Comunidade ressalta a sensação de segurança e a estrutura do bairro, enquanto empresários relatam os desafios do mercado, da contratação de pessoas e das obras de infraestrutura
Localizado na transição entre a área urbana e o distrito de São Pedro, o Barracão reúne características que o diferenciam de outras regiões de Bento Gonçalves. Com forte ligação à imigração italiana, presença de empreendimentos industriais, comércio consolidado e proximidade com o roteiro turístico Caminhos de Pedra, o local mantém um perfil predominantemente residencial, preservando aspectos do ambiente rural ao mesmo tempo em que acompanha o crescimento da cidade.
Tradição italiana permanece presente
Morador do Barracão desde o nascimento, Sérgio Tormen afirma que a infraestrutura disponível atualmente atende às necessidades da população. “Hoje temos iluminação pública, água encanada, posto de saúde, mercado, internet e telefonia. Agora também está sendo implantado o sistema de esgotamento sanitário. Claro que seria interessante contar com uma farmácia ou algum serviço bancário, mas sabemos que isso depende de diversos fatores. No geral, o bairro está bem estruturado”, afirma.
Além da infraestrutura, Tormen acredita que o principal patrimônio do Barracão continua sendo sua relação com a imigração italiana. Segundo ele, durante muitos anos a origem colonial era vista com certo preconceito, principalmente por quem vivia mais próximo da região central da cidade. Com o fortalecimento do turismo e da valorização histórica, esse cenário começou a mudar. “Houve uma época em que ser descendente de imigrantes italianos ou morar no interior era motivo de discriminação. Hoje acontece justamente o contrário. As pessoas passaram a valorizar essa história e perceberam que ela é um diferencial. O turismo ajudou muito nesse processo, principalmente com o desenvolvimento do Caminhos de Pedra”, observa.
Para o morador, o movimento atual representa um resgate da memória dos antepassados, inclusive por meio da preservação das antigas construções em pedra, que durante décadas chegaram a ser escondidas sob camadas de reboco. “Antes muitas famílias cobriam as pedras porque isso era considerado motivo de vergonha. Agora acontece o inverso: as pessoas retiram o reboco para recuperar a construção original. É uma valorização da nossa história.”
Infraestrutura acompanha crescimento do bairro
Embora o Barracão mantenha características de uma comunidade tradicional, os entrevistados avaliam que os serviços públicos acompanharam parte do crescimento registrado nos últimos anos.
A percepção de melhora também aparece nas falas de Tormen, que considera os serviços básicos satisfatórios. “A coleta de lixo funciona normalmente, tanto para resíduos orgânicos quanto recicláveis. Também temos abastecimento de água e iluminação pública. São serviços que atendem bem a comunidade”, afirma.
Saúde
Entre os equipamentos públicos mencionados pelos entrevistados, a Unidade Básica de Saúde (UBS) aparece como um dos serviços mais elogiados. Embora utilize plano de saúde particular para consultas e atendimentos de maior complexidade, Tormen afirma que o posto do bairro atende diferentes necessidades da população. “Sempre que precisamos de algum atendimento mais simples utilizamos o posto. Temos médico durante a semana, atendimento odontológico em determinados dias e o agente de saúde passa regularmente nas residências. As informações que recebemos dos moradores são bastante positivas”, relata.
Calçadas ainda representam um desafio
Se por um lado a infraestrutura básica recebe avaliações positivas, por outro a acessibilidade dos passeios públicos continua sendo apontada como uma das principais demandas observadas pelos entrevistados.
Para Tormen, o problema não está apenas na ausência de calçadas em determinados trechos, mas também na falta de padronização das estruturas existentes. Segundo ele, muitos passeios foram executados de maneiras diferentes, dificultando a circulação de pedestres. “Quando existe calçada, muitas vezes cada proprietário fez do seu jeito. Em alguns pontos ela é muito estreita, em outros simplesmente termina. Quem caminha pelo bairro precisa subir e descer da calçada o tempo todo”, observa.
O morador lembra que sua família investiu na construção da calçada em frente à residência após ser notificada pelo poder público, mas acredita que a fiscalização deveria ocorrer de forma uniforme em toda a comunidade. “A exigência é importante porque melhora a segurança dos pedestres, mas deveria acontecer para todos da mesma maneira. Ainda existem locais bastante movimentados onde a infraestrutura para quem caminha continua insuficiente”, argumenta.
Apesar da crítica, Tormen entende que a conservação dos espaços públicos também depende da participação da população. Na avaliação dele, além das ações do poder público. “A cidade vem sendo cuidada, mas também depende das pessoas. Cada morador e cada empresa podem colaborar cuidando da própria calçada, mantendo a frente da casa limpa e ajudando na conservação”, pondera.
Facilidade de acesso e redução do transporte coletivo
O bairro possui acesso facilitado ao centro da cidade e às rodovias da região, característica considerada estratégica para o deslocamento de moradores, trabalhadores e empresas.
