Quarta-feira, 22 de Julho de 2026

ÚLTIMA HORA

Bairro São João: novo acesso transforma rotina, mas moradores cobram asfalto e segurança no trânsito

Durante décadas, atravessar a BR-470 para acessar o São João era uma das principais preocupações da comunidade. A construção do túnel eliminou a travessia em nível e passou a ser considerada um marco para o desenvolvimento do bairro. Moradora há cerca de 35 anos, Geltrude Penso acompanha essa transformação desde antes da implantação do atual sistema de acesso. “A travessia era muito perigosa. O túnel melhorou muito a nossa vida. Hoje ele já acaba ficando pequeno para o movimento que existe nos horários de pico”, explica.

Geltrude também lembra que outra reivindicação antiga dizia respeito à iluminação do túnel. Inicialmente abastecido por um sistema de energia solar, o local permanecia escuro durante a noite. A situação mudou após a instalação da rede elétrica e de luminárias em LED realizada pela prefeitura.

A percepção é compartilhada pelo comerciante Daniel Luiz Galvan, morador do bairro há cinco anos e proprietário de um mercado. “Depois do túnel ficou muito mais fácil acessar o bairro. Melhorou bastante a mobilidade e isso ajuda tanto quem mora quanto quem vem comprar”, afirma.

Galvan considera que o crescimento da região também exige investimentos contínuos na infraestrutura viária. “Nas principais ruas ainda falta asfaltamento. É uma melhoria importante para acompanhar o desenvolvimento do bairro”, avalia.

Mobilidade

Gerente de uma empresa instalada no bairro há cerca de oito anos, Leandro Concari afirma que o maior problema não está na nova estrutura construída, mas na forma como o trânsito se organiza nas proximidades do acesso.

Segundo ele, caminhões, fornecedores e funcionários enfrentam dificuldades principalmente nos horários de maior movimento. “A estrutura ficou muito boa, mas falta segurança. Quem vem pela BR chega em alta velocidade e quem precisa acessar o bairro ou atravessar a via acaba ficando exposto”, afirma.

Concari relata que motoristas de transporte frequentemente comentam sobre a dificuldade para entrar ou sair do bairro e acredita que a solução passa por medidas relativamente simples. “O que falta é sinalização melhor e algum redutor de velocidade. A faixa de pedestres sozinha não resolve porque muitos motoristas não respeitam”, argumenta.

Ele aponta que centenas de trabalhadores precisam atravessar diariamente o acesso para chegar às empresas instaladas no bairro. “É um movimento muito grande. Antes havia preocupação com os acidentes na travessia da rodovia; hoje a preocupação é com a velocidade de quem passa pelo viaduto”, observa.

Mesmo fazendo críticas ao sistema de circulação, Concari ressalta que a obra trouxe ganhos importantes. “O projeto foi muito bom. Melhorou bastante em relação ao que era antes. Só precisa de ajustes para dar mais segurança para quem utiliza aquele acesso”, pondera.

A preocupação também aparece entre moradores que utilizam diariamente as vias próximas à escola do bairro. Moradora do São João há aproximadamente 35 anos, Salete Zortea afirma que algumas ruas ainda precisam receber melhorias na infraestrutura. “A gente gostaria que terminassem as calçadas e que a rua Savério Poleto fosse asfaltada. É um trecho estreito e bastante utilizado por quem leva crianças para a escola”, reivindica.
A mesma situação é observada por Carla Nalin, que aponta a subida em direção à escola como uma das principais demandas da comunidade.

Segundo ela, em dias de chuva, ônibus escolares, caminhões e ônibus urbanos enfrentam dificuldades para vencer o aclive, o que aumenta o risco de acidentes. “Temos muitas pessoas idosas que utilizam essa rua e, quando chove, os veículos acabam patinando. Às vezes há carros menores logo atrás e isso pode causar acidentes”, conta.

A reivindicação também é reforçada por Geltrude, que cita a Rua João Fedrigo entre as prioridades. “Há muitos anos pedimos asfalto pelo menos até a escola. É um morro bastante íngreme e continua sendo uma necessidade do bairro”, explica.

Outra via mencionada pela moradora é a Rua Portugal, onde caminhões frequentemente deslocam pedras do calçamento devido à inclinação da pista. “Os moradores reclamam bastante, pois isso dificulta ainda mais a circulação”, comenta.

Crescimento

Empreendedora há cerca de dois meses no bairro, Kasly Zardo afirma que o movimento diário tem contribuído para consolidar o comércio local. “Ao mesmo tempo em que é tranquilo, tem bastante movimento, principalmente no fim da tarde. Cresceu muito nos últimos anos e hoje as pessoas conseguem encontrar cada vez mais serviços perto de casa”, avalia.

Empreendedora há cerca de dois meses no São João, Kasly Zardo (Foto: Jornal Semanário)

Ela observa, no entanto, que o aumento da circulação de veículos exige atenção. “Nos horários de pico há bastante movimento por causa das empresas. Vejo muitas crianças andando de bicicleta e isso faz a gente ter um cuidado maior com o trânsito”, alerta.

Embora os entrevistados avaliem positivamente aspectos como segurança, limpeza urbana e abastecimento de água, há consenso de que algumas estruturas precisam acompanhar a expansão do bairro, especialmente nas áreas da saúde e da oferta de serviços.

