Mais de dois anos após as enchentes que atingiram o Rio Grande do Sul em maio de 2024, quatro pessoas de Bento Gonçalves continuam na lista oficial de desaparecidos por causa dos desastres climáticos. Nelsa Faccin Gallon, Isabel Velere Antonello Gallon e Carine Milani ainda não foram localizadas após desaparecerem pelos deslizamentos na Linha Alcântara. Já Lourdes Helena Lazarini, desapareceu pelas enchentes na comunidade de Passo Velho. Desde o início das operações, o Corpo de Bombeiros Militar realizou buscas extensas em áreas atingidas, utilizando equipes terrestres, cães farejadores, drones e técnicas de varredura.



Conforme o capitão Gustavo Kist, comandante da 3ª Companhia Especial de Bombeiros Militar de Bento Gonçalves, as equipes percorreram mais de 90 quilômetros em ambas as margens do rio, além de realizar buscas no leito e nas áreas adjacentes. Os trabalhos incluíram a saturação dos perímetros considerados propícios à localização das vítimas, com verificações sistemáticas para ampliar as chances de encontrar vestígios.
Entre as técnicas empregadas esteve a busca em linha, na qual os militares avançam lado a lado, mantendo aproximadamente um metro e meio de distância entre si. Também foram utilizados binômios de busca, formados por um cão e seu condutor, além de drones e outros recursos disponíveis.
Segundo Kist, após o esgotamento das possibilidades de busca nos perímetros sob responsabilidade do 5º Batalhão de Bombeiros Militar (5º BBM), as ações passaram a ficar sob responsabilidade do 6º BBM (que tem sede em Santa Cruz do Sul), em conjunto com os demais órgãos competentes. A decisão considera a possibilidade de que as vítimas tenham sido deslocadas pela correnteza ao longo do curso do rio.
Condições do terreno dificultam localização
A extensão das áreas atingidas, a presença de matas, os terrenos de difícil acesso e as condições meteorológicas estão entre os principais obstáculos enfrentados pelas equipes de resgate. Em ocorrências relacionadas a enchentes, o grande volume de água e a força da correnteza também podem transportar vítimas para locais distantes do ponto em que foram vistas pela última vez, ampliando a área que precisa ser examinada.
Para definir o encerramento das buscas ativas, os bombeiros avaliam fatores como a extensão dos locais já percorridos, o grau de saturação das áreas, as características do terreno e as condições de segurança para os profissionais envolvidos. A decisão é técnica e considera as possibilidades de localização ainda existentes.
O encerramento das operações em campo, no entanto, não significa que o caso esteja definitivamente encerrado. Conforme o comandante, novas diligências podem ser realizadas caso surjam informações, indícios ou evidências que apontem para uma possível localização das vítimas. A retomada depende da avaliação dos órgãos competentes.
Ocorrências recentes
Além dos casos relacionados às enchentes, o Corpo de Bombeiros atendeu, nos últimos meses, outras ocorrências de desaparecimentos na área de atuação do 5º BBM. De acordo com Kist, os registros envolveram diferentes situações, tanto em áreas urbanas quanto em matas e ambientes aquáticos.
Em todas as ocorrências atendidas pela corporação nesse período, as pessoas foram localizadas, embora em intervalos distintos. Para isso, foram utilizados recursos conforme as características de cada situação, incluindo drones, embarcações, equipes que realizaram buscas a pé e cães especializados. O comandante informou, contudo, que a unidade não dispõe, no momento, de um número consolidado dessas ocorrências para divulgação.
Trabalho integrado
Os trabalhos são realizados de forma integrada com outros órgãos de segurança pública e Defesa Civil, com possibilidade de apoio de equipes especializadas de outras unidades do Corpo de Bombeiros Militar.
Segundo Kist, os familiares também são fontes importantes de informações para o trabalho de investigação. Enquanto as quatro pessoas seguem sem localização confirmada, a possibilidade de novas buscas permanece condicionada ao surgimento de novas evidências e à avaliação técnica.
Carine era companheira de André Faccin. Isabel era divorciada de Elso Gallon, irmão de Alceu Gallon, o marido de outra desaparecida dos desastres climáticos no mesmo local: Nelsa Gallon.
Marido de desaparecida luta por homenagem digna
Alceu Ângelo Gallon e a esposa, Nelsa Faccin Gallon, tiveram sua última conversa às 9h03min de 1º de maio de 2024. Naquele momento, ele estava em Portão, tentando retornar a Bento Gonçalves em meio às enchentes que atingiam o Rio Grande do Sul. Sem conseguir avançar pelas estradas bloqueadas, decidiu voltar a Porto Alegre, onde trabalhava. Nelsa permaneceu na comunidade de Imaculada Conceição, na Linha Alcântara, onde o casal mantinha uma casa. Desde aquela ligação, Alceu nunca mais teve notícias concretas da esposa.

