Uma opção a mais para quem busca planejamento reprodutivo, o Implanon tem se conquistado espaço entre os métodos contraceptivos de longa duração. O dispositivo, inserido sob a pele do braço, libera continuamente um hormônio e atua na prevenção da gravidez. Apesar da praticidade, a escolha pelo método envolve avaliação individual e acompanhamento de profissionais de saúde.
Considerado um método de alta eficácia, o implante também desperta dúvidas entre as mulheres sobre seus efeitos, duração, indicação e possíveis alterações no ciclo menstrual. Para explicar como o Implanon funciona, quem pode utilizá-lo e quais são os principais cuidados relacionados ao método, a reportagem conversou com o médico ginecologista João Vicente Zottis.
De acordo com o médico, o Implanon é como se fosse um cotonete fino e maleável. “Bem flexível, dentro dele tem um progesterona de longa duração que vai entrar na corrente sanguínea, diferente do DIU Mirena, por exemplo, que vai dentro do útero. Entrando na corrente sanguínea, ele vai agir lá no ovário da mulher, impedindo que ela ovule”, explica.
Eficácia
Zottis menciona que, até o momento, com cerca de 20 anos utilizando o método em pacientes, não viu ninguém engravidar. “A segurança dele se equivale à laqueadura tubária. Então, é um método extremamente seguro. Pode-se dizer que hoje de todos os métodos é o mais seguro. Comparado ao Mirena, o Implanon não tem o risco de se deslocar, como pode vir a ocorrer com o Mirena, o que exige controle ecográfico de rotina para avaliar sua localização dentro do útero, pacientes que praticam atividade de alto impacto devem redobrar os cuidados. Já com o Implanon não é necessário nenhum cuidado adicional. “Como ele fica logo abaixo da pele é de fácil localização pela própria paciente”, observa.
Cuidados
Zottis explica que, em casos de pacientes que praticam esportes com impacto frequente no braço, como o vôlei, o implante pode ser colocado em uma posição diferente da habitual. “Eu tenho pacientes que jogam vôlei, único detalhe foi que, ao invés de eu colocar na borda anterior do braço, eu coloquei um pouquinho mais para trás, evitando o impacto da bola. Então, até jogadoras de vôlei, que teriam impacto pesado no braço por horas e horas, também podem usar, basta deslocar um pouco a posição no braço e o problema está resolvido”, relata.

Quanto tempo dura e quem pode utilizar
O ginecologista explica que o Implanon tem duração de até 36 meses, o equivalente a três anos, e pode ser utilizado por mulheres em idade reprodutiva. No entanto, a indicação deve considerar as características e o histórico de cada paciente. “Eu, particularmente, não coloco Implanon em pacientes que já tenham mastalgia, que é a dor nas mamas, principalmente se ela aparece no período pré-menstrual, porque o implante pode piorar esse quadro. Já tive casos em que precisei retirar o Implanon porque a paciente não aguentava a dor”, relata Zottis.
Outro fator levado em consideração pelo médico é o histórico do ciclo menstrual. “Se a paciente já tem alguma irregularidade menstrual, eu também tenho mais cautela, porque o principal efeito colateral do Implanon é justamente a irregularidade do ciclo. A mulher pode ter pequenos sangramentos, que chamamos de spotting (sangramento de escape), que muitas vezes são de difícil manejo são imprevisíveis. Então, é importante avaliar detalhadamente o útero da paciente, presença de miomatose, pólipos, adenomiose e principalemnte o histórico de ciclos longos e irregulares, nesses casos o método pode não ser a melhor opção e, muitas vezes acaba sendo necessário a remoção do método”, explica.
Por isso, o ginecologista reforça a importância de uma avaliação individual antes da colocação do implante. “É muito importante fazer essa seletividade, avaliar bem o tamanho do útero, o espessamento do endométrio e, principalmente, como é o ciclo menstrual dessa paciente. Nunca troque um anticoncepcional e coloque um Implanon imediatamente, porque tu não sabes como é a menstruação dela. Vai ser uma mudança hormonal muito radical”, diz Zottis.
Além das alterações no ciclo menstrual, o ginecologista salienta que alguns efeitos colaterais podem ocorrer durante o uso do Implanon, entre eles, mudanças de humor e redução da libido, acnes, oleosidade e sensação de inchaço. Segundo Zottis, o ganho de peso, por sua vez, não é necessariamente provocado pelo implante de forma isolada. “Esses efeitos podem ocorrer, mas não são, por si só, motivos para suspender o método. Se a paciente não apresenta dor nas mamas e está com o ciclo regulado, ela pode continuar se beneficiando do Implanon. Alterações de humor e libido podem ser tratadas separadamente ”, conta.
Em relação à ovulação, o médico explica que o Implanon não causa infertilidade, mas pode haver uma variação no tempo necessário para que a ovulação retorne normalmente após a retirada do implante, o que é normal . “Como o Implanon bloqueia a ovulação, não dá para saber exatamente quanto tempo depois a paciente vai voltar a ovular. É diferente do Mirena, porque, nesse caso, a mulher continua ovulando e quem comanda o ciclo menstrual é o próprio ovário. Ao retirar o Mirena, ela pode engravidar logo em seguida. Com o Implanon, pode acontecer já no primeiro ciclo, mas também pode levar três ou até seis meses”, afirma.
Contraindicações
Apesar de ser considerado um método contraceptivo de longa duração, o Implanon não é indicado para todas as pacientes. “É preciso ter atenção em casos de doenças tromboembólicas, tumorações hepáticas ou qualquer outra patologia do fígado, além de tumores sensíveis a esteroides, como o câncer de mama. Também é importante avaliar casos de sangramento e a possibilidade de hipersensibilidade ao etonogestrel. Outro ponto fundamental é observar detalhadamente as possíveis interações medicamentosas, algo que deve ser avaliado durante a consulta”, conta.
No SUS
No município, o método também está disponível no Sistema Único de Saúde (SUS), de acordo com a coordenadora da Saúde da Mulher, enfermeira Ana Paula Boldrini. Segundo ela, o Implanon começou a ser disponibilizado em Bento Gonçalves em 2018. “A iniciativa teve como objetivo ampliar o acesso das mulheres a métodos contraceptivos de longa duração e alta eficácia, fortalecendo as ações de planejamento reprodutivo e contribuindo para a prevenção de gestações não planejadas”, conta.
Como conseguir pelo SUS
De acordo com Ana Paula, o acesso ao Implanon pelo SUS, em Bento Gonçalves, ocorre com base no projeto municipal “Gravidez Tem Hora”, após avaliação individualizada pela equipe de saúde. Entre os critérios estabelecidos pelo município estão mulheres usuárias de drogas, em situação de rua, pacientes com transtornos psiquiátricos acompanhadas pelo CAPS, mulheres imunossuprimidas e adolescentes de até 16 anos que já tenham filhos. “Além disso, em 2026, o município passou a receber implantes disponibilizados pelo Ministério da Saúde, ampliando o acesso ao método para mulheres de 14 a 49 anos que desejem utilizá-lo, conforme as diretrizes da oferta federal”, conta.
Ela explica que a mulher que deseja utilizar o método deve procurar a Unidade de Saúde de referência e fazer a solicitação. “A partir disso, receberá as orientações necessárias e será encaminhada para avaliação conforme o fluxo da rede municipal”, finaliza.




