nova residência ocorreu em outubro de 2024. Atualmente, são duas casas no mesmo terreno: em uma vivem Adriana, o marido, Cesar Malgarin, e a filha, Emanuela Glanert Malgarin; na outra, a mãe, Leda Glanert, e o irmão, Marcelo.
Antes mesmo dos problemas com a obra, a família enfrentou outra perda. Luiz Antonio Glanert, pai de Adriana, morreu durante as chuvas de 23 de julho deste ano. Os familiares ainda aguardam o resultado do exame do Instituto Médico-Legal (IML), que deverá esclarecer se a morte ocorreu em decorrência de um mal súbito ou afogamento.
Intervenção
De acordo com Adriana, o projeto inicialmente apresentado à família previa uma intervenção em diagonal no terreno. Entretanto, durante a execução, a equipe teria encontrado uma formação rochosa e alterado a maneira de realizar o serviço.
O pai, que trabalhou durante muitos anos na construção civil, acompanhava os trabalhos e demonstrava preocupação com as mudanças. Após sua morte, a intervenção avançou. Segundo Adriana, foi utilizado um rompedor para quebrar as pedras, com a retirada de aproximadamente três caçambas de material.

Ela afirma que a retirada comprometeu a sustentação da área. Com a chuva de setembro, parte do terreno cedeu, levando pedras, terra e estruturas que estavam próximas à residência.
A moradora também aponta que os serviços de limpeza da valeta, realizados posteriormente, teriam agravado a situação, com a retirada de mais material da base do terreno. A família relata ainda danos em estruturas de drenagem e o estreitamento da estrada nas proximidades.
Para tentar reduzir os efeitos da água da chuva enquanto aguarda uma solução, um dos moradores improvisou uma calha para direcionar o escoamento e evitar que a água continue atingindo diretamente a área comprometida.
Responsabilidades
Desde o desmoronamento, Adriana procurou a Prefeitura de Santa Tereza e os responsáveis pela intervenção para buscar providências. Segundo ela, o município informou que não poderia interferir na obra, por se tratar de uma intervenção de responsabilidade do Estado.
A família também recebeu orientações para aguardar uma avaliação sobre a origem do problema. Conforme o que foi repassado à moradora, a definição é importante para estabelecer de onde virão os recursos para a recuperação: caso o risco já estivesse previsto no projeto e a execução não tenha seguido as especificações, a responsabilidade seria atribuída à empresa; se for considerado um risco novo, decorrente das condições provocadas pela chuva, o custeio poderá ocorrer por meio de um fundo destinado a situações emergenciais.
A moradora afirma que houve uma reunião em outubro para tratar do caso e que a recuperação foi considerada uma necessidade emergencial. Entre as intervenções mencionadas estão a realização de um estudo geológico, a construção de uma contenção com gabiões, estruturas formadas por gaiolas de arame preenchidas com pedras, utilizadas para estabilizar o solo, e a recomposição do talude, que é a superfície inclinada de um terreno, neste caso, a área que sofreu o desmoronamento.
Apesar disso, a família ainda não recebeu uma previsão concreta para o início dos trabalhos. A informação repassada é de que as intervenções relacionadas ao projeto devem ser concluídas até setembro de 2027, sem uma data específica para a recuperação do terreno da residência.
Enquanto aguarda, o receio é de que novas chuvas provoquem outros deslizamentos. “É fácil dizer que a gente tem que sair, mas eu vou para onde? Eu vou deixar tudo aqui?”, questiona Adriana.
A reportagem procurou a Prefeitura de Santa Tereza, o Departamento Autônomo de Estradas de Rodagem (Daer) e a empresa Encopav para esclarecer as circunstâncias da obra, as responsabilidades pelos danos e as providências previstas para a recuperação do terreno. No entanto, não houve retorno até o fechamento desta reportagem.





