Fundada em 27 de agosto de 1966, a APAE de Bento Gonçalves completa 60 anos marcada por uma trajetória construída a partir da mobilização de famílias e pelo apoio da população. Para celebrar a data e, ao mesmo tempo, aproximar a população da realidade da instituição, a entidade realizou, no sábado, 22, o Jantar Comemorativo – 60 Anos da APAE de Bento Gonçalves, no Salão do bairro Licorsul. O encontro reuniu cerca de 530 pessoas e contou com apresentação musical de Roque Pase, além de apresentações de usuários da instituição.
A realização do jantar também foi resultado de uma parceria com a Comunidade Santa Catarina, responsável pela preparação voluntária da refeição. De acordo com a coordenadora, Silvia Tonello Rizzardo, a escolha da APAE ocorreu dentro de uma tradição de destinar anualmente um dos eventos da comunidade a uma entidade. “Nós sempre fazemos, todos os anos, um dos nossos eventos de forma beneficente, para alguma entidade que nos procura. Este ano, quem nos procurou foi a Apae, e a gente disse o nosso ‘sim’ a eles”, relata.
A preparação para receber o público começou meses antes do evento, com reuniões e organização dos diferentes detalhes. Para Silvia, apesar do trabalho envolvido, a mobilização voluntária é recompensadora. “É bem trabalhoso, mas, assim, é muito gratificante. Eu digo que é mais gratificante do que trabalhoso, porque a gente trabalha, se doa”, afirma. Ela também reforça que a expectativa era de que o jantar ultrapassasse a dimensão comemorativa e se transformasse em uma oportunidade de apoio à instituição. “Que as pessoas que estão aqui, e também os demais que estão nos vendo, contribuam quanto mais para a Apae”, pede.

Uma história construída pela comunidade
A história da APAE começou com pais e famílias que buscavam um espaço capaz de acolher e desenvolver seus filhos. Segundo a diretora pedagógica Vanda Maria Lunardi Ferronatto, que atua há 55 anos na instituição, os primeiros passos foram dados em uma garagem, antes da entidade ser acolhida no Salão Paroquial Cristo Rei e, posteriormente, chegar à Avenida Planalto, em 1968. “A Apae é uma guerreira. Iniciou com um movimento de pais que buscavam um lugar para os seus filhos. Alguém que os conhecesse e desse oportunidade para que eles tivessem um desenvolvimento global”, ressalta Vanda. Ela recorda que a primeira sede própria, embora simples, foi viabilizada principalmente pela mobilização da população e dos clubes de serviço. Ao longo das décadas, a entidade ampliou sua estrutura e passou a incorporar novos serviços conforme surgiam as necessidades das pessoas atendidas.
A mudança para a atual sede, no bairro Imigrante, representa uma dessas etapas de expansão. Conforme Vanda, o espaço foi escolhido para possibilitar a ampliação das atividades e oferecer melhores condições de atendimento. “É um local amplo, onde nós podemos nos expandir, criar novos recursos para que os atendimentos tenham uma melhor qualidade”, explica.

Hoje, a APAE atua nas áreas de educação, saúde, assistência social e cultura, além de desenvolver ações voltadas à educação profissional. A Escola de Educação Especial Mundo Alegre atende pessoas com deficiência intelectual no Ensino Fundamental e na Educação de Jovens e Adultos (EJA), enquanto os serviços de saúde contam com profissionais de diferentes áreas. Também são desenvolvidas atividades culturais, esportivas e de preparação para o mundo do trabalho.
Para o pai atípico Ivo Ariotti, a importância da instituição ultrapassa os serviços oferecidos. A relação da família com a APAE começou quando o filho tinha seis anos e, desde então, o espaço passou a fazer parte da rotina familiar. “Hoje, a Apae, em si, é a segunda casa do meu filho, onde ele se sente bem, onde ele é tratado com igualdade”, relata.
Ivo, que também integra a diretoria da entidade desde 1996, ressalta o ambiente de acolhimento como um dos principais diferenciais. “Hoje, a Apae é uma entidade indispensável para a população. Ela é indispensável”, afirma. Para ele, a instituição disponibiliza não apenas atendimento especializado, mas também um espaço em que as pessoas com deficiência encontram acolhimento e respeito.
A percepção de inclusão também esteve presente na programação do jantar. Durante a noite, foram apresentadas atividades de dança e capoeira, além de vídeos institucionais sobre a trajetória da entidade. A proposta, segundo o ex-presidente da APAE Paulo César Ranzi, foi permitir que a comunidade conhecesse melhor as capacidades dos usuários. “Nós queremos mostrar que eles têm condições, têm capacidade para praticar muitas atividades. Nós só temos que descobrir e explorar o potencial de cada um”, afirma Ranzi. Ele explica que cada pessoa possui características e habilidades próprias e que o trabalho da instituição busca identificar esses potenciais para ampliar a participação e o sentimento de pertencimento.
Sustentabilidade como desafio
A celebração dos 60 anos também ocorre em um momento em que a busca por recursos permanece entre os principais desafios da instituição. Segundo Ranzi, ao longo das últimas décadas houve mudanças na forma de financiamento das entidades. Recursos que anteriormente eram destinados de maneira mais ampla passaram a estar vinculados a projetos e emendas, exigindo das diretorias uma atuação permanente na captação. “A instituição tem que batalhar para conseguir recursos para aquelas despesas que não são cobertas com os projetos e com as emendas”, explica. Paralelamente, ele aponta a necessidade de acompanhar as transformações tecnológicas e qualificar continuamente os profissionais que atuam nos atendimentos.

O presidente da APAE, Augusto Giacomini, reforça que a manutenção da instituição depende de uma rede formada por diferentes setores. Pessoas físicas, empresas e o poder público participam, em diferentes frentes, da sustentação das atividades. “A Apae tem uma história muito bonita, de muito esforço e de muito apoio da comunidade”, afirma.
A contribuição pode ocorrer de diferentes maneiras, segundo Giacomini. “A população pode ajudar da forma que ela puder e da forma que ela quiser. A gente tem diversas formas de receber contribuições, seja monetária, seja por meio da prestação de serviços sem contraprestação, por meio do voluntariado”, explica.
Um futuro construído em parceria
Ranzi avalia que a continuidade da entidade depende da capacidade de ampliar os atendimentos e responder às demandas existentes. Atualmente, ainda há pessoas em fila de espera para serviços da escola, da assistência social e da saúde. “A ideia é tentar atender ao máximo o número de usuários e alunos, que ainda têm fila de espera”, afirma.
A perspectiva é de expansão gradual, apoiada na construção de novas parcerias e na captação de recursos.
Para Ivo, a comemoração dos 60 anos também deve servir para ampliar a compreensão da sociedade sobre a importância da entidade e combater visões equivocadas sobre o trabalho realizado. Ele defende que a população conheça a estrutura e os serviços oferecidos antes de formar uma opinião sobre a instituição.
Para Giacomini, a mensagem aos moradores de Bento Gonçalves está diretamente relacionada ao ato de contribuir. “Eu acho que a mensagem que eu teria para dar para a população é que ajudar é muito bom. Faz bem para quem é ajudado, mas faz ainda melhor para quem é vindo”, conclui.






