Quarta-feira, 22 de Julho de 2026

ÚLTIMA HORA

Dois anos após as enchentes, produtores ainda enfrentam reflexos no campo

Fruticultura ainda demanda anos para recuperar o potencial produtivo, enquanto produtores seguem reconstruindo áreas atingidas e reorganizando as finanças

Embora a maior parte das propriedades rurais da Serra Gaúcha tenha retomado as atividades após as enchentes de 2024, produtores ainda convivem com sequelas que vão desde a necessidade de reconstrução de áreas produtivas até a renegociação de dívidas para manter a atividade. O cenário, segundo entidades que acompanham o setor, varia conforme a região e o tipo de produção, sendo mais intenso em algumas localidades do Estado.

Recuperação ainda em andamento

O apoio técnico regional da Emater/RS-Ascar para a Serra Gaúcha, Thompsson Benhur Didone, explica que a instituição acompanhou de perto os impactos provocados pelas inundações nos 49 municípios da região, realizando visitas às propriedades, elaborando laudos para os decretos de emergência e orientando os agricultores durante o processo de recuperação.

Segundo ele, apesar das ações já adotadas, a produção de frutas ainda demanda um período maior para se restabelecer. “Como a gente está falando de fruticultura, evidentemente que não conseguiram ainda se recuperar totalmente. Se perdeu um pomar ou um vinhedo, essa cultura leva de dois a cinco anos para voltar a dar retorno, dependendo da espécie”, afirma.

Didone explica que, nas áreas atingidas onde foi possível retomar a atividade, houve necessidade de readequar o terreno e reimplantar os pomares. No entanto, a produção ainda não voltou ao patamar registrado antes da tragédia climática. “Os vinhedos, os pomares de citros, de pêssego e de ameixa que foram levados embora precisaram ser replantados. Ainda não temos o retorno que os fruticultores tinham na época das enchentes”, pontua.

Consequências financeiras

Além da recuperação das áreas produtivas, parte dos agricultores precisou recorrer a financiamentos ou renegociar dívidas para dar continuidade à produção. “Grande parte recorreu a financiamentos ou renegociou dívidas para se manter na atividade”, afirma Didone.

O técnico aponta que diferentes programas de apoio contribuíram para a retomada das propriedades, como linhas de crédito do Pronaf e iniciativas do Governo do Estado voltadas à recuperação do solo e à resiliência climática. Apesar disso, pondera que os recursos não são satisfatórios para reparar integralmente os prejuízos. “Tivemos outras medidas que apoiaram os agricultores, mas nunca é o suficiente. Um estrago climático deixa consequências para vários anos”, afirma.

Para o presidente do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Bento Gonçalves, Monte Belo do Sul, Pinto Bandeira e Santa Tereza, Cedenir Postal, o cenário observado na região é diferente daquele registrado em outras áreas do Rio Grande do Sul, onde o endividamento dos trabalhadores rurais é mais expressivo. “A nossa região pode ter alguns produtores com problemas de endividamento, mas não é tão atingida quanto outras regiões. Os produtores de soja, milho e arroz sentiram muito mais os efeitos das últimas secas, principalmente no Noroeste e Norte do Estado”, observa.

Novos investimentos

Embora o cenário regional seja considerado menos crítico do que em outras áreas do Estado, há produtores que ainda enfrentam dificuldades para reconstruir suas propriedades e equilibrar as finanças. Em Pinto Bandeira, o viticultor Gilmar Pagno é um dos agricultores que precisaram renegociar dívidas e investir novamente para retomar a produção. “Perdi um hectare de parreiras por deslizamento. O estrago foi nas parreiras e na estrada de acesso à propriedade. Muitas árvores desceram sobre a área”, conta.

Para retomar a produção, foi necessário reconstruir o acesso, recuperar o terreno e iniciar novamente a formação do parreiral. “Tive que investir tudo de novo para começar do zero. Negociei as dívidas e fiz novas propostas de investimento para poder erguer o parreiral de volta”, explica.

Segundo o produtor, os custos continuam sendo sentidos mesmo passados mais de dois anos do desastre. “Estou pagando dívidas que poderia já ter pago. Não tive benefício nenhum, nem de máquina para reconstruir. Tive que arcar com tudo”, ressalta.

Além dos prejuízos financeiros, algumas mudanças na propriedade permanecem visíveis. “Depois da chuvarada, teve lugar que ficou úmido e correndo água, coisa que nunca existiu. Existe dificuldade ainda por causa do deslizamento. Começar a produção de novo é um custo que a gente não esperava”, relata.

Instabilidade climática

Para a Emater, um dos principais desafios enfrentados atualmente é a falta de mecanismos de proteção diante da instabilidade climática. “O agricultor trabalha a céu aberto e está sempre suscetível aos eventos climáticos”, alerta.

Didone aponta que a necessidade de contratação de seguros aumenta os custos da produção e defende investimentos em medidas preventivas, como projetos regionais de proteção contra o granizo, considerados importantes para reduzir riscos e oferecer maior segurança aos agricultores.

Segundo ele, além dos prejuízos imediatos causados por enchentes e temporais, os produtores precisam conviver com custos adicionais, como a contratação de seguros e investimentos em estruturas de proteção para reduzir os riscos de novos eventos climáticos.

Entre as alternativas defendidas pela Emater está a implantação de um sistema regional de proteção contra granizo, projeto que vem sendo discutido por órgãos públicos e instituições da Serra Gaúcha com o objetivo de reduzir prejuízos tanto na agricultura quanto nas áreas urbanas.

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