Embora a Secretaria Municipal de Saúde afirme que não há déficit de ginecologistas e que o tempo médio de espera para consultas é de aproximadamente 30 dias, relatos de mulheres ouvidas pelo Jornal Semanário apontam experiências diferentes, marcadas por dificuldades para conseguir atendimento, dar continuidade ao tratamento e acessar procedimentos cirúrgicos.
O acesso ao atendimento ginecológico é uma das principais portas de entrada para a prevenção e o acompanhamento da saúde da mulher ao longo da vida. Na rede pública de Bento Gonçalves, o serviço é oferecido por meio de encaminhamento realizado na Atenção Primária, com consultas especializadas reguladas conforme critérios clínicos e prioridade de cada paciente.
O cuidado acompanha toda a vida da mulher
Para a enfermeira Tatiane Bazi Ribeiro, professora do curso de Enfermagem da Universidade de Caxias do Sul (UCS), especialista em Enfermagem Materno Infantil pelo Hospital Moinhos de Vento e mestre em Pediatria e Saúde da Criança pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS), um dos equívocos mais comuns é associar a consulta ginecológica apenas ao surgimento de sintomas ou período fértil da mulher. “O acompanhamento regular é um dos pilares da atenção integral à saúde da mulher. Não se trata de um cuidado restrito à vida reprodutiva ou à existência de sintomas: a saúde ginecológica acompanha a mulher desde a menarca à senilidade, atravessando fases hormonais, reprodutivas e sociais muito distintas entre si”, afirma.
Segundo a especialista, cada etapa da vida apresenta necessidades específicas. A adolescência é um período importante para orientações sobre saúde sexual e reprodutiva, contracepção e prevenção de infecções sexualmente transmissíveis. Já a gestação, o puerpério, o climatério e a pós-menopausa exigem acompanhamento voltado às mudanças próprias de cada fase, sem deixar de lado os exames de rastreamento para câncer do colo do útero e de mama, conforme as diretrizes do Ministério da Saúde. “A consulta também é um momento privilegiado de educação em saúde, abordando contracepção, planejamento reprodutivo e prevenção da violência, além de fortalecer a autonomia da mulher sobre seu próprio cuidado”, explica.
Quando a espera vira parte do tratamento
Foi justamente o tempo necessário para conseguir atendimento que motivou boa parte das manifestações recebidas pela reportagem.
Sandra Melo aguardou cerca de cinco meses até conseguir uma consulta especializada. Encaminhada em novembro, só foi atendida em abril. O atendimento, segundo ela, foi razoável, mas a situação acabou se tornando ainda mais frustrante quando não conseguiu concluir o exame solicitado devido a uma queda de pressão durante o procedimento.
Agora, precisará reiniciar todo o processo de encaminhamento. “Tenho que voltar ao início e ficar na espera por meses de novo”, relata. Ela conta ainda que informou ao médico sobre sua dificuldade em permanecer em ambientes fechados antes da solicitação de uma ressonância magnética, e acredita que outra alternativa poderia ter sido considerada.
A experiência de Sabrina Girotto foi semelhante quando o assunto é o acesso ao serviço. Ela afirma que compreende a alta demanda existente na rede pública, porém considera que o processo de agendamento poderia ser mais rápido. “Fui bem atendida, não tenho o que reclamar da consulta. O problema foi a demora para conseguir ser atendida”, conta.
Já Michele Vieira enfrenta uma realidade diferente. Após conseguir consulta especializada, recebeu indicação para uma cirurgia ginecológica. Segundo ela, foi necessário buscar auxílio de um vereador para conseguir agilizar o encaminhamento até a consulta em Farroupilha, realizada no início deste ano. Depois de meses de espera, Micheli foi chamada para realizar os exames pré-operatórios e agora aguarda a definição da data da cirurgia.
A demora relatada pelas pacientes ganha outro significado quando analisada sob a ótica clínica.
Segundo Tatiane, atrasos no acesso comprometem aquilo que os profissionais chamam de oportunidade do cuidado. “Lesões precursoras do câncer do colo do útero evoluem ao longo de anos, mas a falta de seguimento adequado após um exame alterado pode permitir a progressão para estágios invasivos, que exigem tratamentos mais agressivos e apresentam prognóstico menos favorável”, diz.
