Fotografias, documentos e objetos guardados pelas famílias de São Luiz das Antas, no distrito de Tuiuty, ajudam a reconstruir partes da história da comunidade. Esse trabalho começou a ganhar forma em 2023, a partir de uma atividade da catequese, e resultou em exposições realizadas nos últimos anos. No dia 26 de setembro, uma nova edição será apresentada na comunidade, desta vez com foco nos 75 anos da atual igreja São Luiz Gonzaga.
Como começou
A primeira experiência surgiu durante as atividades da catequese, em 2023. Rosane Greselle Postal que coordena o projeto, tinha três turmas, com quatro catequizandos, e procurava uma forma diferente de fazer com que as crianças conhecessem a comunidade.
Uma gincana foi organizada ao longo do ano. Entre as tarefas, os catequizandos precisavam levar fotografias de batizado e de família, objetos e responder a perguntas sobre a comunidade. Ao final, surgiu a dúvida sobre o que fazer com o material reunido. “Quando estava chegando ao final do ano, eu pensei: agora, o que a gente vai fazer com o que eles trouxeram, com o que eles conheceram? Daí resolvemos fazer uma exposição”, conta.
A reação dos visitantes fez com que a ideia de continuar o trabalho surgisse ainda naquele momento. “No dia em que fizemos a exposição, as pessoas gostaram tanto que a gente viu a emoção no olhar delas. Naquele mesmo dia, já dissemos: no ano que vem, a gente vai fazer de novo”, recorda Rosane.
A continuidade, porém, foi interrompida pelas enchentes de 2024. Segundo ela, além das dificuldades de acesso à comunidade, havia também o impacto emocional provocado pelo período. A exposição prevista para aquele ano foi cancelada.
No ano seguinte, a iniciativa foi retomada com uma exposição dedicada a Eliza Rosina, conhecida na comunidade como “Tia Isa”. A edição teve um público menor do que a de 2023, mas manteve a proposta de construir o projeto aos poucos.

Arquivos da comunidade
O trabalho de pesquisa não começou, porém, com a catequese. Rosane conta que uma experiência ocorrida há cerca de 30 anos atrás já havia despertado a necessidade de reunir registros sobre São Luiz das Antas.
Na época, houve uma gincana e uma das tarefas era contar a história da localidade. “Quando eu fui perguntar sobre a história da comunidade, ninguém tinha informações de nada. As informações se contradiziam”, explica.
A partir disso, documentos passaram a ser buscados. “Eu consegui muito material, ao longo desses 30 anos, de documentos. Hoje eu posso dizer que a comunidade tem essas informações, desde lá de 1897 até os dias atuais”, afirma.
Além dos documentos, fotografias também foram sendo reunidas. Para a exposição deste ano, o levantamento feito nas famílias resultou em um arquivo de aproximadamente 800 imagens.
Memória nas fotos
As fotografias encontradas registraram batizados, primeiras eucaristias, casamentos, acontecimentos e momentos cotidianos. Há imagens feitas tanto dentro quanto fora da igreja.
Rosane explica que as fotografias não servem apenas para mostrar as pessoas retratadas. “Então uma das curiosidades que eu percebi é que, no observar das fotos, a gente vê aquele casal que casou, mas também da para ver o fundo da igreja, como ela estava ornamentada, como estava pintada, muitas vezes”, conta.
Para ela, os 75 anos da igreja também podem ser contados a partir das pessoas que fizeram parte da comunidade e dos registros deixados pelas famílias. “A história é contada pela igreja, mas também pelas pessoas”, afirma.
Antes da atual
A edição deste ano terá como tema os 75 anos, mas o material apresentado também voltará a períodos anteriores. Cópias de documentos relacionados à atual estrtutura e às construções anteriores estarão na exposição.
Segundo Rosane, conhecer essas etapas é necessário para compreender a formação da atual igreja São Luiz Gonzaga. “Isso a gente vai contar de maneira simplificada. Mas achamos importante contar a história desde o início, porque foi fruto do trabalho dessas pessoas que viveram antes de nós que fizeram com que esse santuário atual exista”, explica Rosane.
Uma parte da exposição será dedicada às igrejas anteriores e à história da comunidade, acompanhada de alguns relatos.
Uma história curiosa também aparece entre os registros reunidos pela comunidade sobre a igreja São Luiz Gonzaga. Em abril de 1897, um terreno localizado no lote 45 foi doado para a construção da igreja católica São Luiz Gonzaga. Poucos meses depois, em outubro do mesmo ano, outro terreno, no lote 29, também foi destinado à construção da igreja. Os dois lotes ficavam em lados opostos do rio.
No lote 29, chegaram a ser construídos uma igreja e um cemitério. O registro chama atenção ainda porque a igreja foi erguida antes de receber a autorização do bispo. Segundo Rosane, mesmo com os documentos reunidos, ainda não foi possível esclarecer por que houve duas doações de terrenos para a construção da mesma igreja em um intervalo de apenas alguns meses.
Outro registro que faz parte dessa história é a existência de um capitel com um quadro de Santana, lembrado por moradores mais antigos. O que aconteceu com ele, porém, ainda não foi descoberto.
A documentação também ajudou a esclarecer datas da história da comunidade. Rosane afirma que já conhecia referências a abril de 1897 e julho de 1899, mas somente nesta semana conseguiu um documento de outubro de 1897 que procurava havia algum tempo.
Lugar e memória
O levantamento histórico também fez com que Rosane percebesse que São Luís das Antas possui uma relação antiga com pessoas que vêm de fora da comunidade. Ela cita relatos de pessoas que dizem ter familiares que serviram no primeiro batalhão ferroviário, que moraram na vila, possuíram terras ou tiveram outras relações com o local.
Segundo ela, a região também recebia pessoas que iam até o rio e utilizavam o local para caminhadas. Atualmente, ainda é possível encontrar pessoas passando pela comunidade de bicicleta, moto e triciclo. “A gente percebeu que as outras pessoas estavam valorizando o lugar onde a gente vive e a gente não estava dando a devida importância”, explica.
É nesse ponto que ela relaciona o trabalho de pesquisa com a preservação da comunidade. “Esse é o maior objetivo, fazer com que as pessoas da comunidade conheçam o lugar onde elas vivem, pra preservar, pra amar, pra cuidar”, conclui.
A exposição do dia 26 terá as fotografias como principal forma de apresentar essa história. Também serão exibidos objetos da igreja e da comunidade, além de cópias dos documentos reunidos ao longo dos anos. A programação começa às 14h e inclui ainda a expedição fotográfica “Paisagens do Vale das Antas”, com vinho, história e gastronomia, seguida de confraternização.




