Consolidado como um dos bairros mais próximos da área central de Bento Gonçalves, o Maria Goretti reúne comércio, serviços e empresas que aproveitam a facilidade de acesso pela BR-470. Ao mesmo tempo, as entrevistas realizadas com moradores e empreendedores mostram que a realidade da comunidade muda conforme a localização. Enquanto algumas áreas são apontadas como tranquilas e com boa qualidade de vida, outras concentram preocupações relacionadas à segurança, além de demandas por melhorias na infraestrutura urbana.
Segurança
Morador do Maria Goretti desde 1979, Roberto Paulo Fracalossi avalia que a principal mudança percebida ao longo das últimas décadas está relacionada à segurança pública. “Quando vim morar aqui, era bem diferente. A gente deixava as cadeiras na frente de casa, sentava na calçada e não tinha preocupação. Hoje a situação ficou muito mais complicada por causa do tráfico de drogas. Não existe mais aquele policiamento de antigamente”, lamenta Fracalossi. O morador afirma que episódios ligados ao tráfico e conflitos entre facções passaram a fazer parte da rotina de algumas áreas do bairro, contribuindo para a sensação de insegurança. Para ele, a presença mais frequente das forças policiais poderia contribuir para ampliar a tranquilidade dos moradores.
Apesar dessa percepção, a realidade não é uniforme em todo o Maria Goretti. Morador do bairro há cerca de 40 anos, Suelsi Luis Bau, ressalta que a situação depende da região analisada. “Moro perto da rodovia e me sinto seguro. O bairro é muito grande e vai até depois do cemitério. Muitas vezes acontece alguma ocorrência em locais mais longe da parte central do bairro”, relata.
A avaliação também é compartilhada por Alessandra Ferronato, que mantém uma confeitaria instalada no bairro há dois anos e meio. “Chego aqui às quatro e meia, cinco horas da manhã, e saio à noite. Nunca tive nenhum problema. Pelo menos nesta região, sempre me senti tranquila”, relata Alessandra.
Empresário desde 1991 e morador do Maria Goretti desde 1978, Valdir Formentini também considera que a segurança já foi melhor. “Já foi mais tranquilo. Hoje vejo pouco policiamento. Brigada Militar e Guarda Civil Municipal passam poucas vezes por aqui”, observa Formentini.
Além da preocupação com a segurança, Fracalossi acredita que esse cenário acaba refletindo também na utilização dos poucos espaços públicos existentes no bairro. Segundo ele, mesmo a pequena praça próxima à igreja deixa de ser frequentada por algumas famílias em razão do receio quanto ao tráfico de drogas.

Acesso facilita rotina
Se a segurança aparece como principal preocupação entre parte dos entrevistados, a localização é praticamente um consenso entre moradores e comerciantes como um dos maiores diferenciais.
Instalada no bairro há aproximadamente 13 anos com a empresa de autopeças, Carine Coradi afirma que a proximidade da rodovia facilita o atendimento aos clientes e contribui para o movimento da empresa.
Segundo ela, outro fator que favorece o comércio é a disponibilidade de estacionamento, característica considerada importante para quem precisa buscar peças ou retirar mercadorias.
A facilidade também é apontada por Alessandra. Como trabalha exclusivamente com encomendas, ela afirma que a ausência de grande circulação de pessoas não interfere na atividade da confeitaria. Em contrapartida, considera positiva a tranquilidade da rua e a facilidade para estacionamento dos clientes.
Para Bau, além da localização privilegiada, o bairro tem uma estrutura comercial capaz de atender às necessidades do dia a dia. “Tem mercado, açougue, ônibus e vários serviços próximos. A localização ajuda bastante e facilita a rotina de quem mora aqui”, afirma.
Apesar dos aspectos positivos, Carine observa que ainda existem dificuldades. “Quem trabalha aqui praticamente precisa ter meio de locomoção próprio porque não há muitos horários de ônibus. Também faz falta um restaurante ou um local para refeições perto das empresas”, avalia.
Já em relação à mobilidade viária, Formentini chama atenção para um problema enfrentado em algumas ruas do bairro. “Tem lugares em que o ônibus precisa fazer a curva e, por causa dos carros estacionados, às vezes é necessário retirar veículos para conseguir passar”, relata.
Espaços de lazer
Moradores sentem falta de mais opções de diversão para crianças, jovens e famílias.
Formentini afirma que essa é uma das principais carências da comunidade. Segundo ele, o bairro já contou com um espaço utilizado para a prática esportiva, mas a estrutura deixou de existir há mais de uma década. “Hoje praticamente não existe. O único espaço que tinha acabou sendo transformado para outro uso e o bairro ficou sem uma área adequada para esse tipo de atividade”, comenta.

Fracalossi compartilha da mesma percepção e acrescenta que a utilização da praça existente por parte das famílias acaba sendo limitada pela preocupação com a segurança em alguns momentos.
Para ele, ampliar e qualificar os espaços públicos destinados ao lazer também representa uma forma de fortalecer a convivência comunitária.
Demais serviços públicos
Além das diferentes percepções sobre segurança, o atendimento e a infraestrutura do Maria Goretti foram, de maneira geral, bem avaliados pelos entrevistados. O atendimento na Unidade Básica de Saúde (UBS) recebeu elogios de quem utiliza, assim como a coleta de lixo, considerada regular e eficiente. Embora Fracalossi questione o valor da taxa de coleta cobrada junto ao IPTU, ele ressalta que a prestação do serviço atende às necessidades da comunidade.
Apesar da avaliação positiva sobre esses serviços, moradores reforçam que a infraestrutura ainda apresenta desafios em pontos específicos. Um dos problemas mais citados é o abastecimento de água. Enquanto Formentini e Alessandra afirmam não enfrentar dificuldades no dia a dia, Bau relata que as partes mais altas do bairro convivem com interrupções frequentes no fornecimento. Segundo ele, quem não possui caixa d’água acaba sendo mais prejudicado, além de haver demora na solução de vazamentos registrados na rede.
O saneamento básico também aparece entre as reivindicações. De acordo com os entrevistados, parte das residências ainda utiliza fossas, há locais com esgoto a céu aberto e a ampliação da rede de esgotamento sanitário é vista como uma necessidade. Fracalossi também chama atenção para o aumento de roedores no bairro, situação que, na avaliação dele, está relacionada às condições da rede de esgoto. “Hoje vejo muito mais ratos do que antigamente. Eu compro veneno em quilo para fazer o controle, mas os ratos vêm do esgoto. Acho que isso deveria ser uma preocupação maior do poder público”, afirma.





