Empresários Rafael e Aline De Toni integram olivicultura, turismo de experiência e resgate da imigração italiana em projeto inovador nos Caminhos de Pedra

Em uma região marcada pela herança vitivinícola e pelo turismo consolidado, um novo capítulo começa a ser escrito nos Caminhos de Pedra, em Bento Gonçalves. À frente da iniciativa estão os empresários Rafael De Toni e Aline Winoski De Toni, responsáveis pela primeira plantação de oliveiras do município. Mais do que produzir azeite, o projeto propõe um resgate da cultura italiana, uma experiência turística sensorial e uma aposta sustentável no futuro da Serra Gaúcha. “O objetivo não é apenas extrair azeite. É criar vivências que conectem o visitante à história, à natureza e ao território”, afirma Aline.

Segundo dados do Instituto Brasileiro de Olivicultura (Ibraoliva), o Brasil importa mais de 95% do azeite que consome. Ainda assim, a olivicultura nacional vem avançando, especialmente no Rio Grande do Sul, que responde por mais de 70% da produção brasileira. A Serra Gaúcha, que já abriga parreirais seculares, agora começa a ver nas oliveiras uma nova vocação, e Bento Gonçalves passa a fazer parte desse mapa. “Buscava algo que agregasse valor ao hotel e ao turismo da região. Após muita pesquisa, percebi que as oliveiras unem simplicidade no manejo, nobreza do produto e forte apelo turístico”, explica De Toni.

Herança cultural e inovação

A própria família que plantou em quatro mil metros de terreno

No início, o projeto enfrentou questionamentos. Alguns profissionais duvidaram da ligação entre o cultivo de oliveiras e a colonização italiana. A resposta veio por meio da pesquisa histórica. “Conversei com o arquiteto Júlio Posenato, idealizador do roteiro Caminhos de Pedra, e ele confirmou: as oliveiras faziam parte da vida dos imigrantes italianos. Produziam azeitonas, azeite, conservas. Isso já estava documentado no projeto original, inclusive com a referência à antiga Casa da Azeitona”, recorda De Toni.

Com base nesse resgate, o casal adquiriu um terreno nos Caminhos de Pedra, antes ocupado por parreirais. Após análises técnicas com especialistas, como o professor Gustavo Brunetto, da Universidade Federal de Santa Maria, e Enilton Fick Coutinho, pesquisador de referência nacional, foi iniciado o plantio de oliveiras em setembro de 2024. Atualmente, a área ocupa cerca de quatro mil metros quadrados e conta com três variedades, Arbequina, Koroneiki e Coratina. A próxima etapa inclui Arbosana e Frantoio, com o objetivo de alcançar sete hectares. “O plantio foi feito por nós, com apoio das nossas filhas. É mais do que um projeto, é um legado familiar”, diz Aline.

Turismo rural e experiências autênticas

Embora o cultivo de azeite tenha potencial produtivo, o principal foco é o turismo de experiência. A plantação integra o projeto do Hotel Sanpiero, empreendimento em fase de aprovação final, que reunirá hospedagem de alto padrão, clube do vinho com vinícolas parceiras, casa de eventos e loja de produtos locais. “O visitante será convidado a percorrer mais de um quilômetro entre oliveiras até chegar ao hotel. Será uma imersão na paisagem, na cultura e na memória”, afirma Rafael.

Além das caminhadas, o projeto prevê eventos temáticos como a Noite da Colheita, celebrações entre os olivais e atividades ligadas à gastronomia e à história local. Uma casa centenária, prestes a ser demolida, foi adquirida pelo casal e será restaurada como espaço de memória da imigração italiana. Tudo será identificado pela marca registrada Sanpiero, em referência a São Pedro, símbolo de fé e proteção familiar. “Queremos oferecer mais do que uma hospedagem. Queremos criar conexões emocionais. O que realmente marca o turista é a história por trás do que ele vive”, ressalta Aline.

Sustentabilidade e valorização da comunidade

Localizado próximo a Salton, plantação já iniciou

A plantação adota práticas sustentáveis, com uso mínimo de defensivos e controle biológico de pragas. “Soubemos de um produtor que soltou joaninhas para controlar traças de forma natural. Pretendemos aplicar isso aqui também”, comenta Rafael. O terreno, com boa drenagem e incidência solar, permite um cultivo limpo, sem impacto para os parreirais vizinhos.

Outro pilar do projeto é a valorização dos produtores locais. A proposta é que todos os alimentos, vinhos, geleias, hortaliças e demais produtos comercializados no hotel sejam provenientes da região. Além disso, haverá rodízio de fornecedores, dando visibilidade a diferentes empreendedores. “Queremos que o turista tenha sempre uma novidade e que vários produtores possam mostrar o seu trabalho”, pontua Aline.

O Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Rio Grande do Sul (IFRS – Campus Bento Gonçalves) acompanha o desenvolvimento das plantas, garantindo base técnica e troca de saberes com os alunos.

Enfrentamentos e aprendizados

Apesar da receptividade da comunidade, o projeto conta com apoio formal de 60 famílias locais, a iniciativa enfrentou resistência institucional. Uma denúncia gerou atraso de mais de um ano na aprovação junto ao Compach (Conselho Municipal do Patrimônio Cultural). “Falaram que utilizamos uma arquitetura ‘falsamente histórica’, o que não existe. Estamos totalmente alinhados com a estética da imigração e com as diretrizes legais”, afirma Rafael.

Para Aline, o episódio revela a necessidade de maior clareza nas regulamentações. “Falta uma liderança que estabeleça diretrizes objetivas. Não pedimos incentivo financeiro, apenas apoio institucional e diálogo”, destaca.

Na contramão da burocracia, a solidariedade entre produtores surpreendeu. “Estive com o César, que cultiva 25 hectares em Farroupilha. Ele abriu as portas, compartilhou experiências, cedeu ferramentas. Ofereci minha ajuda na área de engenharia. Isso é parceria. É assim que queremos construir”, relata Rafael.

Uma marca com identidade e futuro

A primeira colheita significativa deve ocorrer dentro de três anos, atingindo o auge por volta do oitavo ano. Até lá, a proposta é envolver o público em todo o processo, desde o plantio até a extração do azeite, que poderá ser feita com técnicas tradicionais, reforçando o caráter cultural da experiência. “Queremos mostrar desde agora como cuidamos da planta, do solo, da história. O marketing começa na raiz”, observa Aline.

A marca Sanpiero, já registrada, será o guarda-chuva de todas as iniciativas, da hospedagem à produção de azeite. “Tem força, identidade, ligação com a fé e com a cultura. Veio com propósito e será nossa assinatura”, destaca Aline.

Acreditar, unir e transformar

Para quem deseja empreender na olivicultura ou no turismo rural, De Toni resume em três pilares: acreditar, buscar conhecimento e construir alianças. “Sozinho é mais difícil. Mas quando há união, todo mundo cresce junto”, afirma.

Aline acrescenta: “Não se trata apenas de plantar oliveiras. Trata-se de plantar possibilidades. De mostrar que Bento Gonçalves pode continuar crescendo com inovação, sem perder suas raízes”, conclui.
Mais do que uma plantação, o que se cultiva em Bento é uma ideia: de que memória, natureza, gastronomia e hospitalidade podem caminhar lado a lado, entre oliveiras, histórias e sonhos.