Casados desde 20 de maio de 1972, os dois estavam prestes a completar 52 anos de união quando a tragédia interrompeu a vida da família. A residência do casal foi parcialmente destruída pela avalanche de terra e detritos que atingiu toda a região. Nelsa, que tinha 86 anos na época, desapareceu junto de outras duas mulheres da família, Isabel Vellere Antonello Gallon e Carine Milani. As três nunca mais foram encontradas. “Éramos muito felizes à nossa maneira”, recorda Alceu ao falar da vida que construiu com a esposa. O relato sobre os últimos momentos de contato é marcado pela incerteza e pela dificuldade de compreender o que havia acontecido enquanto as chuvas provocavam destruição em diferentes pontos da Serra Gaúcha.
Na segunda-feira, 29 de abril, como fazia habitualmente, Alceu havia saído de madrugada da comunidade de Imaculada Conceição em direção a Porto Alegre. Como a chuva persistia, decidiu retornar a Bento para ficar com Nelsa. A tentativa, porém, foi frustrada pelos bloqueios nas estradas. Em Bom Princípio, encontrou água sobre a pista e precisou interromper o trajeto. Depois, tentou avançar a partir de São Sebastião, mas também não conseguiu seguir viagem.
Sem local para passar a noite, permaneceu no carro. Na manhã de 1º de maio, fez uma nova tentativa de chegar à Serra, igualmente sem sucesso. Já em Portão, parou em um posto de combustível e telefonou para a esposa. Conversaram sobre a chuva e as condições do tempo. Segundo ele, Nelsa estava tranquila. “Foi a última vez que falei com ela”, conta.
No dia seguinte, 2 de maio, Alceu recebeu uma ligação de Mayara, filha de seu irmão Elton, informando sobre a tragédia na região e a falta de notícias de Nelsa, Isabel e Carine. Inicialmente, familiares disseram que as mulheres teriam buscado abrigo na casa de moradores da comunidade de Linha Alcântara. A informação, segundo ele, foi uma tentativa de amenizar o impacto da notícia.
A confirmação de que as três estavam desaparecidas veio depois, quando Alceu questionou os familiares ao perceber uma conversa sobre o assunto. A partir dali, começou uma espera que já ultrapassa dois anos.
De acordo com o relato do marido, um grupo de 16 pessoas da família de Nelsa tentou fugir da área atingida pelos deslizamentos. Treze conseguiram sobreviver, enquanto as três mulheres desapareceram. Isabel era ex-cunhada de Alceu e havia passado a noite na casa do casal por medo de permanecer sozinha em sua residência. Carine era companheira de André, sobrinho de Nelsa.
Logo, Alceu procurou o Corpo de Bombeiros em busca de informações. Segundo ele, foi bem recebido pela corporação e ouviu que as buscas continuariam e que seria avisado caso alguma pista fosse encontrada. Nenhuma informação concreta, porém, chegou até ele. “Já está num ponto que a gente perdeu qualquer esperança, e vivemos um dia após o outro, sempre com incertezas”, desabafa.
O marido afirma que há quase dois anos não procura mais os órgãos responsáveis, diante da ausência de novidades. As quatro pessoas de Bento Gonçalves que permanecem na lista oficial de desaparecidos após as enchentes são Nelsa, Isabel, Carine e Lourdes Helena Lazarini. Sobre Lourdes, Alceu relata que ela não tinha relação com as outras três mulheres. Lourdes desapareceu em um deslizamento na comunidade de Passo Velho.
Uma vida dedicada à comunidade
Mais do que a ausência e as circunstâncias do desaparecimento, Alceu quer que a história de Nelsa seja lembrada pelo trabalho que ela realizou ao longo da vida. Nascida em 8 de agosto de 1937, na comunidade de Imaculada Conceição, ela viveu boa parte de sua vida no mesmo lugar onde desapareceu.
Foi professora primária durante muitos anos, atuou como catequista e participou da Juventude Agrária Católica. Afastou-se da comunidade por um período de 12 anos, mas retornou ao lugar de origem para continuar contribuindo com a família e os moradores.
O casal não teve filhos, mas ajudou a criar crianças de outras famílias. Para Alceu, a felicidade construída a dois esteve ligada também à disposição de ajudar outras pessoas e à participação na vida comunitária.
É essa trajetória que ele deseja preservar. Um memorial, localizado na comunidade de Imaculada Conceição, construído com recursos de familiares que tinham entes queridos sepultados no antigo cemitério local já reúne os nomes das desaparecidas. Ainda assim, Alceu considera que a homenagem poderia ir além.
Ele afirma ter procurado o poder público para solicitar que a estrada de acesso à comunidade de Imaculada Conceição receba o nome de Estrada das Três Mulheres, Professora Nelsa Faccin. A proposta busca manter viva a memória das desaparecidas e associar a homenagem à trajetória da professora na localidade.
Segundo ele, a iniciativa enfrenta dificuldades para avançar. Ele acredita que as mulheres merecem ser lembradas pela comunidade e que a homenagem representaria uma forma de preservar suas histórias para as próximas gerações.
A reivindicação se tornou mais uma frente de luta para o homem que, aos 78 anos, continua trabalhando diariamente por justiça.
Mesmo sem respostas sobre o paradeiro da esposa, Alceu diz que continuará buscando reconhecimento para Nelsa e as outras duas mulheres. “Minha luta é diária e constante até o dia da minha morte”, afirma.




