Quarta-feira, 12 de Agosto de 2026

ÚLTIMA HORA

Moradores saem sem respostas de reunião técnica sobre enchentes em Faria Lemos

A tentativa de traduzir em gráficos, siglas e laudos de engenharia o medo que ainda tira o sono dos moradores de Faria Lemos terminou em muitas cadeiras vazias. Convocada pelo Ministério Público Federal (MPF) para prestar contas e detalhar inquéritos civis após as cheias históricas do Rio das Antas, a reunião pública da última sexta-feira, 7 de agosto, naufragou no excesso de termos técnicos. Exaustos de ouvir explicações complexas de órgãos reguladores e da Companhia Energética Rio das Antas (Ceran), dezenas de moradores abandonaram o Salão da Comunidade de Santo Antônio da Alcântara, em Faria Lemos, deixando claro que a burocracia estatal ainda não aprendeu a falar a língua de quem perdeu quase tudo.

Presenças

Conduzido pela procuradora da República, Flávia Rigo Nóbrega, o encontro reuniu lideranças civis e militares. Entre os presentes estavam o prefeito Amarildo Lucatelli; a promotora de Justiça de Bento Gonçalves, Carmem Lucia Garcia; o secretário de Segurança, Gabriel Kellermann; o tenente-coronel Marcelo Almeida de Souza (9ª Crepdec de Caxias do Sul); e o coordenador da Defesa Civil, Rodrigo Wermuth. A reunião também contou com o perito do MPF, Valter Giugno Abruzzi, e o gerente da Ceran, André Akashi. Participaram virtualmente o analista pericial do MPF, Felipe Eugênio de Oliveira Vaz Sampaio, e os representantes da Aneel, Luiz Rogério Gomes e Luiz Gustavo Baena.

Não era o esperado

O que o público na Linha Alcântara esperava eram garantias firmes e compreensíveis de que as encostas e as águas não voltariam a engolir suas histórias. O que receberam, no entanto, foi acúmulo de termos periciais conduzido por analistas e técnicos de forma presencial e virtual.

Fotos: Emanuele Nicola

A certa altura, o prefeito de Bento Gonçalves, Amarildo Lucatelli, interveio reforçando a importância de ouvir diretamente os moradores que vivenciaram as enchentes. Disse que a comunidade precisa receber informações claras e práticas, além das explicações técnicas apresentadas pelos órgãos responsáveis. “Os moradores precisam de informações concretas e não apenas de apresentações técnicas. Eles estavam aqui na primeira cheia e, posteriormente, nos desastres de 2024. Precisamos ouvir esses relatos, entender o técnico, sim, mas buscar soluções efetivas para a comunidade”, afirmou.

Moradores de Faria Lemos abandonaram reunião após excesso de termos técnicos e pouco espaço para perguntas sobre o impacto das enchentes e a segurança das barragens no Rio das Antas. O encontro, mediado pelo MPF, queria aproximar a empresa da comunidade afetada pelas cheias, mas gerou mais revolta e frustração.

Novembro de 2024

A reunião havia sido acordada em uma audiência pública realizada em novembro de 2024. O objetivo era simples: traduzir para os moradores o funcionamento das barragens e alinhar canais de comunicação mais claros e eficientes. No entanto, o resultado do encontro seguiu o caminho oposto.

Quem compareceu na reunião pública de sexta-feira em busca de respostas concretas deparou-se com duas horas de explicações altamente técnicas, sem espaço suficiente para debate ou questionamentos.
Para Alexandre Faccin, nascido na localidade de Faria Lemos em 1974 e atual membro da comissão comunitária que acompanha o caso, o episódio demonstrou um descompasso entre a empresa e a realidade local. “Os moradores ficaram praticamente duas horas somente ouvindo dados técnicos, de uma forma totalmente fora do entendimento dos presentes e com a impossibilidade de fazermos perguntas e argumentar sobre o que realmente interessa a todos afetados pelas enchentes”, lamenta Faccin.

Para Faccin, o episódio expôs o distanciamento da concessionária em relação à dor e às dúvidas da população ribeirinha. “Ficou a sensação de falta de sensibilidade e entendimento do que realmente as pessoas queriam saber e perguntar. Mas acredito que a comunidade não vai desistir de buscar seus direitos”, pontua.

A comissão defende que o uso de recursos naturais estratégicos, como o Rio das Antas, exige contrapartidas humanas e sociais que vão além do cumprimento estrito de protocolos de engenharia. A população local cobra o reconhecimento histórico e o respeito à identidade de quem já habitava a região muito antes da chegada dos empreendimentos.

“É preciso ter uma visão social mais forte, seja por força de lei ou simplesmente pelo fato de estar ocupando um lugar que era dos moradores e que agora parece não existir mais na visão dos que chegaram depois”, conclui Faccin.

O que diz a Defesa Civil

O município de Bento Gonçalves adota novas frentes estratégicas para proteger a população e prevenir novas tragédias nas proximidades do Rio das Antas. As ações integram o recém-estruturado Plano Municipal de Redução de Riscos (PMRR), subsidiado por estudos inéditos do Serviço Geológico do Brasil (SGB). “O novo levantamento do SGB delimitou e classificou oficialmente as áreas suscetíveis nas regiões ribeirinhas, fornecendo coordenadas precisas que podem ser consultadas de forma aberta por toda a população por meio do repositório técnico do SGB”, explica o coordenador da Defesa Civil do município, Rodrigo Wermuth.

O plano de evacuação voltado à comunidade de Santo Antônio da Alcântara, severamente impactada pelas cheias, está passando por um processo completo de readequação. De acordo com Rodrigo Wermuth, as rotas de fuga e os pontos de encontro locais estão sendo revisados para acompanhar o comportamento atualizado do território pós-desastres. Como parte das medidas práticas de resposta rápida, a Defesa Civil confirmou que implantará, ainda em 2026, um Núcleo Comunitário de Proteção e Defesa Civil (NUPDEC) na Linha Alcântara. O foco do projeto é capacitar os próprios moradores e as lideranças comunitárias para agirem com autonomia nos primeiros minutos de uma crise.

Crepdec Regional

De acordo com o Tenente-Coronel, Marcelo Almeida de Souza, coordenador regional da Coordenadoria Estadual de Proteção e Defesa Civil do Rio Grande do Sul (Crepdec Caxias do Sul), é preciso existir o engajamento dos moradores de áreas de risco por meio dos Núcleos de Proteção e Defesa Civil Comunitários (NUPDECS). “Para garantir a eficácia e a aplicabilidade das ferramentas, a Coordenadoria Regional atua prestando apoio técnico direto às prefeituras na atualização das diretrizes e avaliando a capacidade de resposta na prática. Entre as ações de validação operacional, destaca-se o exercício simulado coordenado em Bento Gonçalves. A estratégia institucional foca também no papel das populações residentes em áreas com maior exposição a riscos. De acordo com a Defesa Civil, a participação social direta é considerada peça-chave para o pleno funcionamento dos sistemas de alerta e para o conhecimento dos protocolos de proteção disponíveis”, explica o coordenador.

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