As transformações na rotina dos moradores, nos hábitos de consumo e na própria dinâmica turística de Bento Gonçalves também mudaram a relação da população com o Centro. Se no passado a região reunia comércio, lazer e encontros, hoje parte desse movimento se deslocou para outros pontos da cidade, enquanto as compras on-line e a oferta de serviços nos bairros alteraram os hábitos de consumo. Diante desse cenário, moradores e pessoas ligadas ao centro apontam diferentes possibilidades para devolver vitalidade ao espaço.
Entre as sugestões estão melhorias na mobilidade e na infraestrutura, criação de atrativos culturais e gastronômicos, qualificação dos espaços públicos, incentivo a atividades noturnas e atenção à acessibilidade. Mais do que uma intervenção isolada, as opiniões indicam a necessidade de repensar a experiência de quem mora, trabalha ou visita a área central.
Para a empresária Beatriz Dreher Giovannini, a mudança na relação com a região é resultado de uma transformação mais ampla na cidade. “Os tempos mudaram. Para a minha geração, que cresceu vivendo o dia a dia no centro, tínhamos cinemas, clube e cafés tradicionais que eram o ponto de encontro dos amigos. Com o passar dos anos, o turismo focado no vinho foi para o interior. A maior parte dos hotéis hoje está longe do centro, onde estacionar se tornou difícil. A indústria cresceu e a cidade foi acolhendo pessoas de muitos lugares. Com isso, os antigos frequentadores foram mudando seus hábitos, assim como as novas gerações também mudaram os seus”, observa.
Para ela, o momento atual torna mais difícil apontar uma solução única, mas atividades culturais poderiam ajudar a criar novos motivos para frequentar o local. “As exposições culturais seriam uma opção, mas seria necessária uma propaganda muito forte para atrair o público”, afirma Beatriz.

Ela também chama atenção para características que já contribuem para a imagem do centro. “Converso muito com os turistas que passam por aqui e eles se encantam com a limpeza e com as flores. Além disso, não vejo futuro em uma rua coberta se ela não tiver atrativos reais”, avalia.
Na visão de Beatriz, antes de definir grandes intervenções, seria necessário compreender como o Centro é utilizado atualmente. “Acho que contratar uma equipe de urbanistas poderia ser o caminho, após estudarem muito bem como o nosso centro está sendo utilizado hoje. Gostaria imensamente de ter uma ideia luminosa para esta cidade que tanto amo”, ressalta.
A mobilidade aparece como uma das preocupações apontadas por Gilberto Walendorff. Morador de Bento durante 30 anos e ainda ligado à cidade por sua família, ele defende mudanças na circulação de veículos e a ampliação de áreas de estacionamento no entorno. “O centro de Bento tem a dificuldade do trânsito de veículos, tem que diminuir o acesso de carros, com duas vias de acesso apenas com mais áreas de estacionamento em seu entorno”, defende.
Walendorff também propõe uma transformação mais ampla da área, com a criação de um ambiente capaz de estimular a permanência das pessoas. “Quanto ao centro, para chamar mais atenção, é cobri-lo com uma extensão maior, transformando em um lugar aconchegante onde as pessoas poderiam permanecer mais tempo com vários atrativos, hoje já muito utilizado com eventos regionais, com todo comércio que ali existe e com novas possibilidades que transformem o local em um grande shopping”, sugere.
Mais vida além do horário comercial
A estudante de Arquitetura e Urbanismo, Bianca de Barros Smalti, avalia que um dos principais desafios está em fazer com que o lugar continue ocupado depois do fechamento das lojas. “Acredito que o principal seja fazer com que o Centro volte a ser um espaço de permanência, e não apenas de passagem. Hoje, existe uma grande concentração de atividades durante o horário comercial mas, depois que as lojas fecham, por volta das 19h, muitas áreas ficam desertas, aumentando também a sensação de insegurança”, aponta.
Para mudar essa dinâmica, ela defende intervenções que vão além da infraestrutura básica. “Além de melhorias simples, como iluminação, sinalização, mobiliário e qualificação das vias secundárias, seria importante incentivar novos usos e atividades que mantenham o Centro vivo também à noite, além de qualificar os espaços de descanso e lazer que já existem”, afirma.

