Quinta-feira, 27 de Agosto de 2026

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Milho mantém espaço nas propriedades de Bento, mas produção esbarra em custos e mão de obra

Ocultivo de milho ocupa atualmente cerca de 100 hectares em Bento Gonçalves, segundo dados da Secretaria Municipal de Agricultura. O município possui aproximadamente 250 produtores da cultura, cuja produção é destinada à comercialização de grãos, à produção de silagem e, principalmente, à alimentação dos animais nas próprias propriedades.

Embora a cultura tenha presença nas propriedades rurais, os relatos de agricultores mostram que o milho ocupa, em muitos casos, áreas menores e está ligado principalmente à manutenção das atividades da propriedade.
Na Linha Demari, no distrito de Tuiuty, Sidnei Tadeu Marin cultiva aproximadamente um hectare do grão. Na propriedade, a área é utilizada de forma sucessiva: parte do milho é destinada à pastagem e à silagem e o que não é utilizado para essas finalidades é destinado à produção de grãos para a alimentação dos animais. A produção não é comercializada.

O casal Sidnei Tadeu Marin e Marisa com as filhas, Luísa e Laura (Foto: Arquivo pessoal)

Segundo Marin, a área destinada ao milho se mantém praticamente estável, variando conforme o espaço disponível na propriedade. A partir das sementes recebidas pelo Programa Milho 100%, porém, ele conseguiu direcionar parte do valor que gastaria com a compra para a adubação, o que, segundo ele, contribuiu para melhorar a produção.“Ajuda na redução de custo do cultivo”, afirma. Apesar disso, o agricultor pondera que a economia não representa uma redução extraordinária no custo total da lavoura, já que permanecem despesas com adubação, preparo da terra e herbicidas, apontado por ele como um dos gastos mais altos.

A estiagem também aparece entre as dificuldades enfrentadas. Já a cigarrinha, segundo Marin, não interfere tanto na propriedade porque o plantio é realizado mais cedo. A mão de obra é outro fator que limita uma eventual ampliação da área. “Se fosse ampliada, eu tenho que pagar mão de obra. Não consigo fazer tudo”, explica.

A realidade é semelhante na propriedade de Osana Maria Possamai Waikoswki, na Linha Demari, na Capela Nossa Senhora da Natividade. A agricultora conta que a família cultiva milho desde a época de seus pais, quando a produção era maior e também utilizada para fazer farinha. Atualmente, a cultura ocupa uma área menor e é voltada principalmente à alimentação dos animais.

Além do milho, Osana cultiva uvas e hortaliças. Para esta safra, pretende plantar aproximadamente três hectares de milho. O cultivo, segundo ela, é uma forma de produzir na própria propriedade parte do alimento utilizado pelos animais. “O grão hoje está muito caro para a gente comprar”, relata. Para a agricultora, apesar dos gastos com adubo e outros insumos, produzir na propriedade permite colher e consumir, reduzindo a necessidade de aquisição do produto.

Osana também aponta o aumento dos custos como uma das principais dificuldades. Sementes, adubos, herbicidas e mão de obra pesam na atividade. A produção é conduzida principalmente por ela e pelo filho, com auxílio de um empregado.

Recuperação após deslizamentos

Para Daniela Dorigon Mezadri, de Tuiuty, o cultivo do milho tem uma característica diferente. Este é o primeiro ano em que a família produz a cultura, em uma área de aproximadamente 1,5 hectare. A propriedade foi afetada pelos deslizamentos de 2024 e ainda passa por um processo de recuperação.

Como a família pretende implantar novas videiras, o milho foi escolhido para aproveitar as áreas disponíveis durante esse período. A produção é destinada principalmente à alimentação dos animais da propriedade.

O terreno acidentado, porém, é um dos obstáculos. Daniela explica que as pequenas áreas e as características do terreno dificultam o uso de máquinas de precisão, cada vez mais presentes no cultivo. Além disso, há despesas com adubo, ureia, herbicidas, preparo da terra, plantio, mão de obra e colheita. “Mesmo recebendo as sementes gratuitamente, ainda é necessário fazer um investimento significativo para produzir o milho”, afirma.

Márcio Mezadri e Daniela Dorigon Mezadri, produtores rurais em Tuiuty (Foto: Arquivo pessoal)

Sementes reduzem parte do investimento

Os três produtores entrevistados receberam sementes por meio do Programa Milho 100%, iniciativa do Governo do Estado que garante o custeio integral das sementes de milho e sorgo para agricultores familiares contemplados. Em Bento, o Sindicato dos Trabalhadores Rurais auxiliou produtores no acesso ao programa.

Marin ficou sabendo da iniciativa pelo rádio e, nesta edição, fez a inscrição por meio do Sindicato. Segundo ele, o processo foi mais fácil do que em anos anteriores, quando a divulgação e os prazos dificultavam a inscrição.
Osana também já havia participado de iniciativas anteriores e, neste ano, recebeu as sementes gratuitamente. Para ela, a medida representa uma economia diante do preço da semente no mercado, embora defenda também a redução dos custos de outros insumos.

Daniela recebeu um saco de sementes e considera que o benefício foi importante principalmente por ocorrer durante a recuperação da propriedade. Sem o programa, ela afirma que não teria plantado a mesma quantidade, já que o valor das sementes pesaria no investimento inicial.

Apesar da redução de um dos custos, os relatos mostram que a gratuidade das sementes não elimina as demais despesas da produção. Para os agricultores, adubação, herbicidas, preparo da terra, mão de obra e colheita continuam compondo o custo da lavoura.

Para consumo próprio

Os dados da Secretaria Municipal de Agricultura apontam que o número de produtores e a área destinada ao milho vêm aumentando nos últimos anos, principalmente em razão do Programa de Recuperação das Lavouras de Milho e Sorgo – Milho 100%, nas safras 2025/2026 e 2026/2027. A pasta estima uma produção anual de 80 toneladas no município.

No Estado, a atual edição do programa recebeu mais de 57 mil pedidos de agricultores familiares, número 41% superior ao registrado na safra anterior. Ao todo, 850 instituições, entre prefeituras, sindicatos, cooperativas e associações, participam da operacionalização da iniciativa em 472 municípios. O investimento previsto é de R$ 96,2 milhões para a aquisição de 134.416 sacas de sementes de milho e sorgo.

Em Bento, porém, a experiência dos agricultores mostra que a permanência do milho nas propriedades está relacionada não apenas ao acesso às sementes, mas à necessidade de produzir alimento para os próprios animais e aproveitar áreas disponíveis. Para Daniela, enquanto novas videiras ainda não foram implantadas, o cultivo permite utilizar uma área que está em recuperação. Para Marin e Osana, a produção auxilia na manutenção dos animais sem depender integralmente da compra de milho.

Para os produtores, a continuidade da cultura passa pela redução dos custos e por condições adequadas às pequenas propriedades. Daniela também aponta a necessidade de máquinas e equipamentos capazes de trabalhar em terrenos acidentados, enquanto Osana defende melhores condições para a aquisição de sementes e insumos. “Não digo grandes plantações, mas para a gente manter o ano, os bichinhos e tudo mais, eu vou continuar plantando”, afirma Osana.

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