Estilo ecoa como herança viva na Serra Gaúcha, atravessando gerações e se reinventando sem perder suas raízes. Em Bento Gonçalves, onde a imigração moldou costumes e identidades, o gênero vai além do entretenimento: é expressão cultural, memória coletiva e também projeto de vida para artistas que encontram na tradição um caminho profissional.
Das raízes na roça ao palco
A trajetória da cantora Ines Rizzardo exemplifica essa ligação profunda com a música desde a infância. Filha de descendentes de italianos, ela cresceu no interior, na Linha Eulália, em meio ao trabalho na roça e às cantorias em família. “Aprendi a cantar desde pequena, enquanto capinávamos. Era algo natural, vinha de casa”, relembra.
As primeiras experiências em grupos comunitários e corais, em Pinto Bandeira, ajudaram a consolidar essa conexão com o repertório italiano. A mudança para a cidade trouxe um vazio que só foi compreendido mais tarde. “O que estava faltando era cantar”, afirma.
A decisão de viver da música
Mesmo conciliando o trabalho em um salão de beleza, Ines encontrou formas de manter a música presente, cantando em casamentos e eventos. A virada profissional veio após mais de uma década, quando decidiu dedicar-se exclusivamente à carreira artística.

Desde então, soma 25 anos vivendo da música italiana, com apresentações em diversos estados brasileiros e atuação constante no tradicional passeio de Maria Fumaça, um dos principais atrativos turísticos da região.
Entre emoção e cultura
Mais do que interpretar canções, Ines vê seu trabalho como um elo entre culturas. “Você leva um pouco disso através da música. As pessoas sentem isso e se emocionam”, diz.
Para ela, cada apresentação é única, independentemente do tamanho do público. “Não existe um momento mais marcante, cada show tem sua emoção”, indica. A interpretação, segundo a cantora, muda conforme o arranjo e o sentimento do momento, tornando cada execução singular.
Uma vida dedicada à tradição italiana
O músico Marco Antônio Borges também construiu sua trajetória a partir dessa herança cultural. Com 30 anos de atuação ligados à Maria Fumaça e quase cinco décadas de carreira, ele define a música italiana como uma vocação. “Esta fala mais alto, ela é romântica, mas também carrega a dor e a história dos imigrantes. Ainda não me sinto totalmente realizado, pois tenho um sonho ainda maior que será meu circuito cultural com minha banda”, explica.
Influenciado pelo ambiente familiar, onde a música sempre esteve presente, encontrou no gênero sua principal forma de expressão. “Meu pai era apaixonado por música, nossa casa foi, durante minha infância, sala de ensaio de vários grupos musicais, não poderia ser de outra maneira, e tenho certeza que esse foi o propósito de Deus. Não somos nós que escolhemos a música, ela nos escolhe, isso já está definido desde o ventre de minha mãe, tenho certeza”, afirma.
Identidade artística
Ao longo dos anos, Borges transitou por diferentes estilos musicais, passando por bailes e repertórios variados. A partir da década de 1990, porém, passou a construir um estilo voltado à cultura italiana. “Meu querido amigo e irmão de música Gilmar Dias foi o grande inspirador, não poderia esquecer do saudoso Agenor Pertile que me colocou nos palcos e sempre admirou meu trabalho. Na música italiana sem dúvidas Pepino de Capri, mas o meu maior ídolo com certeza foi Gilberto Valduga, o Beto”, frisa sobre suas principais influências.

Projetos como apresentações em hotéis e grupos musicais consolidaram esse caminho. Hoje, aposta em um novo formato com banda e no desenvolvimento de um circuito cultural italiano, com a proposta de ampliar o alcance da tradição. “Depois do primeiro trio, eu na voz e violão, Arialdo Girardi Eitelven (teclados e vocal) e minha filha Bruna como cantora (atualmente no Samba de Moça) e de uma segunda formação, hoje a banda é formada por mim, Fernanda Zucculotto no backing vocal, Olides Longhi (teclados), Rodolfo Casagrande (bateria) e Vanderlei Fontanella, conhecido como Mestre Nambu (saxofone). Além disso, há os bailarinos, João Ricardo da Silva Vieira e Géssica Vieira”, enfatiza.
Segundo ele, esse novo formato sempre esteve presente na sua mente. “O projeto era praticamente um sonho, não ia para frente por talvez, a má vontade das pessoas, a panela que até hoje está entranhada na nossa cultura. No entanto, ano passado tive a sorte de conversar com a presidente do Conselho Municipal de Política Cultural, Daniela Copat, e falar isso, ela prontamente me ouviu e acreditou. Depois disso, junto com a Fernanda Tomazi o projeto saiu e fui contemplado com uma ótima pontuação devido à ideia de levar esse show às periferias”, afirma.
A música como memória
Para Borges, a música sempre teve um papel essencial na vida dos imigrantes italianos. “Basta lembrar dos filós, quando as famílias se reuniam para trabalhar e cantar. Era uma forma de amenizar a saudade e o sofrimento. Se reuniam para fazer a dressa (palha para confecção de cestas, chapéus) e outras tarefas, mas o principal eram as cantorias trazidas na mala da esperança que aqui acreditavam encontrar a grande cucagna (sorte, fartura). Vejo um grande avanço da cultura italiana nas grandes cidades, como Bento, mas cidades menores não tem tanto respaldo e não chegam grandes atrações até pela verba cultural que é bem menor”, enfatiza.
Esse passado segue presente nas apresentações atuais, que combinam música, dança e narrativa histórica, mantendo viva a memória coletiva das comunidades.
Dificuldades e valorização
Apesar da força da cultura italiana na Serra Gaúcha, o músico aponta desafios. “Há espaço para novos talentos. Precisamos valorizar mais os artistas locais. O que me move a seguir adiante é com certeza o amor e a escolha pela música, e ainda mais buscando novos talentos nesses municípios onde talvez nunca tenham oportunidade para tal”, ressalta.
Novas gerações mantêm a tradição
A renovação do público é um dos sinais de que a música italiana segue viva. Ines observa o crescente interesse de jovens e crianças pelo gênero. “Eles estão cultivando as raízes dos pais. Isso não se perde”, diz.
Para ela, o envolvimento das novas gerações garante a continuidade de uma tradição que se adapta ao tempo sem perder sua essência.
Um patrimônio que segue nos trilhos
Entre desafios como a necessidade constante de aprimoramento técnico e os impactos recentes de crises como a pandemia e as mudanças climáticas, os artistas seguem movidos pelo vínculo afetivo com a música. “É uma profissão que não para”, conclui Ines.