Entre 20% e 30% das pessoas com depressão apresentam um perfil marcado por inflamação de baixo grau e alterações metabólicas. O dado consta em uma revisão publicada na Nature Mental Health e descreve um subtipo conhecido como depressão imunometabólica. Segundo os pesquisadores, essa condição ajuda a explicar por que parte dos pacientes não responde adequadamente aos antidepressivos tradicionais e continua com sintomas persistentes mesmo em tratamento.

A publicação reforça uma mudança na compreensão científica da depressão. Em vez de um transtorno homogêneo, os estudos indicam a existência de quadros distintos, com bases biológicas diferentes e, consequentemente, necessidades terapêuticas específicas.

Alterações metabólicas e funcionamento cerebral

Pesquisas das últimas décadas mostram que processos inflamatórios, hormonais e metabólicos interferem diretamente no funcionamento do cérebro e no risco de transtornos do humor. A depressão imunometabólica é caracterizada por inflamação leve e persistente, associada a alterações no metabolismo da glicose, da insulina e da produção de energia celular.

Os sintomas podem diferir do padrão mais conhecido da depressão clássica e incluem fadiga intensa, sono excessivo, aumento do apetite e redução do prazer nas atividades diárias.

A insulina, além de regular a glicose no sangue, desempenha funções importantes no cérebro. Regiões ligadas ao apetite, motivação, memória e humor possuem receptores sensíveis a esse hormônio. Quando a sinalização ocorre de forma adequada, o cérebro recebe informações coerentes sobre a disponibilidade de energia.

Em casos de inflamação crônica, obesidade ou resistência periférica à insulina, esse sistema pode se desorganizar. A insulina chega em menor quantidade ao cérebro ou perde eficiência nas células nervosas. O resultado é um desequilíbrio: o organismo pode ter energia em excesso, enquanto o cérebro funciona como se estivesse em déficit energético.

O cérebro consome cerca de 25% da energia do organismo em repouso. Alterações nos mecanismos bioenergéticos impactam diretamente a formação de novos neurônios, as sinapses e a cognição. A chamada resistência à insulina cerebral afeta circuitos relacionados ao humor, à motivação e ao comportamento alimentar e pode elevar de duas a três vezes o risco de depressão. Estudos também associam esse processo a maior fadiga, menor plasticidade neuronal e alterações na resposta ao estresse.

Relação com doenças metabólicas

Pessoas com depressão imunometabólica apresentam maior risco de desenvolver doenças cardiometabólicas, como diabetes tipo 2, hipertensão e esteatose hepática. Um estudo publicado no The Lancet Regional Health – Europe aponta que depressão e alterações metabólicas frequentemente se retroalimentam.

Segundo a literatura científica, quando a base do quadro envolve inflamação e metabolismo, atuar exclusivamente sobre neurotransmissores pode gerar resultados limitados, o que contribui para a menor resposta aos antidepressivos em parte dos pacientes.

Abordagem mais personalizada

Com o avanço das pesquisas, a psiquiatria tem incorporado evidências sobre a influência de fatores ligados ao estilo de vida — como alimentação, atividade física, sono e manejo do estresse — nos processos cerebrais associados ao humor.

Estudos em nutrição aplicada à psiquiatria indicam que padrões alimentares pró-inflamatórios e pobres em nutrientes essenciais comprometem a comunicação entre cérebro e metabolismo. Por outro lado, estratégias que favorecem a sensibilidade à insulina, reduzem inflamação e sustentam a função mitocondrial podem atuar como complemento terapêutico, especialmente em quadros mais resistentes.

Essas intervenções não substituem medicação ou psicoterapia, mas ampliam as possibilidades de cuidado.

Nutrientes e saúde mental

Entre os nutrientes mais estudados estão as vitaminas do complexo B, especialmente B6, B9 e B12, envolvidas na produção de neurotransmissores e no controle da homocisteína, marcador inflamatório associado a maior risco de depressão e declínio cognitivo. Níveis adequados dessas vitaminas estão relacionados a melhor desempenho cognitivo e menor frequência de sintomas depressivos.

A vitamina D também tem sido associada à regulação da serotonina, à proteção das células nervosas e ao funcionamento do sistema imunológico. Estudos observacionais apontam que níveis baixos dessa vitamina estão relacionados a maior inflamação cerebral e maior risco de sintomas depressivos, especialmente em pessoas com pouca exposição ao sol.

Minerais como magnésio, zinco e selênio participam da regulação do sono, da plasticidade cerebral, da resposta ao estresse e dos sistemas antioxidantes. Revisões científicas associam a carência desses nutrientes a sintomas como fadiga persistente, irritabilidade e dificuldade de concentração.

As gorduras ômega-3 também são citadas em meta-análises por sua atuação na estrutura das membranas neuronais, na comunicação entre células nervosas e na modulação da inflamação, estando associadas à redução de sintomas depressivos em parte dos pacientes.

A literatura científica aponta que considerar metabolismo, alimentação e estilo de vida amplia a compreensão sobre a depressão e contribui para abordagens mais ajustadas à complexidade do transtorno, tanto na prevenção quanto no tratamento clínico.