Aos 26 anos, o bento-gonçalvense Henrique Minusso tomou uma decisão que, para muitos, pode parecer impensável: deixou o Brasil e foi para a Ucrânia para atuar em meio à guerra contra a Rússia. A escolha, segundo ele, está relacionada principalmente ao desejo de ajudar pessoas que vivem em meio ao conflito e à necessidade de buscar recursos para auxiliar no tratamento de sua mãe. “Além disso, no meu caso era algo que desde criança eu já falava que se um dia eu tivesse a oportunidade de ir para uma guerra eu iria e cá estou”, conta.
A chegada ao território ucraniano, conforme Minusso, ocorreu sem grandes problemas. Antes de viajar, ele afirma ter se preparado psicologicamente para encontrar uma realidade marcada por ataques, destruição e insegurança. Ainda assim, a experiência de estar em uma região de guerra rapidamente trouxe situações que, até então, faziam parte apenas de notícias acompanhadas à distância.
Na capital ucraniana, Minusso conta ter vivenciado um ataque com mísseis. Segundo ele, quatro projéteis atingiram o solo a alguns quilômetros de onde estava.
Por questões de segurança, o bento-gonçalvense evita revelar detalhes sobre sua localização, funções e operações das quais participa. Ele afirma que os integrantes são constantemente monitorados por serviços de inteligência e que informações sobre as atividades podem representar riscos. “Desde o momento que é feita a entrevista de seleção para o recrutamento, a Rússia já consegue todas as nossas informações, infelizmente”, pontua.
A rotina também inclui a possibilidade de evacuação. Conforme Minusso, ameaças de ataques são frequentes na região onde está e, quando há indicação de que determinado local pode ser atingido, os militares precisam seguir protocolos de segurança e deixar a área por serem alvos.
Para a população civil, porém, a rotina segue, na medida do possível. Segundo ele, os ucranianos procuram manter suas atividades mesmo diante dos alertas. “Pelo o que vejo eles lidam bem até com isso, só a realidade e cotidiano dos que estão mais próximos das linhas de combate foram mais afetados em todos os sentidos. O povo ucraniano é muito guerreiro, não se deixa abalar”, afirma.
Primeiro ataque trouxe frio na barriga
A primeira experiência diante de uma ameaça de ataque, segundo ele, provocou o esperado nervosismo. O alerta, entretanto, não resultou em consequências no local onde estava.
A situação foi diferente quando ele estava sozinho na capital. Naquela noite, a cidade foi alvo de um ataque envolvendo drones e mísseis. Minusso afirma que quatro deles chegaram a atingir o solo.
Mesmo diante da possibilidade de algo acontecer, ele diz que sua primeira reação foi avisar as pessoas próximas. “Na hora não senti nada, só avisei aqueles importantes pra mim pra ficarem cientes se caso eu não desse mais notícias”, afirma.
A experiência também trouxe contato com uma realidade pouco visível para quem acompanha a guerra de longe. Em um dos locais seguros onde permaneceu após sua chegada, a eletricidade era fornecida apenas durante o dia, por meio de gerador. Durante a noite, o local permanecia completamente às escuras, inclusive como medida para dificultar sua identificação por forças inimigas.
Apesar de tudo o que encontrou, Minusso diz que não houve uma grande surpresa em relação ao que esperava da guerra, justamente porque acompanha o conflito há bastante tempo. Uma coisa, porém, chamou sua atenção: a beleza da Ucrânia, que, segundo ele, permanece mesmo diante dos efeitos da guerra.
Decisão não foi compreendida por todos
A ida para a Ucrânia também provocou reações diferentes entre familiares e amigos. Minusso conta que poucas pessoas sabiam antecipadamente da viagem e que a decisão não foi inicialmente aceita por todos.
Ele, entretanto, afirma que aqueles que o conhecem bem já sabiam que dificilmente desistiria.
A disposição para ajudar pessoas em situações extremas, segundo o bento-gonçalvense, não começou na Ucrânia. Ele lembra que também deixou o emprego para auxiliar durante as enchentes e deslizamentos que atingiram Bento Gonçalves.
Na ocasião, afirma ter participado do resgate de 13 pessoas na comunidade de São João de Nepomuceno. “Meu instinto de ajudar sempre falou mais alto”, explica.
É justamente essa característica que Minusso aponta como uma das principais razões para sua presença na Ucrânia. “Não vim só pela guerra, mas sim também por aqueles que são indefesos e precisam de ajuda”, enfatiza.
Embora seja movido, segundo seu relato, pelo desejo de ajudar, Minusso também confirma que sua atuação é remunerada. Conforme ele, existe um salário mensal e os valores podem variar de acordo com o risco das missões, além de bônus e da área e função desempenhadas.
Ele evita, porém, fornecer informações sobre valores, operações ou detalhes que possam permitir sua localização ou identificar a estrutura em que está inserido.
O cuidado com a exposição também se estende às redes sociais. Minusso explica que os integrantes precisam evitar a publicação de fotografias que revelem sua presença ou localização.
Professor alerta para distância entre a guerra real e a imagem das redes sociais
A decisão de jovens estrangeiros de se deslocarem para zonas de conflito não pode ser analisada apenas pela perspectiva da aventura ou do desejo de ajudar. Para o professor Marco Aurelio da Silva, dos cursos de Comércio Exterior e Relações Internacionais do Centro Universitário da Serra Gaúcha (FSG), a busca por propósito, pertencimento e reconhecimento também pode influenciar esse tipo de escolha.