Uma das reivindicações locais mais antigas é a construção de uma nova unidade de saúde. Atualmente, os atendimentos ocorrem em um espaço instalado sob as arquibancadas do Estádio Montanha dos Vinhedos, estrutura que, segundo moradores, atende a população, mas já não oferece as condições ideais. Geltrude relembra que o atendimento em saúde começou de forma muito mais precária. “No início, era feito dentro do ônibus da saúde. Ele vinha duas vezes por semana, e nós abríamos o salão da comunidade para ligar a energia e acomodar as pessoas enquanto aguardavam a consulta. Hoje temos o posto funcionando, mas precisamos de uma estrutura melhor, é uma das principais necessidades”, ressalta.

Demandas persistem

Além da ampliação da unidade de saúde, Geltrude acredita que o crescimento populacional também exige atenção em outras áreas. Segundo ela, a Escola Municipal Tancredo de Almeida Neves já começa a sentir os efeitos do aumento no número de moradores. “Acredito que o colégio também já esteja pequeno para a quantidade de alunos. É uma situação que precisa ser pensada para os próximos anos”, avalia.

Os entrevistados também reconhecem avanços na iluminação pública, especialmente com a substituição gradual das luminárias por LED, mas apontam que a modernização ainda precisa ser concluída em toda a comunidade.

Entre as demandas que permanecem, a instalação de uma farmácia é a mais recorrente. Para Kasly, o comércio cresceu junto com a população, mas alguns serviços ainda precisam acompanhar esse desenvolvimento. “As pessoas comentam bastante que faz falta uma farmácia, principalmente uma rede com preços mais acessíveis”, afirma. A reivindicação é compartilhada por Salete. “Mercados nós já temos. O que realmente faz falta é uma farmácia. Existe até a expectativa de que uma seja instalada futuramente, mas ainda não há confirmação”, comenta. Geltrude também defende melhorias na praça do bairro, especialmente com a ampliação da arborização para oferecer mais conforto às famílias. “Ali não tem árvores, não tem sombra. Agora, no inverno, tudo bem, mas no verão as mães levam as crianças para brincar e não têm uma sombra. Teria que ver alguma coisa porque está faltando”, afirma.

Uma vida dedicada ao crescimento do São João

Geltrude Zanette Penso e o marido, Ivaldo Penso, acompanham há décadas o desenvolvimento do bairro São João (Foto: Arquivo pessoal)

A história de Geltrude Penso se mistura com a do bairro São João. Moradora da comunidade há cerca de 35 anos, ela chegou à região ainda antes de construir sua casa. Em 1988, quando lecionava na rede municipal, pediu transferência para a Escola Municipal Tancredo de Almeida Neves, próxima ao terreno onde pretendia morar. Na época, a realidade era bem diferente da atual.

Para chegar ao trabalho, Geltrude descia de ônibus até a antiga parada da Menoncin, na Avenida Guilherme Fasolo, e seguia o restante do trajeto a pé, enfrentando estrada de chão, barro e a falta de transporte coletivo até o bairro. “Naquela época não tinha transporte até aqui. Eu vinha de ônibus até a parada e subia a pé todos os dias. Muitas vezes voltava caminhando para casa porque esquecia o dinheiro ou as passagens. Era uma realidade completamente diferente”, relembra.

O contato diário com a escola fez com que ela passasse a participar também das atividades promovidas pela comunidade. Em 1995, passou a integrar a diretoria da igreja ao lado do marido e ampliou sua atuação nas reivindicações do bairro, em uma época em que ainda não existia associação de moradores.

Atuação pela comunidade

As reuniões aconteciam no salão da comunidade, onde os próprios moradores definiam as prioridades e organizavam mobilizações para buscar melhorias junto ao poder público. “Tudo o que era proposto para melhorar o bairro eu procurava ajudar. A gente ia à prefeitura pedir ampliação da escola, ônibus, calçamento, telefone. Aos poucos fomos conquistando essas melhorias”, diz.

Ao longo dos anos, Geltrude acompanhou de perto a expansão da Escola Tancredo de Almeida Neves, participou de campanhas para arrecadação de recursos, da construção da igreja, da conquista do transporte coletivo e da implantação do posto de saúde. Entre as realizações que mais lhe trazem orgulho está a criação da creche do bairro. “Lutei muito para conseguirmos. Era uma necessidade urgente para as famílias e eu fui muitas vezes à prefeitura cobrar essa demanda até que ela se tornasse realidade”, afirma.

Hoje aposentada da educação e presidente da Associação de Moradores do São João, ela continua acompanhando de perto as necessidades da comunidade. Para Geltrude, o que mantém esse envolvimento é o vínculo construído ao longo de décadas com os moradores. “Sempre gostei de ajudar. Quando alguém me procura com algum problema, vou atrás para tentar resolver. O que mais me motiva é o carinho que recebo das famílias”, comenta.

Esse reconhecimento também aparece entre outros moradores. Ao falar sobre a liderança comunitária, Carla resume a percepção de quem acompanha o trabalho desenvolvido por Geltrude ao longo dos anos. “Ela dá a vida pelo bairro”, conclui.

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