Tormen explica que utiliza pouco o transporte coletivo por possuir veículo próprio, mas acompanha as mudanças ocorridas no serviço ao longo do tempo. Ele explica que a redução das linhas acompanha uma tendência observada em diversas cidades. “O que ouvimos das pessoas é que hoje existem menos horários do que havia antigamente. Mas isso não acontece apenas no Barracão. Em muitos lugares houve redução porque a demanda diminuiu”, avalia.
Tormen observa ainda que estudantes continuam contando com transporte para o deslocamento às escolas, seja por meio das linhas regulares ou do serviço disponibilizado pelo município. “Existe transporte para atender os estudantes nos diferentes turnos. Não posso dizer se é suficiente porque não utilizo o serviço, mas ele continua existindo”, pontua.
Jeferson Luchese Gugel, administrador de uma fábrica de tubos que está instalada no barracão há cerca de 30 anos, considera que a localização facilita tanto a chegada de trabalhadores quanto a logística da empresa. “É um bom lugar para ter empresa. Estamos próximos da saída da cidade e de bairros como Vila Nova e Santa Marta, o que facilita para quem trabalha aqui morar perto também”, afirma.
Na avaliação dele, outro ponto positivo é justamente a ausência de problemas frequentes relacionados à infraestrutura urbana. “Não existe nada que traga uma grande vantagem específica, mas também não temos dificuldades. A energia elétrica funciona bem, praticamente não há falta de água e conseguimos acessar a empresa pelos dois lados da rodovia”, ressalta.
Sócio-proprietário de um tradicional armazém do bairro desde 2009, Lucas Benvegnú compartilha avaliação semelhante. Para ele, estar um pouco afastado da região central representa uma vantagem competitiva para o comércio local. “Nossa localização acaba favorecendo o negócio justamente porque estamos fora da área central. Temos um público bastante fiel e isso acaba sendo um diferencial para a empresa”, explica.
Obras em andamento e segurança no bairro
Embora a infraestrutura viária seja considerada satisfatória, as obras de implantação do sistema de esgotamento sanitário aparecem como a principal dificuldade enfrentada atualmente pelos moradores e empresários. Benvegnú afirma que as obras executadas pela Companhia Riograndense de Saneamento (Corsan) dificultam o deslocamento diário e o acesso aos estabelecimentos comerciais. “Acaba dificultando bastante a circulação. No meu caso, até o acesso à minha casa ficou mais complicado porque encontraram um trecho de rocha durante a execução dos trabalhos”, detalha.
Apesar dos transtornos, Benvegnú ressalta que a principal reclamação histórica dos moradores sobre o abastecimento de água foi resolvida recentemente. Segundo ele, moradores da rua Avelino Signor enfrentavam problemas frequentes relacionados à baixa pressão da rede. “Durante bastante tempo havia muitas reclamações sobre falta de pressão e interrupções no abastecimento. Depois de vários chamados, a Corsan fez intervenções na tubulação e, pelo menos até agora, essa situação foi resolvida”, explica.
Tormen avalia que os transtornos fazem parte de uma obra que tende a trazer benefícios futuros para a comunidade e toda intervenção de infraestrutura provoca desconfortos temporários, mas os resultados costumam compensar os impactos durante a execução. “Nenhuma reforma acontece sem gerar transtornos. É como uma obra dentro de casa: sempre existe sujeira e desconforto durante um período. O importante é que o resultado venha para melhorar a vida das pessoas”, observa.

Segurança é considerada um dos principais pontos positivos
Os entrevistados afirmam que o Barracão é um bairro tranquilo e que não convivem com ocorrências frequentes de criminalidade.
A presença do complexo prisional estadual, inaugurado há cerca de sete anos, também aparece nas entrevistas. Diferentemente do que muitos imaginavam antes da instalação da unidade, os entrevistados afirmam que o presídio não aumentou os índices de violência na comunidade. “Muita gente acreditava que a instalação do presídio aumentaria a insegurança, mas aconteceu o contrário. Existe policiamento frequente e nunca tivemos problemas relacionados à presença do presídio”, afirma Tormen.
Jeferson Gugel também relata que a empresa nunca enfrentou ocorrências envolvendo segurança. “Aqui sempre foi um bairro bastante tranquilo. Nunca tivemos problemas nesse sentido”, ressalta.
Horário de liberação de presos gera preocupação entre moradores
Apesar da avaliação positiva sobre a segurança pública, um aspecto relacionado ao funcionamento do presídio aparece repetidamente nas entrevistas. Moradores relatam preocupação com o horário em que alguns detentos deixam a unidade após obterem liberdade. Segundo os entrevistados, muitos são liberados durante a noite ou na madrugada, quando já não há transporte coletivo disponível para retornar aos municípios de origem. Sem telefone, dinheiro ou informações sobre localização, essas pessoas acabam procurando ajuda nas residências próximas ao presídio.
Tormen afirma que a situação provoca receio, principalmente entre mulheres que permanecem sozinhas em casa. “Nunca aconteceu nada grave, mas essas pessoas saem do presídio sem saber onde estão. Muitas vezes precisam pedir ajuda para chamar um táxi, um familiar ou simplesmente pedir informações. Isso acaba gerando insegurança para quem mora nas proximidades”, explica.