De acordo com Silva, que é segundo-sargento da reserva do Exército Brasileiro e ex-integrante do Pelotão de Operações Especiais (PELOPES), alguns jovens podem enxergar a guerra como uma oportunidade de provar seu valor ou participar de uma causa considerada maior. “A atração de jovens por conflitos estrangeiros resulta da combinação de fatores psicossociais e contextuais. Em um cenário socioeconômico individualista ou de incertezas no mercado de trabalho, a ideia de defender uma ‘causa maior’ oferece uma falsa sensação de propósito e heroísmo. Há uma ilusão de aventura e status, onde a guerra é vendida como o ápice da provação masculina ou da virtude moral. O voluntário muitas vezes busca o prestígio social de ser visto como um ‘defensor da liberdade’ ou um ‘guerreiro’.

Ele aponta ainda a influência das redes sociais. A guerra entre Rússia e Ucrânia, conforme o professor, ganhou forte presença em plataformas como TikTok e Telegram, onde vídeos com estética militar podem apresentar o conflito de maneira muito diferente da realidade encontrada no campo de batalha. “A Guerra da Ucrânia é frequentemente chamada de a primeira guerra do TikTok/Telegram. O recrutamento e a propaganda ocorrem por meio de vídeos editados com estética militar (militok ou military edits), trilhas sonoras épicas e narrativas higienizadas que filtram o horror real da linha de frente”, salienta.
Para ele, existe uma espécie de “higienização” da guerra nesses conteúdos, que pode esconder elementos como medo, mortes, ferimentos, frio, privação de sono, lama e a constante possibilidade de ataques.
Na prática, explica Silva, a guerra moderna é marcada pelo uso de drones, artilharia e minas terrestres. Muitas vezes, o combatente sequer consegue visualizar de onde parte a ameaça.
Histórico e desilusão no conflito
Embora o Brasil tenha tradição diplomática pacífica e de não intervenção, a presença de voluntários individuais em conflitos estrangeiros não é nova. Houve voluntários na Guerra Civil Espanhola (1936-1939), na Legião Estrangeira Francesa, na luta contra o Estado Islâmico (Curdistão) e, mais recentemente, na Ucrânia.
Do ponto de vista do Direito Internacional e da legislação brasileira, voluntários em forças armadas regulares de outro Estado geralmente não são enquadrados estritamente como mercenários (que lutam exclusivamente por lucro financeiro direto), mas sim como combatentes voluntários estrangeiros. “No entanto, o enquadramento legal é complexo e o apoio consular do Brasil em zonas de guerra ativa é extremamente limitado. Além disso, o Ministério das Relações Exteriores do Brasil (Itamaraty) alerta que os combatentes podem enfrentar investigação e responsabilização criminal no Brasil ou em cortes internacionais por sua participação em forças estrangeiras ou grupos paramilitares”, salienta.
Segundo Silva, a vasta maioria dos voluntários enfrenta uma desilusão brutal ao chegar ao campo de batalha. “Muitos tentam quebrar o contrato ou retornar antecipadamente ao perceberem que não há estrutura de apoio, evacuação médica garantida ou superioridade tática como nas guerras ocidentais anteriores”, frisa.
A assimetria entre a ficção/mídia e a realidade no front atual é devastadora, segundo o docente. Ele destaca entre os principais pontos:
- Abstração da morte e violência: jogos de videogame (como Call of Duty) e filmes transmitem a ideia de controle, agilidade e recompensas imediatas. Na guerra real moderna, prevalece a invisibilidade da ameaça: a maioria das mortes e ferimentos graves ocorre por artilharia pesada, drones suicidas e minas terrestres, situações onde a habilidade individual ou a coragem do combatente não fazem diferença alguma;
- Condições degradantes de sobrevivência: a ficção omite o desgaste físico diário: privação extrema de sono, frio intenso, lama, contaminação, escassez de suprimentos básicos e a constante tensão de destruição iminente sem ver o inimigo;
- Ausência de amparo: ao contrário dos exércitos de nações da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN), a Legião Internacional ou tropas voluntárias frequentemente enfrentam falhas de comunicação, barreira linguística e falta de suporte logístico básico.
Impactos
O professor também chama atenção para uma questão que ultrapassa o período de permanência na zona de conflito: as consequências psicológicas e físicas que podem permanecer após o retorno ao Brasil.
Segundo ele, experiências prolongadas em ambientes de guerra podem provocar traumas, hipervigilância, problemas de sono, depressão e dificuldades de reintegração à vida civil.
Além dos riscos psicológicos, Silva ressalta a possibilidade de ferimentos graves e sequelas permanentes, principalmente em um ambiente no qual os riscos de explosões, drones, artilharia e minas são constantes. “Há riscos elevados de amputações, perda auditiva e incapacidades físicas permanentes em um ambiente sem garantias previdenciárias ou de assistência médica contínua no retorno ao Brasil”, salienta.
A volta para uma rotina sem os mesmos níveis de ameaça também pode representar um desafio. Depois de vivenciar situações extremas, explica o professor, alguns combatentes podem encontrar dificuldades para retomar relações sociais e atividades profissionais, gerando isolamento social severo e risco de suicídio.
Isso ocorre em um contexto no qual o Estado brasileiro mantém posição de neutralidade diante do conflito e desaconselha formalmente seus cidadãos a se deslocarem para áreas de combate.
Para Silva, além dos riscos físicos e psicológicos, quem toma esse tipo de decisão precisa compreender que a proteção consular brasileira em uma zona de guerra é extremamente limitada e que a participação em forças estrangeiras pode envolver questões jurídicas complexas.