A especialista explica que situação semelhante ocorre diante de nódulos mamários suspeitos. “O atraso na investigação e na realização de procedimentos está associado a diagnósticos em estágios mais avançados”, pontua.
Mas os impactos da demora não se restringem às doenças oncológicas. Segundo Tatiane, o atraso também pode comprometer a saúde reprodutiva e emocional das pacientes. “A demora gera impactos em saúde mental, como ansiedade diante da incerteza diagnóstica, e em saúde reprodutiva, como o agravamento de quadros infecciosos que evoluem para doença inflamatória pélvica e infertilidade”, explica.
Nem toda espera tem o mesmo peso
Embora o atraso no atendimento possa trazer consequências, a professora lembra que nem todas as situações clínicas exigem a mesma rapidez. É justamente por isso que os serviços de saúde trabalham com critérios de classificação de risco.
Entre os casos que demandam atendimento prioritário estão resultados de exames sugestivos de lesões de alto grau ou câncer, nódulos mamários suspeitos, sangramento uterino intenso ou persistente, dor pélvica aguda associada à infecção, suspeita de gravidez ectópica e outras intercorrências obstétricas e ginecológicas. “Nesses cenários, protocolos de classificação de risco e fluxos de regulação assistencial bem estruturados são essenciais para garantir que a gravidade clínica determine a prioridade do atendimento”, explica.
A secretária municipal de Saúde, Daiane Piuco, esclarece que o acesso ao atendimento ginecológico especializado começa na Atenção Primária. “Durante a consulta, o médico da Unidade Básica de Saúde (UBS) realiza a avaliação clínica da paciente e, quando identificado critério para acompanhamento especializado, efetua o encaminhamento por meio do sistema municipal de regulação, garantindo a organização da fila e a priorização dos casos conforme a necessidade assistencial”, afirma.
Segundo Daiane, pacientes classificados como prioritários recebem atendimento em prazo inferior ao tempo médio de aproximadamente 30 dias registrado para as consultas ginecológicas.
Cirurgias seguem com demanda reprimida
Se para as consultas a Secretaria Municipal de Saúde afirma não haver demanda reprimida, o cenário é diferente quando se trata dos procedimentos cirúrgicos.
Atualmente, as cirurgias seguem uma fila única. “Os procedimentos ginecológicos são regulados conforme critérios técnicos e de prioridade clínica. O município conta com prestador credenciado para a realização dessas cirurgias, e as pacientes são chamadas de acordo com a ordem de prioridade e a disponibilidade de vagas”, explica Daiane.
A expectativa é ampliar essa oferta. “Além disso, encontra-se publicado um edital de chamamento público para o credenciamento de novos prestadores, com o objetivo de ampliar a oferta de cirurgias e reduzir o tempo de espera”, acrescenta.
Sobre os encaminhamentos para Farroupilha, a secretária detalha. “Pacientes com indicação para atendimento especializado em Farroupilha são encaminhadas ao Programa SERMulher RS (Serviço Especializado de Referência à Saúde da Mulher), uma estratégia do Governo do Estado voltada ao atendimento especializado e qualificado em saúde da mulher. O programa atua como retaguarda da Atenção Primária à Saúde, oferecendo consultas, exames e procedimentos para condições como alterações nos exames de rastreamento do câncer de colo do útero e de mama, endometriose, miomatose, investigação de infertilidade, climatério e planejamento reprodutivo, garantindo o encaminhamento para serviços de maior complexidade quando necessário”, detalha.
O atendimento começa pelo acolhimento
Para a enfermeira Tatiane Bazi Ribeiro, a qualidade da assistência ginecológica vai além do acesso às consultas ou da rapidez nos encaminhamentos. “O acolhimento é dimensão indissociável da qualidade técnica do cuidado. O exame ginecológico envolve, por natureza, exposição corporal e abordagem de temas íntimos, como sexualidade, reprodução, violência e autoimagem, o que exige do profissional uma postura de escuta ativa, respeito e construção de vínculo de confiança”, afirma.
As consequências aparecem quando essa relação não é construída. “Quando esse vínculo não se estabelece, a mulher tende a omitir informações relevantes, a postergar o retorno às consultas subsequentes e, em casos mais graves, a abandonar o acompanhamento por completo”, explica.
