Quarta-feira, 02 de Setembro de 2026

ÚLTIMA HORA

Coisas normais que desnormalizamos

É normal passar o Natal e o Ano-Novo com a família em casa e não em um resort cinco estrelas à beira-mar. É normal usar a mesma roupa várias vezes. Roupa foi feita para durar; nós é que nos acostumamos a consumir demais. É normal não conseguir trabalhar, criar filhos, cuidar da casa, correr uma maratona e ainda estar sempre impecável. Fique em paz com isso. As redes sociais mostram apenas um recorte da vida. A gente nunca conhece o off de ninguém.

É normal não ser rico aos 35 anos. É normal discutir no relacionamento, acordar sem vontade de levantar da cama de vez em quando. É normal ver as rugas aparecerem e os cabelos brancos chegarem. É normal se sentir inferior física ou intelectualmente quando nos comparamos com os outros. É normal perder pessoas que amamos, mesmo quando insistimos em perguntar por quê e mesmo quando a dor demora a encontrar um lugar para descansar.

É normal não fazer a unha toda semana, não ter o carro do ano, não se sentir completamente realizado. É normal não ter dez mil seguidores — pelo menos não comprados. É normal batalhar pela vida, fazer contas antes do fim do mês, ter poucos amigos, mas verdadeiros.

É normal mudar de ideia. Trocar de profissão. Descobrir que aquela escolha feita há vinte anos já não combina com quem nos tornamos. É normal pedir ajuda, cansar, desistir de alguns sonhos para abraçar outros. Sentir saudade de quem ainda está vivo. Preferir um fim de semana em casa a uma festa. Não responder uma mensagem imediatamente. Esquecer um aniversário. Errar, pedir desculpas e recomeçar.

É normal não dar conta de tudo. Aliás, ninguém dá.

Talvez o problema não esteja na nossa vida, mas na régua com que aprendemos a medi-la. Nos acostumamos a comparar os bastidores da nossa história com o palco iluminado da vida dos outros. E, nessa comparação injusta, começamos a acreditar que viver normalmente é fracassar.

Mas a vida de verdade nunca foi feita apenas de viagens, promoções, corpos perfeitos e conquistas extraordinárias. Ela acontece no café tomado às pressas, na roupa repetida, no abraço da família, na conta que fecha por pouco, na risada depois de um dia difícil e na coragem silenciosa de continuar.

Talvez tenhamos nos esquecido de que uma vida boa não precisa parecer extraordinária aos olhos dos outros.Quem sabe esteja na hora de normalizarmos aquilo que sempre foi humano: envelhecer, cansar, mudar, errar, recomeçar, amar, perder, tentar de novo e simplesmente viver.

Porque talvez a felicidade não esteja em construir uma vida extraordinária para ser admirada, mas em reconhecer, finalmente, a extraordinária beleza de uma vida comum.

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