Após abordar a força dos gêneros Pop e Rock em Bento Gonçalves, uma nova reportagem volta o olhar para um estilo que carrega a própria essência cultural da região: o ítalo-gaúcho. Mais do que um tipo de música, ele representa a fusão de tradições que moldaram a identidade da Serra Gaúcha.

Presente em festas, bailes, eventos turísticos e encontros familiares, o ítalo-gaúcho resiste ao tempo e segue conquistando diferentes gerações.

Tradição logo cedo

Natural de Bento Gonçalves, a musicista Paloma Trevisan relembra que sua relação com a música começou ainda na infância, marcada por um momento simples, mas decisivo: ver alguém tocando acordeon em uma festa de comunidade quando tinha apenas cinco anos. “Hoje é meu instrumento de trabalho. Aquilo me marcou de uma forma tão especial que quando cheguei em casa pedi ao meu pai que me desse uma gaita, porque eu gostaria de tocar. Lembro que ele demorou a encontrar, não era um pedido comum. Quando ele chegou em casa do trabalho e me trouxe a gaitinha, algo mudou para sempre dentro do meu coração”, conta.

Desde então, a artista construiu uma trajetória que passou por coral escolar, apresentações, bailes e diferentes projetos musicais. “Isso foi moldando e dando rumo ao meu sonho, e quando percebi que poderia viver da arte, abracei a ideia e os sentimentos de alegria e amor que aquilo me trazia”, destaca.

Hoje, ela transita por vários estilos, mas mantém forte ligação com a cultura regional, especialmente no trabalho com o grupo ítalo-gaúcho Le Farfalle, formado por ela na gaita, Luciane Beatriz Staub (Miqüí), produtora executiva e baterista, Marines Mussoi (contrabaixo) e Bibiana Petek (guitarra). “As principais influências que ajudaram a moldar minha musicalidade são meus professores, amigos, colegas e artistas que admiro. Desde o início da minha carreira sempre transitei por diversos gêneros musicais, pois acredito que a música é uma linguagem universal, porque transcende barreiras culturais e de idioma, conectando pessoas e despertando sentimentos em todo o mundo”, avalia.

Grupo Le Farfalle

Percurso na música

Ao longo de sua trajetória vive diariamente momentos especiais. “É difícil destacar apenas um, porque cada pessoa que acolhe meu trabalho, e que é tocada de alguma forma pela emoção que a música traz, torna a ocasião única e incrível. Tive a alegria de me apresentar na Itália, Argentina, Uruguai, e mais tantos outros estados brasileiros. Além de tocar, pude compartilhar e vivenciar a cultura de cada lugar”, frisa.

Para Paloma, a música vai além do entretenimento. “Resgatar as raízes musicais é fundamental para a preservação da identidade cultural, conectando gerações passadas, presentes e futuras. Esse processo não apenas mantém vivas as histórias, crenças e costumes de uma comunidade, mas também fortalece o sentimento de pertencimento e valorização da diversidade cultural em um mundo cada vez mais globalizado”, destaca.

Mais do que apenas tocar

Essa conexão, segundo ela, também se reflete no público jovem, que encontra no gênero um significado especial. “Percebo que estes acolhem nosso trabalho porque se sentem representados, e por sentir uma ligação com a cultura e a música de seus antepassados”, acrescenta.

Paloma Trevisan

O processo de escolha dos repertórios varia bastante. Paloma atualmente faz parte dos grupos Paloma e Miqüí (acústico gaita e bombo legüero); Le Farfalle (ítalo-gaúcho); The Allpargatas (gaúcho); Samba de Moça (Samba e MPB); Fórrots (Forró) e Vivandeiros da Alegria (Animação Cultural).

O projeto Le Farfalle – Mulheres na música, que registra a trajetória de quatro mulheres da Serra Gaúcha, foi lançado em todas as plataformas digitais no dia 13 de março. Segundo a artista, os próximos lançamentos serão feitos com o intuito de resgatar a história dos acordeons que eram produzidos na região. O grupo Le Farfalle também apresentou no último mês quatro documentários sobre mulheres na música, com Juraci de Mozzi, Mara Manzoni, Inês Rizzardo e Rita Dambros Gasperin, a fim de valorizar as musicistas que vieram antes. Os curtas-metragens já estão disponível no YouTube e Instagram.

Por fim, ela sente-se grata pela vocação de ser musicista. “É celebrar a capacidade de transformar sentimentos em som e tocar a vida das pessoas. Ser músico é um privilégio que permite traduzir o invisível em melodia, emocionando e unindo através da arte”, conclui.

A herança

A relação com o ítalo-gaúcho também é profundamente familiar para o músico Jeverson Carelli, natural de Pinto Bandeira. Filho e neto de músicos, ele cresceu em meio a encontros de filós, as reuniões típicas da cultura italiana, e ao som do acordeon. “Eu me criei nesse meio. A música sempre fez parte da minha vida, desde pequeno”, relata.

Foi ainda jovem que ele percebeu o impacto desse estilo ao participar de uma apresentação na Maria Fumaça, com 12 anos. “A animação das pessoas, o clima de festa. Naquele dia eu decidi que queria trabalhar com isso”, destaca.

Hoje, Carelli desenvolve projetos que unem música e experiência cultural, como o “Gaita e Assado”, que mistura canções tradicionais com elementos da vivência gaúcha, incluindo o churrasco e o convívio coletivo.

A mistura que define a Serra

O que torna o gênero tão característico da região é justamente a fusão de culturas. Para Carelli, o ítalo-gaúcho é reflexo direto da formação local. “A cultura italiana e a gaúcha se mesclaram. O acordeon veio com os italianos, mas se firmou também na música gaúcha. Ritmos como valsa e marchinha aparecem nas duas tradições”, explica.

Jeverson Carelli

Essa combinação aparece tanto na sonoridade quanto no comportamento do público. Músicas dançantes, que incentivam palmas e passos, criam um ambiente festivo e coletivo. A influência também se estende às chamadas “bandinhas”, muito presentes nos bailes e que ajudam a compor o repertório típico desses encontros.

Mais do que entretenimento, o gênero carrega memória afetiva. Carelli relembra que muitas melodias fazem parte de sua vida desde antes mesmo de compreender suas letras. “Eu lembro das melodias que ouvia quando era bebê. Às vezes escuto hoje e reconheço na hora. Isso vem da convivência com meus pais e avós”, afirma.

Essa transmissão entre gerações é um dos pilares do estilo. Histórias contadas pelos mais velhos continuam sendo repassadas, agora também por meio da música.

Carelli destaca a importância de registrar canções que ainda não foram gravadas. “Existem muitas músicas que as pessoas sabem cantar, mas que nunca foram registradas. Se não fizermos isso, podem se perder”, frisa.

Ele também investe em produções autorais, como o projeto “Ítalo Gaúcho”, que busca justamente evidenciar essa mistura cultural por meio de novas composições e registros audiovisuais.

Um símbolo da região

Na prática, o ítalo-gaúcho segue vivo porque faz parte do cotidiano. Seja em um baile, em uma festa comunitária ou em um evento turístico, a presença desse estilo é quase inevitável na Serra. “Quem vem para a região espera ouvir isso”, resume Carelli, ao relembrar de situações em que turistas pedem músicas italianas mesmo em eventos voltados à cultura gaúcha.