A percepção de acolhimento também interfere na continuidade do cuidado. “A literatura em saúde da mulher é consistente em demonstrar que a percepção de acolhimento está diretamente associada à adesão aos tratamentos, ao retorno para exames de seguimento e à manutenção de práticas preventivas a longo prazo”, ressalta.
Mais do que cordialidade, um atendimento humanizado envolve diferentes aspectos da assistência. “A qualidade do cuidado se mede, em última análise, pela capacidade de articular rigor clínico e sensibilidade humana, garantindo segurança, eficácia e respeito”, completa.
Essa percepção aparece, de diferentes formas, nos relatos das entrevistadas pela reportagem. Enquanto Sabrina afirma ter sido bem atendida durante a consulta, Sandra relata que sentiu falta de uma alternativa ao exame solicitado após informar ao profissional sobre sua dificuldade em permanecer em ambientes fechados.
Cuidar antes que a doença apareça
Um dos maiores desafios da saúde da mulher, na avaliação de Tatiane, não está apenas na oferta de consultas especializadas, mas também na forma como esse cuidado é compreendido pela população. “Um equívoco bastante disseminado é a crença de que a consulta ginecológica só é necessária na presença de sintomas ou após o início da vida sexual em determinadas faixas etárias, quando, na verdade, o caráter preventivo do exame é justamente identificar alterações antes que se manifestem clinicamente”, afirma.
Para ela, oferecer uma assistência de qualidade exige muito mais do que conhecimento técnico. “Um atendimento de qualidade integra três dimensões. A primeira é a competência técnico-científica, anamnese completa, exame físico adequado, solicitação racional de exames complementares e conduta fundamentada em diretrizes atualizadas e evidências científicas. A segunda é a comunicação efetiva, com linguagem acessível, espaço para dialogar, explicações sobre diagnósticos e alternativas terapêuticas, respeitando o direito da paciente à informação e à decisão compartilhada”, explica.
Além da competência técnica e da comunicação, Tatiane destaca a importância do acolhimento. “A terceira dimensão, e frequentemente a mais negligenciada, é a humanização. O ambiente deve preservar a privacidade e a dignidade durante o exame, ter sensibilidade para identificar sinais de sofrimento psíquico ou vulnerabilidade social, incluindo situações de violência, e respeitar a individualidade de cada mulher, sem julgamentos relacionados à sexualidade, reprodução ou estilo de vida. A qualidade do cuidado se mede, em última análise, pela capacidade de articular rigor clínico e sensibilidade humana, garantindo segurança, eficácia e respeito”, completa.
Atendimento na rede municipal
A secretária municipal de Saúde, Daiane Piuco, afirma que o município desenvolve iniciativas em diferentes níveis da assistência. “São diversas ações voltadas à qualificação da assistência à saúde da mulher, abrangendo desde a Atenção Primária até os atendimentos especializados. Entre as iniciativas estão a ampliação do acesso ao planejamento reprodutivo, o fortalecimento do pré-natal, a realização de exames preventivos, o acompanhamento das gestantes de alto risco e a oferta de métodos contraceptivos de longa duração”, afirma.
Entre as medidas adotadas, Daiane destaca a disponibilização do Implanon na rede pública. “A iniciativa reforça as ações de planejamento reprodutivo e contribui para a autonomia das mulheres em relação às decisões sobre sua saúde sexual e reprodutiva”, destaca.
Na área dos procedimentos especializados, a secretária cita o atendimento das cirurgias ginecológicas. “Atualmente, as cirurgias ginecológicas estão sendo realizadas junto ao Hospital São Pedro, em Garibaldi, por meio de recursos oriundos de emenda parlamentar recebida pelo Município”, informa.
Por fim, Daiane reafirma que a rede municipal tem capacidade para atender à demanda atual. “Atualmente, não há déficit de profissionais ginecologistas na rede pública municipal. O Município mantém oferta regular da especialidade através da compra de serviço, garantindo acesso às consultas e aos encaminhamentos necessários, sem prejuízo assistencial decorrente da falta de profissionais”, afirma.
Sobre o tempo de espera, ela reforça que “a oferta de consultas ginecológicas é considerada suficiente para atender à demanda do município dentro do prazo estabelecido pela Secretaria Municipal de Saúde, garantindo acesso em tempo adequado e priorização dos casos que apresentam maior urgência clínica”, conclui.