Na avaliação dele, seria importante existir algum tipo de apoio no momento da liberação. “Talvez pudesse haver algum transporte até o centro da cidade ou pelo menos até um ponto onde existisse ônibus. Depois que deixam o presídio, acabam ficando sem alternativa”, explica.
Benvegnú afirma que essa é uma preocupação compartilhada por diversos moradores do bairro. “Essa talvez seja a principal reclamação dos moradores hoje. Como depois do início da noite praticamente não há mais ônibus, quem é liberado acaba batendo nas casas para pedir telefone ou informações. Não é uma questão de violência, mas gera receio nas famílias”, afirma.
Ao mesmo tempo, Benvegnú ressalta que esse cenário não altera a percepção geral de segurança do bairro. “Fora essa situação específica, o Barracão continua sendo muito tranquilo para morar”, pondera.
Cenário econômico exige adaptação
Apesar das diferenças entre os setores instalados no bairro, os empresários entrevistados relatam que o ano tem sido de desafios, exigindo adaptação diante do cenário econômico. Benvegnú afirma que o comércio vem enfrentando um período diferente dos anos anteriores, mas destaca que a necessidade de adaptação faz parte da rotina de quem empreende. “Está sendo um ano bem atípico e mais trabalhoso. Mas precisamos buscar soluções e nos remodelar conforme o mercado vai mudando. No nosso caso, como trabalhamos com mercado e agropecuária, uma atividade acaba complementando a outra, e isso nos deixa satisfeitos com o resultado”, explica.
Gugel avalia que o desempenho do setor industrial ficou abaixo das expectativas. “Esperávamos um ano melhor. O mercado está bastante estagnado e abaixo do que imaginávamos”, analisa.
Mão de obra
No comércio, Benvegnú relata que mudanças na organização da jornada contribuíram para aumentar o interesse pelas vagas oferecidas.
Segundo ele, o estabelecimento deixou de abrir aos domingos no início deste ano e passou a adotar uma escala diferente para os funcionários. “A contratação sempre foi uma dificuldade para o varejo. Depois que deixamos de abrir aos domingos, percebemos uma mudança muito grande. Hoje temos a equipe completa e já existe procura pelas próximas vagas”, ressalta.
Ele explica que boa parte dos funcionários mora no próprio Barracão ou em bairros próximos, o que também facilita a formação das equipes.
Na indústria, a realidade é diferente. Jeferson Gugel afirma que a empresa consegue contratar quando necessário, embora reconheça que isso exige planejamento e utilização de diferentes formas de recrutamento. “Quando precisamos contratar, sempre conseguimos. Claro que é necessário buscar candidatos, mas até hoje não tivemos grandes dificuldades”, pontua.
Debate sobre a escala 6×1
Outro tema abordado durante as entrevistas foi a proposta de redução da jornada semanal de trabalho e o fim da escala 6×1, aprovada na Câmara dos Deputados e que ainda depende de análise pelo Senado. Os empresários entrevistados apresentam avaliações diferentes sobre os possíveis impactos da medida, embora concordem que mudanças na legislação podem produzir reflexos distintos conforme o segmento econômico.
Benvegnú afirma que seu estabelecimento já antecipou mudanças na organização das equipes e hoje trabalha com escala 5×2. Segundo ele, a decisão foi tomada antes mesmo de qualquer alteração na legislação. “Percebemos que oferecer dois dias de folga melhora a qualidade de vida dos funcionários e aumenta a motivação. Para nós, a mudança trouxe resultados positivos”, destaca.
O empresário explica que havia receio de perder vendas aos domingos, mas isso não ocorreu. “O movimento acabou sendo redistribuído para o sábado e para a segunda-feira. Não tivemos redução no faturamento”, relata.
Ao mesmo tempo, Benvegnú acredita que uma eventual redução da carga horária semanal poderá elevar os custos das empresas e, consequentemente, refletir no preço dos produtos ao consumidor. Na avaliação dele, caso a proposta seja aprovada, a propensão é de aumento nos preços em razão da elevação dos custos de produção. “A tendência é aumentar o custo de produção e isso acaba sendo repassado ao preço dos produtos. A questão principal não é apenas a escala, mas a redução das horas trabalhadas”, avalia.
Na indústria, Jeferson Gugel entende que a proposta teria pouco impacto na rotina da empresa, que já não realiza expediente aos finais de semana.
Segundo ele, eventuais ajustes poderiam ser feitos sem alterar significativamente o funcionamento das atividades. “Analisamos a proposta e concluímos que, para nós, praticamente não mudaria nada. Talvez fosse necessário ajustar alguns horários, mas não vejo grandes impactos”, explica.
Ainda assim, ele avalia que a redução da jornada não representa solução para os problemas enfrentados pelos trabalhadores. “Quem precisa aumentar a renda normalmente procura trabalhar mais, não menos. Aqui, inclusive, já tivemos funcionários pedindo para fazer horas extras”, argumenta.




