O avanço de casos suspeitos e os alertas emitidos por autoridades de saúde voltaram a chamar atenção para o hantavírus, doença transmitida principalmente pelo contato com fezes, urina e saliva de roedores silvestres infectados. Embora considerada rara, a infecção preocupa pelo alto potencial de gravidade, especialmente quando o diagnóstico não ocorre de forma precoce.
Dados oficiais do Ministério da Saúde apontam que o Rio Grande do Sul mantém presença recorrente de casos de hantavírus. Em 2025, o Estado registrou sete confirmações da doença. Em 2026, dois casos foram contabilizados, conforme números preliminares divulgados pelas autoridades de saúde. Os episódios ocorreram nos municípios de Antônio Prado, onde o paciente se recuperou, e Paulo Bento, que teve um óbito confirmado em decorrência da doença. As autoridades sanitárias descartam qualquer relação entre os casos registrados no Estado e surtos envolvendo navios internacionais, reforçando que o hantavírus possui caráter esporádico e endêmico na região.

O que é e como ocorre a contaminação
De acordo com a médica infectologista Viviane Raquel Buffon, o hantavírus pertence à família Hantaviridae e é transmitido principalmente por roedores silvestres infectados. No Brasil, o principal reservatório é o rato-do-mato (Oligoryzomys spp.), popularmente conhecido como ratinho-do-campo. “A principal forma de transmissão ocorre pela inalação de aerossóis contaminados com urina, fezes ou saliva de roedores infectados, especialmente durante a limpeza, varrição ou movimentação de objetos em locais fechados e com poeira acumulada. O contágio também pode acontecer pelo contato direto com roedores vivos ou mortos, ou ainda com superfícies contaminadas, seguido do toque nos olhos, nariz ou boca. A mordida de um roedor infectado é considerada uma forma menos frequente de transmissão. O vírus Andes, identificado na América do Sul, é o único hantavírus com registros de transmissão entre pessoas, embora os casos sejam raros. É importante ressaltar que o hantavírus não é transmitido por alimentos, água ou picadas de insetos”, explica a infectologista.

Viviane Raquel Buffon, infectologista

Sintomas e evolução
Segundo ela, o período de incubação varia de sete a 45 dias após a exposição, com média de duas a três semanas. A doença evolui em fases distintas. “Na fase inicial, o paciente apresenta febre alta acima de 38°C, mialgia intensa, cefaleia, fraqueza, náuseas, vômitos e dor abdominal. Em seguida, surge a fase cardiopulmonar, que pode se instalar em horas ou dias, com tosse seca, falta de ar, insuficiência respiratória aguda, hipotensão e choque. Os casos que sobrevivem entram em uma fase de convalescença, com recuperação gradual ao longo de semanas”, observa.

Por que a hantavirose preocupa
A doença é considerada uma emergência médica devido à rápida evolução para quadros graves, especialmente quando se manifesta na forma da Síndrome Cardiopulmonar por Hantavírus (SCPH), considerada a apresentação mais severa da doença.
Conforme explica a médica: “As principais complicações incluem insuficiência respiratória aguda com edema pulmonar não cardiogênico, choque cardiogênico com colapso circulatório grave, insuficiência renal aguda, manifestações hemorrágicas e, em alguns casos, sintomas neurológicos”.
De acordo com Marcelo Valandro, diretor adjunto do Centro Estadual de Vigilância em Saúde (Cevs), o reconhecimento da hantavirose ainda representa um desafio para os profissionais de saúde. “O diagnóstico é complexo justamente porque, na maioria das vezes, o profissional não pensa inicialmente em hantavírus. Geralmente, ele considera primeiro doenças epidemiologicamente mais frequentes, como dengue, gripe ou covid-19, que também apresentam sintomas respiratórios semelhantes”, explica.
A infectologista destaca que não existe tratamento antiviral específico aprovado para a hantavirose. “O tratamento é essencialmente de suporte intensivo, e o reconhecimento precoce da doença é determinante para aumentar as chances de sobrevivência do paciente”, afirma.

Marcelo Valandro, diretor adjunto do Centro Estadual de Vigilância em Saúde (Cevs)

Cuidados
Valandro reforça que é fundamental adotar cuidados durante a limpeza de galpões, depósitos e outros ambientes rurais ou próximos a áreas silvestres, especialmente locais fechados onde possa haver presença de fezes ou urina de roedores. Segundo ele, espaços utilizados para armazenar objetos, feno e materiais diversos podem favorecer a circulação do vírus. “O risco ocorre principalmente quando a pessoa entra nesses locais e realiza limpezas que levantam poeira contaminada. As partículas do vírus podem estar presentes na urina e nas fezes dos roedores e serem inaladas por meio da dispersão dos componentes”, explica.
Entre as principais recomendações estão manter os ambientes ventilados antes da entrada, deixando portas e janelas abertas por pelo menos 30 minutos, além de evitar varrer ou realizar limpeza a seco, prática que facilita a dispersão das partículas contaminadas no ar. O ideal, segundo Valandro, é optar pela limpeza úmida, utilizando água, desinfetantes e panos umedecidos para reduzir o levantamento de poeira.
O uso de equipamentos de proteção individual também é indicado, especialmente de máscaras com maior capacidade de filtragem, como os modelos PFF2 ou N95, recomendadas para atividades em locais com risco de exposição a partículas contaminadas.

Recomendações
Viviane destaca ainda que é fundamental que gestores e educadores promovam ações de educação em saúde nas comunidades rurais e escolas do campo, incentivando medidas de controle de roedores em propriedades rurais e periurbanas.
Ela também ressalta a importância de ampliar a divulgação dos sinais de alerta da doença e conscientizar a população sobre a necessidade de buscar atendimento médico precoce.