A discussão, segundo Bianca, também pode aproveitar o conhecimento produzido dentro das universidades. Em 2024, ela e as colegas Júlia e Kamile desenvolveram, em uma disciplina de Urbanismo da FSG, uma proposta de revitalização das ruas Marechal Deodoro e Marechal Floriano. O trabalho previa intervenções como a revitalização da Escadaria do Barril, com a criação de um mirante, refúgios de descanso para quem trabalha no entorno e um restaurante-adega relacionado ao Vinho Encanado. “Acredito também que a Prefeitura poderia se aproximar mais dos cursos de Arquitetura e Urbanismo da cidade. Em todos os semestres são desenvolvidos projetos muito bem estruturados, sobre diferentes regiões e problemáticas reais do município e apresentam propostas pensadas especificamente para esses contextos. Existe uma produção constante de conhecimento e soluções para Bento Gonçalves, mas, infelizmente, na maioria das vezes, esses trabalhos acabam ficando restritos ao ambiente acadêmico e não chegam a ser considerados pelo poder público”, afirma.
Ela também defende que a identidade local seja incorporada ao processo de transformação. “O Centro precisa aproveitar melhor a identidade que Bento Gonçalves já possui. Um bom exemplo é a Avenida Planalto, que conseguiu se tornar um espaço atrativo ao reunir gastronomia, comércio, lazer e uma experiência urbana agradável. O Centro não precisa reproduzir a Planalto, mas trazer alguns desses princípios para si, como a criação de um polo gastronômico, com restaurantes, cafés e bares que funcionem também à noite”, sugere.
Para a estudante, o patrimônio histórico pode ter papel central nessa construção. “Hoje, muitas vezes preservamos apenas a ‘carcaça’ dos prédios históricos, sem explorar todo o potencial que eles têm para contar a história da cidade e fazer parte da experiência de quem visita Bento. Acho que a revitalização precisa justamente conectar patrimônio, gastronomia, comércio e espaço público”, aponta.
Mais lazer, acessibilidade e atrativos para acolher a população
A criação de áreas destinadas à convivência familiar também aparece entre as sugestões. Christina Costa defende um ambiente que reúna lazer e encontro, especialmente para famílias com crianças. “Os adultos levam os filhos e já tomam chimarrão, com cadeiras, mesas, talvez música ao vivo. Uma rua fechada só para lazer, um lugar que seja aconchegante e bonito, não botar uma pracinha qualquer, mas um lugar para se encontrarem e se divertirem”, sugere.

Já Thiago Pellizzaro, morador do bairro Progresso, chama atenção para uma questão que precisa acompanhar qualquer transformação urbana: a acessibilidade. Para ele, as mudanças devem contemplar tanto os espaços públicos quanto os estabelecimentos comerciais. “Como sou deficiente físico, gostaria que melhorassem a acessibilidade no comércio, por exemplo, com atendentes que entendam Libras e restaurantes com cardápio em Braille”, sugere.
Ele também apresenta uma ideia para as paradas de ônibus, defendendo estruturas mais protegidas e alinhadas à identidade da cidade. “poderiam proteger das intempéries e ter um ar mais a ver com a capital do vinho, poderiam fazer uma espécie de parreira que “desce” nos cantos das paradas? Ficaria lindo”, sugere.
Para Lucélia Scalcon, moradora do bairro São Roque e que trabalhou durante toda a vida no Centro, a perda de movimento também está relacionada às mudanças no consumo e à qualidade do atendimento em parte das lojas. “O Centro está ‘morto’. As compras estão diminuindo cada vez mais porque as pessoas estão comprando pela internet. O atendimento está muito ruim em algumas lojas. Ninguém mais se interessa em trabalhar pelos salários baixos e, por isso, as empresas contratam quem aparece. Assim, há pessoas despreparadas e sem vontade de atender”, afirma.
Ela observa ainda que a descentralização dos serviços e do comércio modificou a rotina dos próprios moradores. “Sem falar que a população daqui têm tudo nos bairros e acabam optando por nem ir ao Centro”, completa.
As opiniões mostram que a discussão sobre o futuro do Centro vai além da recuperação do movimento comercial. Para quem vive e circula pelo local, a retomada passa pela criação de motivos para permanecer, com espaços de convivência, cultura, gastronomia, lazer e comércio, além de melhorias na mobilidade, acessibilidade e infraestrutura. Como resume Bianca, “um Centro mais agradável, seguro e vivo para quem mora em Bento também será naturalmente mais atrativo para quem visita a cidade”, conclui.
Mais do que reproduzir modelos de outras áreas da cidade, as sugestões apontam para a valorização das características próprias da região central e de sua relação com a história de Bento Gonçalves. A ideia que atravessa os diferentes depoimentos é de que a recuperação do espaço depende não apenas de atrair turistas, mas também de reconquistar os próprios moradores.






